Coringa: crítica de filme (com spoilers)

Coringa (título original: Joker) é um thriller psicológico escrito e dirigido por Todd Phillips que adapta pela primeira vez nos cinemas a história de origem do icônico vilão da DC Comics, o nêmeses do Batman, Coringa. Alvo de uma extrema experiência regada à muitas críticas negativas semanas antes da estreia, a produção, vencedora do Leão de Ouro no festival de Veneza—prêmio esse geralmente conferido à filmes de arte eruditos—, é ambientada no ano de 1981, e conta a trajetória de vida de Arthur Fleck, um mentalmente perturbado e fracassado aspirante à comediante que se transforma em criminoso e traz caos à Gotham City.

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Vendido como uma adaptação do personagem dos quadrinhos criado por Bob Kane, Bill Finger e Jerry Robinson, é certo dizer que Coringa funciona muito bem como um filme qualquer que conta a história de uma vitima do sistema que decide virar o jogo. Nitidamente inspirado em produções como Taxi Driver, O Rei da Comédia, Um Estranho no Ninho e O Homem que Ri, Coringa se distancia completamente dos padrões atuais dos filmes de super-heróis, não apenas por ser quase completamente desprovido de efeitos especiais, como também por conferir um deleitável tom sombrio jamais antes visto—nem mesmo em filmes como Batman versus Superman ou Watchmen. Os méritos, obviamente, ficam por conta da arrebatadora performance de Joaquin Phoenix, que dá vida à Coringa num universo permeado de violência brutal. Os entusiastas dos quadrinhos são imediatamente capazes de identificar muito da mitologia do personagem que, na adaptação de Todd Phillips, chama-se Arthur Fleck (Phoenix), o ex-paciente do Hospício Arkham que tenta se tornar comediante enquanto sustenta Penny (Frances Conroy), sua mãe bastante adoentada, elementos esses emprestados da graphic novel A Piada Mortal, de Alan Moore.

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Fazendo bicos como palhaço para propaganda de rua e aparições em alas infantis de hospitais, Arthur sofre de uma estranha condição que o faz rir incessantemente—geralmente quando não deve—, reforçando sua situação como proscrito social, e tornando-o alvo de abusos dos mais insanos, como a surra que leva de uma gangue de arruaceiros depois de tentar recuperar o cartaz de um anúncio que divulgava logo nos primeiros instantes do filme e, mais tarde, de um grupo de almofadinhas das Indústrias Wayne que incomodam uma passageira no metrô. Num universo de inversão completa de valores, Arthur, que nada mais é do que uma vitima de suas próprias circunstâncias, encontra algum alento no reconfortante sorriso no elevador que lhe é dado pela vizinha, Sophie (Zazie Beetz), e no sonho de um dia ser convidado ao programa de auditório de Murray Franklin (Robert De Niro), o qual assiste religiosamente acompanhado de sua adorada mãe. Mas em meio à esses pequenos revigorantes momentos de felicidade, Arthur não é capaz de colocar um sorriso nos lábios como desejado por sua mãe, e vive uma tragédia que ele mesmo eventualmente aponta ser na verdade uma comédia, quando uma sucessão desenfreada de desgraças se abatem sobre ele.

Bruce Wayne

Depois de ser demitido por levar uma arma de fogo durante um trabalho como palhaço num hospital para crianças, e de perder a ajuda do governo para suas sessões semanais com uma assistente social e aquisição dos medicamentos que devem ajuda-lo em seus problemas psiquiátricos, Arthur faz uma descoberta arrebatadora depois de ler uma carta de sua mãe para o bilionário Thomas Wayne (Brett Cullen). Claro, tratando-se de uma história de origem do nêmeses do Batman, nada mais óbvio do que trazer a família Wayne à cena, porquanto também é a representação máxima da elite de Gotham. Depois de um estranho primeiro encontro com um ainda jovenzinho Bruce Wayne (Dante Pereira-Olson) através das grades do portão de entrada da residência da família e de uma desconfortável reunião com Thomas Wayne no banheiro de um teatro onde o confronta acerca de sua própria paternidade, Arthur é surpreendido com a desconcertante revelação de que é adotado, e que Penny foi internada no Hospício Arkham por psicopatia e comportamento delirante que a fizeram permitir que ele fosse vitima de uma sucessão de maus tratos quando criança que provavelmente lhe ocasionaram lesões irreparáveis. Tal descoberta o faz ter seu segundo grande momento de libertação que o levará rumo à sua transformação final como o Coringa.

