Review do episódio #1.01 de Watchmen: “It’s Summer and We’re Running Out of Ice” (episódio de estreia)

Se você for assistir ao episódio de estreia de Watchmen, nova série da HBO inspirada na Graphic Novel homônima criada por Alan Moore e Dave Gibbons, esperando uma sequência ao filme de 2009, dirigido por Zack Snyder, lamento informar, mas irá se decepcionar. Exceto por alguns elementos e poucas referências à saga de Moore—que fez desestabilizar o universo dos super-heróis como gênero nos idos dos anos de 1980 ao direcionar os quadrinhos para um público mais adulto através de tramas mais sofisticadas—, Damon Lindelof entrega uma nova narrativa que acontece 34 anos depois da popularização dos heróis mascarados e do superpoderoso gigante azul que ajudaram à tornar os Estados Unidos um país fascista.

MV5BMWYxMmUwNGEtZDUwYi00YTQ4LWIwNzUtODI5NmY1YTdlY2FkXkEyXkFqcGdeQXVyMDM2NDM2MQ@@._V1_SY1000_SX1500_AL_

Nessa nova realidade alternativa de Lindelof que acontece nos dias atuais, o ator Robert Redford é Presidente dos Estados Unidos há mais de 30 anos, tendo instituído diversas medidas neoliberais, enquanto os vigilantes mascarados são agora considerados fora-da-lei por conta de seus métodos nada ortodoxos, embora alguns estejam reunidos com o propósito de iniciar uma revolução, enquanto outros agem no intuito de impedir o pior, ao que a questão “Quem vigia os vigilantes?” vem novamente à tona. Nesse cenário, onde um grupo de supremacistas brancos seguidores do ex-vigilante Rorschach, que se autodenominam “A Sétima Cavalaria,” usam máscaras semelhantes à de Rorschach, preparam uma espécie de bomba com baterias de relógio, e cometem uma série de ataques contra policiais em suas próprias casas, fazendo com que estes também usem máscaras com fins de proteger suas identidades. O episódio de estreia dá a letra de que a narrativa agora gira especificamente em torno do racismo—algo jamais abordado na saga original de Moore—e mostra em seus instantes iniciais um flashback do Massacre de Tulsa em 1921, quando cidadãos brancos mataram dezenas de moradores do distrito de Black Wall Street, para logo depois se concentrar naquela que deve ser uma das personagens principais, uma ex-policial negra, agora vigilante, Angela Abar/Sister Night (Regina King).

MV5BMTg1NDhlNGMtOTc2NS00ZGVhLTk1ZmYtYTAyZjdiY2VlMjlhXkEyXkFqcGdeQXVyMDM2NDM2MQ@@._V1_SY1000_CR0,0,1499,1000_AL_

Talvez da mesma forma que na Graphic Novel, a série parece querer trazer de volta a ideia de pessoas comuns que se escondem atrás de máscaras para lutar por aquilo que acreditam ser motivações nobres, usando assim “a justiça dos vigilantes” para consertar uma sociedade desmantelada. O fato dos policiais na série usarem máscaras é a nítida representação de um sistema feito para proteger a sociedade que desmoronou. E se uma autoridade policial tem o poder decisional sobre o que é certo e errado para a sociedade e tem uma arma em punho para fazer isso valer, enquanto a máscara lhe confere o anonimato como forma de não ter esse poder contestado, a série coloca em xeque tal colocação ao revelar que a policia precisa de uma permissão especial para usar seu poder de fogo, bem como da ajuda de uma vigilante como Angela Abar/Sister Night para liderar uma investida contra “A Sétima Cavalaria”—que termina no massacre de várias vacas indefesas. Mas nada é mais fascinante no episódio de estreia do que o interrogatório feito por Wade/Looking Glass (Tim Blake Nelson), personagem esse que também empresta algo de Rorschach com sua máscara espelhada que parece fazê-lo capaz de ler as respostas aos seus questionamentos de maneira aprimorada, ao passo em que o chefe de policia, Judd Crawford (Don Johnson), aparece como uma espécie de figura paterna aos policiais, embora seu linchamento e enforcamento ao final em paralelo ao filme mostrado no começo do episódio e o musical Oklahoma! possam ser a pista para muito o que deve vir pela frente.

Como qualquer episódio de estreia que se preze, It’s Summer and We’re Running Out of Ice não traz qualquer pista acerca da proposta de Lindelof para sua adaptação do universo de Watchmen, e tampouco confere empatia em relação à quaisquer dos personagens. Embora seja certo dizer que a agenda agora é o racismo—numa clara inclinação em relação à realidade atual—, a série se mostra desinteressante em sua estreia ao se distanciar consideravelmente do universo de Alan Moore. Por outro lado, a produção é visualmente inebriante e cinematograficamente impecável para os padrões televisivos, ao passo em que cumpre bem sua tarefa como entretenimento, e promete muito mais nos episódios que vem por ai ao sugerir que a premissa da história original deve ser a mesma, qual seja, ninguém é herói ou bandido, e que talvez, no final das contas, a narrativa tenha começado exatamente como a versão original, com a morte de um super-herói, caso confirmada a teoria de que Crawford é o ex-vigilante Coruja/Dan Dreiberg.

Pontos Altos do Episódio:

  • Os Diários de Rorschach. Quando “A Sétima Cavalaria” anuncia em vídeo seu plano terrorista em citação ao monologo do personagem Rorschach, fica claro que seus diários efetivamente vieram à público através do jornal New Frontiersman.
  • Coruja. O super-herói não dá oficialmente as caras no episódio—à despeito da teoria de que Crawford é Dan Dreiberg—, mas sua aeronave, outrora cenário para a sequência erótico-romântica com Espectral II ao som de Hallelujah, de Leonard Cohen, no filme de Snyder, faz uma breve aparição à serviço da policia.
  • Uma caneca em forma de coruja também aparece nas mãos de Sister Night numa cena com o chefe de policia Judd Crawford em outra clara referência ao Coruja. Mais um indício de que Crawford é o ex-vigilante?
  • Doutor Manhattan. Na televisão, é mostrado que o personagem se encontra agora em Marte. Se veremos mais dele, ainda é um mistério. Espera-se, no entanto, que ele retorne com seu intérprete original, Billy Crudup.
  • Adrian Veidt/Ozymandias. O personagem retorna agora na pele de Jeremy Irons num segmento muito estranho. Ele aparece morando num suntuoso castelo, onde é servido por um mordomo e uma empregada que mais parecem ser androides à serviço de suas extravagâncias.
  • A chuva de lulas. O evento remete à história original da Graphic Novel, em que Ozymandias forjou uma invasão alienígena em Nova York em busca da paz mundial.
  • Na cena final, o distintivo de Judd Crawford próximo ao seu corpo é manchado por seu próprio sangue, numa clara referência ao broche em forma de Smiley do Comediante na primeira cena da saga original. Seria a morte de Crawford a morte de um super-herói—se acaso confirmada a teoria de que ele é o Coruja—, dando inicio à saga da mesma forma que a versão original?

Watchmen é uma série original do canal HBO e pode ser conferida via TV à cabo ou on streaming.

Anúncios

Deixe um Comentário

Anúncios
Anúncios