Orange is the New Black : review quarta temporada

with-a-july-11-release-orange-is-the-new

Antes de falar sobre o quarto ano de Orange is the New Black, vale mencionar que a série enfrentou uma verdadeira crise de identidade ao longo da terceira temporada. Produzida pela Netflix e adaptada do romance autobiográfico de Piper Kerman, Orange Is The New Black: My Year in a Women’s Prison, o primeiro ano introduziu à audiência o universo penitenciário feminino pelos olhos de sua protagonista, Piper Chapman (Taylor Schilling), condenada à 13 meses de cárcere em regime fechado no infame sistema correcional federal de Litchfield, em Danbury, Connecticut. Privilegiada, ela viu sua vida mudar completamente ao conhecer um mundo completamente diferente do seu e se ver obrigada a encarar a sobrevivência como jamais imaginou.

Quando a primeira temporada da série ainda mostrava Piper interagindo com o mundo exterior através dos contatos com a melhor amiga, Polly Harper (Maria Dizzia), e com o noivo, Larry Bloom (Jason Biggs), a chegada de uma ex-namorada ao complexo penitenciário de Litchfield, Alex Vause (Laura Prepon), a fez reviver uma paixão contida que acabou de uma vez por todas com seu futuro com Larry, o qual, por sua vez, sentindo-se traído, engatou um romance com Polly. Tendo agora apenas seu irmão Cal (Michael Chernus) como elo de ligação com o mundo exterior, a trama de Piper começou a minguar gradativamente ao longo do segundo e do terceiro ano quando passou a girar única e exclusivamente em torno de seu relacionamento amoroso com Alex. A chegada de uma nova detenta, Stella (Ruby Rose), fez a relação perder força, mas não por muito tempo.

As idas e vindas amorosas de Piper e Alex foram as principais causas para a perda de fôlego da série ao longo do terceiro ano. Enfadonha, a narrativa daquela que deveria ser a personagem principal deixou muito à desejar na medida em que passou a divergir completamente da história original para ganhar vida própria. Assim, o que poderia ser utilizado como benefício para a série no que diz respeito à uma exploração mais inteligente da personagem e sua evolução como ser humano ao testemunhar o pior e o melhor de cada detenta, o que na verdade ocorreu foi que Piper se tornou ainda mais mesquinha e irresponsável ao até mesmo se envolver com contrabando ao invés de manter um bom comportamento durante o cumprimento da pena, como se já não bastasse o perjúrio cometido no testemunho para livramento de Alex, apenas para manter a amante na prisão no segundo ano.

Felizmente, Orange is the New Black não gira apenas em torno de Piper e Alex, e a narrativa pessoal das demais detentas se tornou o grande arroubo da série no segundo e no terceiro ano. O tom de comédia do primeiro ano foi aos poucos deixado de lado para tornar a série muito mais dramática com histórias muito mais intensas e complexas envolvendo todas as demais personagens que compõem o sistema prisional de Litchfield.

Red (Kate Mulgrew), que perde sua liderança na cozinha e dentro da prisão ao longo do terceiro ano, enfrenta vários desafios, a começar pelo rompimento com suas aliadas, Norma (Annie Golden) e Gina (Abigail Savage). Como se não bastasse, ela também perde o controle de Nicky (Natasha Lyonne), uma de suas protegidas, que se afunda nas drogas a ponto de ser transferida para o sistema de segurança máxima, e passa até mesmo por um momento de rejeição afetiva ao acreditar que Healy (Michael Harney), conselheiro prisional, estaria interessado nela quando os dois tentaram ajudar Lorna (Yael Stone) à realizar seu sonho de se casar com Vince Muccio (John Magaro), o qual conheceu através de troca de correspondências. As reviravoltas da russa a colocaram novamente em sua posição inicial de destaque ao final do terceiro ato, e a fizeram finalmente reatar com suas fiéis escudeiras. Ao longo do terceiro ano, ela acaba ainda se tornando uma das pessoas dentre as quais Piper mais pode confiar, principalmente quando passam a dividir o mesmo alojamento.