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A meia-hora final do filme é simplesmente arrebatadora ao trazer Arthur finalmente abraçando sua nova identidade. Depois de uma série de assassinatos, e de ganhar a atenção da mídia como o misterioso palhaço assassino do metrô, tornando-se—mesmo que não tenha sido esse seu objetivo—, símbolo máximo da luta contra o implacável sistema de divisão de classes numa cidade tão decadente que vem até mesmo se tornando morada de ratos gigantes que passam sorrateiramente em determinados momentos do filme, Arthur é finalmente convidado à participar do programa de Murray Franklin. Enquanto se prepara com o visual que o eternizará como o palhaço do crime, ele é visitado por dois ex-colegas de trabalho, e mata brutalmente à golpes de tesoura o desagradável Randall (Glenn Fleshler), observado pelo horrorizado Gary (Leigh Gill). Naquele que é provavelmente um dos poucos momentos cômicos do filme, Arthur deixa Gary partir porque este simplesmente foi gentil com ele enquanto trabalharam juntos, mas Gary, sendo um anão, não consegue destrancar a porta de entrada do apartamento de Arthur onde o massacre ocorreu. É absolutamente arrepiante vê-lo pedir ajuda à Arthur instantes depois deste ter massacrado Gary.

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A grande catarse de Arthur acontece nos instantes finais do filme. Pouco antes de sua chegada ao teatro onde acontece a transmissão do programa de auditório de Murray Franklin, e depois de mais uma slow dance, desta vez nas escadarias próximas ao seu apartamento ao som de Rock and Roll Part 2, de Gary Glitter, Arthur, agora vestido com o tradicional terno e o rosto pintado do Coringa, é perseguido por dois detetives que tentam encurrala-lo no metrô. Mal sabem eles que é dia de manifestação onde parte da população de Gotham sai às ruas fantasiada com máscaras de palhaço. O disparo acidental da arma de fogo de um dos detetives contra um manifestante faz todos os passageiros do metrô avançarem contra os dois homens da lei, enquanto Arthur observa tudo em êxtase. É definitivamente o Coringa como o conhecemos que finalmente se libertou. Sua aparição televisionada é enfim a apresentação ao público daquele que será o grande inimigo do Batman. E a metamorfose completa de Arthur em Coringa só não é melhor por conta dos trejeitos desnecessários que o ator confere ao personagem em seu discurso contra o sistema e a ascensão da violência como forma de justificar os meios.

Excelentemente bem produzido e visualmente deleitável com incrível reprodução de época, Coringa é uma adaptação sofisticada dos quadrinhos, onde efeitos especiais não tem vez, e apenas uma boa história de origem e uma performance deleitável impressionam, deixando ainda a audiência à margem da dúvida quanto ao final ambíguo que sugere tudo não passar de um delírio. Brutal e violenta na medida certa, e sem qualquer apelação, a produção chega em boa hora frente aos disparates atualmente lançados nos cinemas. É certo dizer que Coringa não é nenhuma obra-prima do gênero, tampouco traz vida ao personagem como deveria, tendo este ainda seu grande referencial em Heath Ledger, sem sombra de dúvidas o melhor Coringa de todos os tempo, mas ao menos é um filme provocante, emocionante e extasiante que merece ser conferido.

Coringa estreou nos cinemas brasileiros no dia 3 de outubro.

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