Doutor Sono: crítica de filme (com spoilers)

Doutor Sono (título original: Doctor Sleep) é a continuação do horror sobrenatural O Iluminado, de Stanley Kubrick, e adaptação do romance homônimo de Stephen King, que traz o agora adulto Danny Torrance tendo que lidar com os traumas dos eventos havidos no hotel Overlook, ao mesmo tempo em que precisa proteger uma garotinha iluminada que é alvo de um culto de assassinos quase-imortais. Dirigido por Mike Flanagan, que também assina o roteiro, a produção não deixa nada à desejar como sequência ao sucesso cult de Kubrick, e embora tenha o selo de aprovação de King, traz mudanças significativas na história em contrapartida ao desfecho do livro, o que de certa forma se presta justamente para homenagear o filme original de 1980.

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O filme começa pouco depois dos acontecimentos em O Iluminado. Danny Torrance (Roger Dale Floyd) segue psicologicamente traumatizado depois dos eventos havidos no hotel Overlook em 1980, e muda-se com a mãe, Wendy (Alex Essoe), para a Flórida, onde continua à ser assombrado pela mulher do quarto 237. Dick Hallorann (Carl Lumbly), morto no filme anterior por Jack Torrance (Jack Nicholson), aparece para Danny como fantasma, e o ensina à criar cofres em sua mente para conter os fantasmas de Overlook. Quase trinta anos se passam, e um agora adulto Danny (Ewan McGregor) se tornou alcoólatra como o pai como forma de suprimir seu dom como iluminado. Eventualmente ele decide parar de beber com a ajuda de Dick e de seu melhor amigo, Billy Freeman (Cliff Curtis), mudando-se para uma pequena comunidade em New Hampshire, onde acaba frequentando reuniões dos alcoólicos anônimos e trabalhando numa casa de repouso. Suas habilidades psíquicas reemergem com a sobriedade, e com a ajuda de um gato ele se torna capaz de fornecer algum conforto para pacientes prestes à morrer, ganhando assim o apelido de Doutor Sono.

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Paralelamente, seguidores de um culto chamado Verdadeiro Nó que tem como líder Rose Cartola (Rebecca Ferguson), aparecem sorrateiramente na história como um grupo de quase-imortais que se alimentam de vapor, uma essência que pessoas iluminadas como Danny são capazes de produzir ao morrerem sentindo dor. Eles viajam pelo país capturando crianças iluminadas, para então tortura-las e mata-las para se alimentarem de seu vapor com fins de permanecerem eternos. Nesse cenário, tem Abra Stone (Kyliegh Curran), uma menina com habilidades psíquicas similares às de Danny, mas muito mais poderosas. Ela inadvertidamente estabelece contato com Danny, e os dois eventualmente trocam mensagens telepáticas ao longo dos anos, até que um dia Abra vê os membros do Verdadeiro Nó torturarem e matarem uma criança iluminada. Ao ser identificada por Rose Cartola, que planeja sequestra-la e torna-la fonte inesgotável de vapor para o grupo, Abra decide procurar a ajuda de Danny para localizar o Verdadeiro Nó antes que seja tarde.

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Claro que o hotel Overlook tem parte significativa na história. Num plano para colocar fim ao terror do Verdadeiro Nó, Danny e Abra atraem Rose Cartola ao infame local dos terríveis acontecimentos em O Iluminado. Agora abandonado, o hotel segue assombrado pelos fantasmas que ali habitam, e o clímax do filme traz à tona memórias nada agradáveis à Danny (e à audiência), que mais uma vez tem o desprazer de reencontrar as gêmeas Grady, a mulher do quarto 237, e várias outras assombrações que atormentaram os Torrance há mais de quarenta anos, incluindo agora o próprio Jack Torrance (Henry Thomas), que também se tornou um fantasma aprisionado no hotel. Diferentemente do livro de Stephen King, onde Danny reconcilia-se com o pai, o qual inclusive o ajuda no confronto final com Rose Cartola, o filme traz uma proposta alternativa na qual Danny acaba se tornando uma espécie de mentor para Abra da mesma forma que Dick Hallorann em O Iluminado, abraçando inclusive o mesmo destino que este no filme anterior.

Intenso, provocativo e arrepiante, Doutor Sono captura com louvor os elementos do filme O Iluminado. Com ritmo lento, cinematografia impecável e trilha sonora aterradora—boa parte emprestada do filme anterior—, a adaptação de Mike Flanagan tem bons momentos de tensão que fazem a audiência se contorcer na poltrona. A inesperada reviravolta final que se distancia da obra de Stephen King em relação ao destino de vários personagens provoca uma certa catarse à quem esperava uma versão mais fiel ao livro, mas acaba funcionando relativamente bem como homenagem ao filme de Stanley Kubrick, o qual também tomou certas liberdades em relação à sua versão original. Os destaques ficam obviamente para Ewan McGregor e Kyliegh Curran, enquanto Rebecca Ferguson abraça com perfeição o papel de antagonista.

Doutor Sono estreia nos cinemas brasileiros no dia 7 de novembro.

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