Blade Runner 2049: crítica de filme

Blade Runner 2049 é a sequência do clássico da ficção científica de 1982 dirigido por Ridley Scott e inspirado no romance de Philip K. Dick intitulado Androides Sonham com Ovelhas Elétricas?, onde Harrison Ford interpreta Rick Deckard, o “blade runner” no distópico ano de 2019 encarregado de rastrear e matar androides semelhantes aos humanos que fugiram de sua condição de escravos nas colônias interplanetárias criadas depois de uma guerra nuclear para viverem na Terra entre os humanos que decidiram não emigrar.

Dirigido por Denis Villeneuve e com roteiro de Hampton Fancher, que também assina a adaptação de 1982, a continuação, que se passa trinta anos depois da história original e trinta e cinco de sua produção, é um verdadeiro triunfo ao ampliar e aperfeiçoar o universo criado por Philip K. Dick e imaginado por Ridley Scott. Além de ser um deleite visual que capta com perfeição os elementos do filme de 1982, Blade Runner 2049 também se vale de uma trilha sonora impar, que embora não se equipare ao memorável tema original do filme composto por Vangelis, cumpre bem seu papel.

1

Tal como seu predecessor, o filme de 2017 retorna ao universo sombrio e perturbador da impressionante história de um personagem cujas convicções são abaladas quando ele não consegue mais separar o real do fabricado, e traz de volta à tona questões filosóficas concernentes à vida, à tecnologia e à condição humana. Pode-se ainda dizer que Villeneuve, assim como Ridley Scott no filme de 1982, brinca com a frase outrora citada por Arthur C. Clarke, de que no universo existem duas grandes possibilidades: “ou estamos todos sozinhos ou não estamos, e ambas as hipóteses são igualmente assustadoras”.

Provocativo, profundo e espiritual, o filme de Villeneuve, que tem em seu currículo Prisioneiros, O Homem Duplo e Arrival, gira em torno do policial de Los Angeles, K (Ryan Gosling). Assim como Rick Deckard trinta anos antes, K é um blade runner encarregado de localizar e executar replicantes antigos que fugiram e que se encontram indistinguíveis entre os humanos. A novidade aqui, é que ele é um modelo novo de replicante, o que torna seu trabalho mais fácil e eficiente, principalmente quando do embate físico com seus alvos, tal como vemos na primeira cena do filme, quando ele encontra Sapper Morton (Dave Bautista) numa fazenda de proteína e precisa confirmar sua identidade como replicante e elimina-lo.

2

É esse primeiro momento do filme, aliás, que confere as primeiras pistas para o grande caso no qual K deve se esmerar ao longo do filme, qual seja, a existência de uma suposta criança nascida de uma replicante. Tal descoberta transforma as crenças do personagem e até mesmo o faz especular se o momento do nascimento estaria conectado à formação da alma. Quando sua superiora, Joshi (Robin Wright), intervém para lhe dizer que ele está se saindo muito bem sem uma, a audiência confirma a destreza de K na realização das tarefas que lhe são designadas à despeito de sua bizarra vida pessoal da qual faz parte sua parceria Joi (Ana de Armas), um holograma produzido em escala e customizado de acordo com as necessidades de seu proprietário.

3

Nesse cenário em que questões concernentes ao que é ou não é real, e à necessidade humana do contato em um mundo permeado por excessos tecnológicos, K começa à questionar sua própria existência na medida em que avança nas investigações para a localização do misterioso filho da replicante. Uma reviravolta de acontecimentos nos instantes finais do longa-metragem não apenas surpreende a audiência, como a divide no que diz respeito ao próprio personagem K. Se num primeiro momento ele é apresentado de forma apática e indiferente, sua realidade acaba mostrando um mundo de miséria e solidão que o fará sair em busca de algum significado.

