Gilmore Girls : dica de série

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Life’s short. Talk fast”. Esse é o lema de Gilmore Girls, conhecida no Brasil como “Tal Mãe, Tal Filha“, uma série de drama e comédia familiar produzida pela Warner Bros., e criada e escrita por Amy Sherman-Palladino. Estrelada por Lauren Graham e Alexis Bledel, a produção estreou no The WB em outubro de 2000 e teve seu último episódio transmitido em maio de 2007 pelo canal The CW, num total de sete temporadas com aproximadamente 22 episódios cada.

Como o próprio nome sugere, a série contava a história das “Garotas Gilmore“, representadas por Lorelai Gilmore (Graham) e sua filha, Rory Gilmore (Bledel). Grávida aos 16 anos, Lorelai começa a série revelando sua agora condição de mãe da adolescente Rory, que além de muito inteligente, leitora assídua e extremamente dedicada aos estudos, é tão esperta e tagarela quanto sua genitora. E se a premissa é mostrar a relação singular e inabalável entre as duas, sempre muito regada a café e maratonas de filmes antigos acompanhadas de junk food, a série também tem como ponto culminante o contrabalanço representado na conturbada incompatibilidade entre Lorelai e sua própria mãe, a terceira “garota Gilmore” na história, Emily Gilmore (Kelly Bishop).

Gilmore Girls tem como característica os diálogos rápidos marcados por pouquíssimas pausas, e as frequentes referências à cultura popular e política, ao passo em que os temas principais sempre dizem respeito às atribulações pessoais vividas por mãe e filha que, acima de tudo, são as melhores amigas uma da outra. Em meio a essa rotina familiar pouco convencional, e que tem praticamente todos os moradores de uma pequena e pitoresca cidade envolvidos em seus dilemas, o objetivo máximo de Lorelai é ver Rory se formar numa boa universidade, realizar o sonho de se tornar uma grande jornalista e viajar pelo mundo.

O primeiro grande obstáculo enfrentado pelas Garotas Gilmore, no entanto, começa logo no piloto, quando Rory é aceita no conceituado liceu privado de Chilton, preparatório para algumas das maiores universidades do país. Sendo o maior propósito da vida de Rory o ingresso na prestigiosa Harvard, obsessão essa que vem desde a infância, ainda que eventualmente ela opte por Yale após ser admitida em três das maiores instituições de ensino ao final da terceira temporada, Lorelai decide engolir o orgulho e se desloca para Hartford a fim de obter um empréstimo de seus abastados pais, Emily (Bishop) e Richard Gilmore (Edward Herrmann). Estes, por sua vez, condicionam o empréstimo a uma visita semanal das duas com jantares estipulados para todas as sextas-feiras à noite na clara intenção de reaproximação, já que Lorelai saiu de casa aos 16 anos para criar Rory longe do autoritarismo e da interferência excessiva de Emily.

Ao longo da série, as dificuldades no relacionamento entre Emily e Lorelai são mostradas como causas mais do que suficientes para o desejo de distanciamento da parte desta. Porém, ao final, as atitudes de Emily se revelam como apenas e tão somente o desejo de uma outra mãe de ver a felicidade da filha.

Um dos grandes atrativos da série fica por conta da charmosa e fictícia cidade na qual Lorelai e Rory vivem, Stars Hollow. Situada em Connecticut, a 30 minutos de Hartford, a cidade é habitada por tipos peculiares que fazem de Twin Peaks algo completamente sem graça. Com um estilo que parece extraído diretamente dos livros de contos infantis, Stars Hollow chega quase a ser um personagem, com seus festivais incomuns e dos mais variados, suas reuniões presididas pelo importuno e intransigente Taylor Doose (Michael Winters), cujas pautas são das mais absurdas, e seus moradores que parecem personagens vindos diretamente de desenhos animados e que são extremamente engajados em eventos e no bom convívio social, além de muito interessados na vida alheia. Nesse cenário, Rory é quase como uma filha para todos os moradores, que a viram crescer e se tornar a pessoa amorosa e amigável é.

