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Death Note (Netflix) : crítica de filme

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Death Note é um mangá criado por Tsugumi Ohba e Takeshi Obata. Com uma versão em anime de 37 episódios de aproximadamente 20 minutos cada, a história também originou uma versão japonesa em live-action dividida em duas partes: Death Note e Death Note: The Last Name, ambas de 2006 e dirigidas por Shûsuke Kaneko e estreladas por Tatsuya Fujiwara e Ken’ichi Matsuyama.

A novelização L: Change the World, continuação da saga de Tsugumi Ohba e Takeshi Obata, inspirou uma versão em live-action que se presta como terceiro e último capítulo da trilogia japonesa iniciada por Shûsuke Kaneko, intitulada Death Note: L Change the World, filme esse dirigido por Hideo Nakata.

Death Note a versão estadunidense da Netflix que estreou no último dia 25 de agosto, é dirigida por Adam Wingard, com roteiro de Charley e Vlas Parlapanides, e nada mais é do que uma infeliz adaptação de um verdadeiro sucesso cult do universo dos mangás e animes que jamais deveria ter sido produzida.

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Repleta de alterações na história original, a nova transposição do mangá para a mídia audiovisual erra feio não ao tentar ocidentalizar a fórmula original, mas ao estreitar a trama na busca de um timing condizente com a duração do filme (independentemente de uma eventual continuação) e também ao promover o desvirtuamento total de seus personagens, alterando ainda consideravelmente o tom da narrativa e mesmo sua conclusão.

Death Note, a versão original, que tem até o momento apenas o anime como sua mais fiel adaptação, é uma trama notadamente cerebral com clima sombrio e funesto que tem como protagonista o personagem Light Yagami, que, na versão Netflix passa a se chamar Light Turner, interpretado por Nat Wolff. Na trama de Tsugumi Ohba e Takeshi Obata, Light é um adolescente de alto grau intelectual que se vê entediado e ressentido por todas as coisas ruins e negativas que existem no mundo. Sua vida muda quando ele encontra um caderno com a inscrição “Death Note” na capa.

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Intrigado com as regras constantes em seu interior, especialmente a de que toda a pessoa cujo nome escrito em suas linhas irá morrer, Light Yagami leva o misterioso caderno para casa e testa sua funcionalidade escrevendo o nome de um criminoso cujo rosto e nome são mostrados num noticiário. Após usar o caderno, ele passa a ter a companhia constante do Shinigami (deus da morte) chamado Ryuk, uma criatura do outro mundo que passa a observá-lo e a explicar as regras do caderno. Com o caderno, Light planeja exterminar todos os criminosos da face da Terra, e depois de criar essa utopia, sua intenção é a de tornar-se o regulador desse novo mundo.

Mas quando as estranhas mortes são creditadas ao justiceiro apelidado de “Kira”, a polícia de Tóquio, sob o comando do próprio pai de Light, Soichiro Yagami, dá início a uma força-tarefa para descobrir a autoria dos crimes. Como se não bastasse, o FBI e a Interpol também passam a investigar o caso. Nesse cenário, Light acaba encontrando seu nêmesis: o mundialmente famoso “L“, um detetive cujo rosto jamais foi revelado, assim como seu verdadeiro nome, inviabilizando Light de matá-lo através do Death Note.

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Uma verdadeira batalha de egos é iniciada entre os dois, até L finalmente ter certeza de que Light é Kira. Numa tentativa de afastar as suspeitas de L, Light não vê outra alternativa que a de se juntar à força-tarefa que investiga Kira, momento em que um segundo portador do Death Note aparece e passa a cometer crimes para honrar seu predecessor. Entra em cena Misa Amane, que, obcecada por Kira, apaixona-se por Light e faz tudo por ele.

Na versão de Death Note da Netflix, no entanto, Light Turner é totalmente desprovido do intelecto da versão original japonesa. Ele faz trabalhos escolares para outros alunos, e tem olhos para a líder de torcida, Mia Sutton (Margaret Qualley), que somente se envolve com ele depois de descobrir seu segredo, qual seja, o de que se tornou o portador do poderoso Death Note. Ao contrário do mangá, Light e Mia embarcam numa relação bilateral e criam juntos “Kira”, e enquanto na versão japonesa é Light que passa à manipular Misa na intenção de despistar as investidas de L, aqui Mia quer avançar nos planos de purgação com o caderno ao ponto de chegar às últimas consequências e ir de encontro com o ideal de Light em não matar pessoas inocentes.

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Aliada à ridícula reação de Light ao encontrar Ryuk pela primeira vez na sala de detenção no ginásio e das mortes extremamente violentas causadas pelo Death Note, outra grande diferença no filme em contrapartida à versão original, é a de que Light Yagami é extremamente perspicaz e manipulador, tornando-se apenas alvo fácil para L por conta dos deslizes de Misa. Na versão Netflix, contudo, Light é um joguete ora na mão de Ryuk (Willem Dafoe), ora na mão de Mia, os quais o influenciam em suas decisões. Nesse ponto, o Ryuk do mangá e do anime é mero adereço que em nada influi no livre arbítrio de Light, apenas dando explicações acerca da utilização do caderno, o que inclusive torna decepcionante o fato de que Light usa o Death Note pela primeira vez no filme justamente sob a influência do deus da morte.

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Outra grande diferença em relação ao mangá é o fato de que L (Lakeith Stanfield), embora permaneça em sua essência boa parte do tempo, perde o controle e se entrega às emoções no momento crucial de suas investigações quando do desaparecimento de seu assistente pessoal, Watari (Paul Nakauchi), enquanto o L da versão japonesa sempre se mantém frio e calculista na tentativa de desmascarar Light, jamais colocando seus interesses pessoais à frente do bem comum. Outro ponto fraco da narrativa no filme é precisamente o fato de que falta maior enfrentamento intelectual entre os dois oponentes, embora seja justificável na medida em que Light é bem menos esperto que a versão do mangá e do anime.

Maquiavélica, a versão original de Light não mede esforços para arriscar a vida de quem quer que seja que vise sua derrocada e o fim do sonho de um novo mundo, como quando sequer se opõe à ideia de até mesmo sacrificar todos aqueles que o amam, mesmo sua própria família, evidenciando o caráter dúbio e imoral do personagem, enquanto a versão Netflix vai exatamente na contramão, o que até poderia ser interessante, se Light não tivesse sido concebido de forma tão suscetível. No final das contas, talvez essa tivesse mesmo sido a intenção dos roteiristas, e Mia seria finalmente a versão oficial de Light nessa nova instauração? Ainda que o propósito fosse o de mudar a narrativa com fins de pegar a audiência de improviso, o resultado final é lastimável.

Death Note, a versão da Netflix, é, portanto, a confirmação de que certas histórias não devem ser recontadas. E não se trata nem de uma crítica à ocidentalização da trama, mas da sua total deturpação. Melhor que a versão Netflix de Death Note, são as duas adaptações japonesas do mangá, Death Note e Death Note: The Last Name, e até mesmo o spin-off L: Change the World, enquanto o anime permanece imbatível.

Death Note pode ser conferido via Netflix.

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