O grupo das afrodescendentes também passa por algumas reviravoltas. Taystee (Danielle Brooks) e Poussey (Samira Wiley), amigas inseparáveis, e que garantiram alguns dos melhores momentos no primeiro ano da série, infelizmente não reprisam a dobradinha ao longo do terceiro e quarto ano. Mais envolvida com uma namorada, Soso (Kimiko Glenn), Poussey continua a trabalhar na biblioteca, enquanto Taystee transita pela limpeza e acaba eventualmente trabalhando diretamente no gabinete do diretor do presidio, Caputo (Nick Sandow), como sua assistente pessoal. Cindy (Adrienne C. Moore) e Janae (Vicky Jeudy), que completam o grupo, já não aparecem tanto, e suas histórias ficam de lado, enquanto Crazy Eyes (Uzo Aduba), continua sendo o coração do grupo com suas atitudes impensadas. Ao se envolver com Maureen (Emily Authaus), ela chega, contudo, ao extremo da loucura nos instantes finais do quarto ano.

Enquanto isso, o grupo das latinas sofre divisões que se consolidam no quarto ano. Gloria (Selenis Leyva) e Aleida (Elizabeth Rodriguez) continuam sendo as veteranas no grupo hispânico composto também por Flores (Laura Gomez), Flaca (Jackie Cruz), Maritza (Diane Guerrero), Maria (Jessica Pimentel) e Dayanara (Dascha Polanco). Se no terceiro ano Gloria passou a disputar com Red a cozinha, agora as duas compartilham a tarefa, enquanto as mais novas, lideradas por Maria, decidem se inspirar na ideia de tráfico de Piper para realizar seu próprio negócio dentro do presídio. Quando o contrabando de calcinhas deixa de ser um atrativo, o grupo de Maria decide se esmerar no tráfico de drogas, a contragosto de Gloria e Aleida. Na iminência de ser libertada, Aleida delega então à Gloria a difícil tarefa de manter Dayanara longe da encrenca, o que acaba ganhando contornos épicos no gancho havido no último episódio do quarto ano da série.

Pennsatucky (Taryn Manning), que surgiu na primeira temporada como o grande nêmeses de Piper dentro das grades, evoluiu como personagem ao longo do segundo e do terceiro ano ao ser aconselhada por Healey. Mas um estupro faz seu mundo ruir, ao que consegue amparo da masculinizada amiga, Big Boo (Lea DeLaria), que a ajuda inclusive a se vingar. Suas ex-seguidoras, Leanne (Emma Myles) e Angie (Julie Lake), por sua vez, pouco avançam como personagens, e continuam se envolvendo em novos grupos de fanatismo. Se no terceiro ano faziam parte do grupo de seguidoras de Norma, o quarto ano não poderia ser pior como membros da força branca acidentalmente criada por Piper durante batalha por poder contra as hispânicas para o controle do tráfico de calcinhas.

É nesse novo cenário que Orange is the New Black encara sua quarta temporada, a qual pode ser considerada como a mais sombria de toda a série. Com tramas menos pitorescas, e realidade muito mais à flor da pele, a série avança como sempre deveria ser em se tratando do retrato de um universo por si só lamentável que deveria ser o resultado da união de esforços dos poderes públicos para aperfeiçoamento intelectual de detentos e sua posterior reintrodução social. Como isso sim não passa de uma ficção, Orange is the New Black abraça a ideia de desconstruir suas personagens ao longo do quarto ano da pior maneira possível.

Uma delas é a transexual Sophie (Laverne Cox). Depois de se envolver numa briga ao final da terceira temporada, ela é enviada à solitária, onde acaba ficando quase ao longo de todo o quarto ano. A ruina da personagem como ser humano só não chega a ser pior quando sua única amiga, a ex-freira hipoglicêmica, Jane (Beth Fowler), arma um golpe para ser também mandada para a solitária e é flagrada com uma câmera com a qual pretendia provar que Sophie estava propositadamente esquecida no isolamento. Flagrada, Jane é confrontada por Caputo, que pouco pode fazer para ajudar a situação de Sophie, na medida em que é submetido à um rigoroso conselho administrativo exterior ao presídios. As boas intenções de Caputo o fazem colocar a ideia de Jane em prática, culminando no fim do castigo para Sophie, a qual tenta retornar à sua rotina com a ajuda de Gloria.