Voltam à cena personagens da versão original, como Gaff (Edward James Olmos) e Rachael (Sean Young), mas quem definitivamente rouba a cena à partir do momento em aparece na história, é o próprio Rick Deckard. Harrison Ford reprisa o papel que interpretou no filme original não exatamente com o mesmo garbo de 1982, afinal, trinta e cinco anos se passaram. Contudo, o ator honra o filme com uma presença superior até mesmo à de Ryan Gosling, tem bons momentos em cena como há muito não se via e também não deixa nada à desejar em seu embate físico com K em meio à sala de shows de um cassino abandonado com hologramas defeituosos de Elvis Presley, Marilyn Monroe e Liberace.

4

Os grandes vilões na trama são o megalomaníaco industrial Niander Wallace (Jared Leto) e seu braço direito, a replicante Luv (Sylvia Hoeks), que derrama uma única lágrima em seu inexpressivo rosto a cada instante antes de uma morte. Wallace é apresentado como o responsável por erradicar a fome do mundo com agricultura sintética e por retomar a criação de replicantes mais modernos com a aquisição do espólio da falida Tyrell, fabricante dos primeiros modelos trinta anos antes. Inclusive, é numa cena dividida com os personagens de Leto e Hoeks que Harrison Ford tem um de seus melhores momentos dramáticos dos últimos anos quando Niander não apenas o faz recordar seu primeiro encontro com Rachael há três décadas, como lhe apresenta uma nova replicante idêntica à ela.

5

Soberbo do inicio ao fim, com sequências espetaculares e nada monótonas, permeadas por momentos de ação e drama na medida certa, Blade Runner 2049 é uma continuação bastante digna em respeito ao clássico cult de 1982. Repleta de referências ao filme original, como os gigantescos anúncios em telões que agora se tornam hologramas, de momentos de apatia do personagem principal e de sequências de voo dos carros entre os arranha-céus de uma decadente Los Angeles, a versão de Villeneuve se permite até mesmo à homenagear algumas cenas emblemáticas do longa-metragem dirigido por Ridley Scott, como a morte de Roy (Rutger Hauer).

6

Sobre as respostas às diversas dúvidas aventadas ao longo do primeiro filme e às novas que surgem agora, Blade Runner 2049 segue evasivo. Por exemplo, não fica clara a explicação para a maior questão de todas lançada na versão estendida do diretor em 1992, qual seja, se Rick Deckard é ou não um replicante. Nesse aspecto, no filme de 2017, embora Niander Wallace demonstre algum respeito por Deckard, e até mesmo mencione o fato de que ele e Rachael foram destinados à se encontrarem, considerando ainda não fazer o menor sentido Eldon Tyrell ter apresentado um humano à sua melhor criação, Blade Runner 2049 dá à entender que o personagem de Harrison Ford é mesmo um replicante. Porém, mais uma vez a audiência fica no escuro quando tal assertiva jamais é oficialmente confirmada.

Se Deckard tinha um propósito no primeiro filme, K também tem um na continuação. Aqui, ele é usado para despistar quem quer que seja na investigação do atual paradeiro do filho da replicante. Porém, quando revelado que a criança foi clonada, não fica claro quem a clonou e por qual motivo. Não sabemos se se trata de um grupo de replicantes cientistas trabalhando em nome da liberdade de seu povo ou de algum humano simpático à sua causa. O final para K também é agridoce, numa nítida tentativa do diretor de honrar o filme anterior.

7

Por fim, mas não menos importante, Blade Runner 2049 evoca mais uma vez a ideia de que os replicantes são mais humanos do que os próprios seres humanos. Seria essa a ideia principal do filme, qual seja, revelar que a humanidade não foi destruída pela tecnologia, mas que o homem evoluiu para uma espécie sobre-humana e a criança nascida da replicante seria a segunda fase dessa evolução?

Assim como na versão original, Blade Runner 2049 deixa várias questões em aberto, sendo esse também um de seus grandes atrativos. Embora pareça funcionar como um único filme, a produção lança mão de um universo de elementos interessantes que podem eventualmente ser explorados numa potencial continuação, como a conquista do mundo por Wallace e seu exército de replicantes superavançados e a ascensão do filho da replicante como líder de uma nova e mais poderosa resistência.

Anúncios

Deixe um Comentário

Anúncios
Anúncios