Outro personagem desconstruído na quarta temporada é Healey. Na sua insaciável busca por um ser humano que dependa de sua ajuda, ele, que outrora falhou com Piper e Soso e teve atritos com Red, tem sua história de vida finalmente revelada, o que é motivo suficiente para ele abraçar a causa ao tratar de Lolly (Lori Petty), no que é um dos melhores segmentos da temporada. Diagnosticada com esquizofrenia, a personagem que entrou em cena no terceiro ano e que ajudou Alex a matar o assassino de seu antigo empregador dentro da prisão, pode comprometer não apenas esta última, como também Red por conta do seu alto grau de insanidade que a faz ser capaz de falar o que não deve. Sua trajetória é mostrada em um emocionante flashback, e pode decididamente ser considerada das mais épicas. O envolvimento de Healey no tratamento de Lolly é extremamente aprazível e dramático de ser conferido, mas seu final é extremamente doloroso. Sem sombra de duvidas, uma das melhores surpresas do quarto ano em Orange is the New Black.

Piper também passa por um momento sombrio quando finalmente cai numa armadilha do grupo de traficantes hispânicas lideradas por Maria. Após comprar uma briga feia ela é encurralada e marcada à ferro e brasa por suas inimigas. É o momento mais tenso para a personagem na série, e aquele que inevitavelmente acaba culminando na sua reunião com Alex, que vinha também passando por seu pequeno inferno privado juntamente com Lolly.

No mais, todas as outras detentas tem maus momentos, principalmente quando um grupo de ex-vetaranos de guerra extremamente psicóticos são colocados para preencher as vagas de agentes correcionais. Liderados pelo autoritário Piscatella (Brad William Henke), o novo grupo faz a detentas passarem por um verdadeiro perrengue como jamais passaram nem mesmo pelas mãos de Pornstache (Pablo Schreiber) na primeira temporada.

Claro que Orange is the New Black não deixa o tom da leveza de lado, a qual fica por conta da presença da celebridade Judy King (Blair Brown). Enviada ao sistema prisional de Litchfield como havia sido anunciado ao final do terceiro ano, ela tem várias regalias por conta de sua fama e poder no mundo exterior, o que a permite ter o direito à uma cela individual, a qual é compartilhada com a detenta supostamente mais afável e escolhida à dedo por Healey, Yoga Jones (Constance Shulman). Contra a sua vontade, no entanto, Judy King passa a ministrar aulas de culinária para as detentas, e forma amizades inusitadas, principalmente quando é acusada de racismo.

Mas com uma temporada tão dramaticamente intensa, por óbvio que as coisas não poderiam acabar bem. Nos dois últimos episódios, o que deveria ser um protesto pacífico para a demissão de Piscatella termina desastrosamente mal quando uma detenta acaba tragicamente morta naquele que é sem duvida um dos momentos mais intensos da temporada. Colocado em situação extremamente difícil na qual conclui ter sido o fatídico evento ter decorrido de um acidente, Caputo toma uma decisão que causa o estopim para uma revolta sem precedentes que encerra a temporada com um gancho cujo desfecho fica lamentavelmente para o próximo ato.

Extremamente superior aos seus dois primeiros anos, o quarto ano é deleitável de uma forma diferente daquilo que foi a primeira temporada. Menos leve, mais intensa, e sem deixar de lado a história de suas interessantíssimas personagens e a realidade de um sistema prisional feminino sob o olhar de uma infinidade de pessoas complexas e intensas, Orange is the New Black recupera o mojo perdido ao longo da segunda e terceira temporadas para consolidar sua posição como uma das melhores séries de televisão do momento. O aspecto deprimente do primeiro ano retorna com força total e faz mais uma vez a audiência lembrar que as personagens, por mais terríveis que sejam ou tenham sido seus atos, são humanas.

As quatro temporadas de Orange is the New Black estão disponíveis no Netflix.

Anúncios

Deixe um Comentário

Anúncios
Anúncios