Alguns dos habitantes mais marcantes de Stars Hollow são Babette (Sally Struthers), a vizinha do lado de Lorelai, que juntamente com Miss Patty (Liz Torres), a extrovertida e despojada instrutora de uma escola de dança, ficam encarregadas de espalhar os acontecimentos mais recentes pela cidade. Kirk (Sean Gunn), por sua vez, é um tipo bastante incomum que, embora não dê muito as caras nos primeiros episódios começa a se faz presente a todo e qualquer instante a partir do segundo ano, com seus dilemas dos mais bizarros e seus mais de 50 empregos. Há, ainda, a Sra. Kim (Emily Kuroda), dona do antiquário. Extremamente religiosa e rígida, ela cria a filha, Lane (Keiko Agena), à rédeas curtas. Porém, embora seja o terror em pessoa nas primeiras temporadas, a Sra. Kim ganha nuances mais afáveis ao longo da série quando finalmente entra em harmonia com os desejos da filha em sua dedicação ao rock’n’roll e ao relacionamento com Zack Van Gerbig (Todd Lowe), contrariando sua própria vontade de ver Lane casada com um coreano.

Outras personalidades bastante atípicas e caricaturadas em Stars Hollow são Jackson Belleville (Jackson Douglas), principal produtor agrícola em Stars Hollow e que acaba engatando um romance com a melhor amiga de Lorelai, bem como Brian (John Cabrera) e Gil (Sebastian Bach), que surgem na metade da série para, juntamente com Lane e Zack, formarem um fictício grupo de rock, o Hep Alien. Há, ainda, a tresloucada Liz (Kathleen Wilhoite) e seu marido, T.J. (Michael DeLuise), e várias outras pequenas aparições, como as de Grant Lee Phillips, que faz o trovador itinerante e de Seth MacFarlane, que faz uma ponta como um colega de Lorelai num curso de gestão de negócios, além de pequenas participações ilustres, como as de Paul Anka, Madeleine Albright, Christiane Amanpour, entre inúmeros outros.

Em se tratando de uma série que tem por escopo primordial tratar não apenas questões familiares, mas assuntos voltados às relações pessoais em geral, o ciclo de Lorelai é composto ainda por Sookie St. James (Melissa McCarthy), que não apenas é sua melhor amiga, como também a chefe de cozinha do hotel por ela gerenciado, o Independence Inn, e mais tarde do Dragonfly Inn, do qual ambas são sócias-proprietárias, bem como Michel Gerard (Yanic Truesdale), o esnobe concierge de origem francesa, que, a despeito de sua insuportável soberba, é figura bastante presente, e proporciona o difícil desafio a Lorelai no que diz respeito a trato pessoal.

A figura mais marcante na vida de Lorelai, no entanto, e à exceção de Rory, é Luke Danes (Scott Patterson). Ele é o dono do principal restaurante local. Apaixonado por ela desde a primeira temporada, ele é o amigo para todo momento e que volta a meia aparece para apoiá-la ou consolá-la numa situação difícil que geralmente diz respeito a Rory, já que o mundo de Lorelai gira em torno da própria filha. Num dado momento, ao longo do quarto ano, porém, após Luke finalmente se dar conta de seus sentimentos, ele decide finalmente investir na relação, conferindo alguns dos momentos mais embaraçosos e engraçados para Lorelai quando ela também percebe que gosta dele.

Rory, por sua vez, tem em Lane Kim sua melhor parceira e confidente em Stars Hollow, mas quando a garota vai para Chilton, é Paris Geller (Liza Weil), rival declarada da personagem no primeiro ano, que acaba se tornando uma inesperada amiga para Rory em sua fase universitária. E como não poderia deixar de ser, Rory também tem seus percalços amorosos, e enquanto Dean Forester (Jared Padalecki) aparece como seu primeiro amor nos dois primeiros anos da série, o sobrinho de Luke, Jess Mariano (Milo Ventimiglia), entra em cena como a representação do bad boy pelo qual toda garota um dia se apaixona, e não só atrai a atenção de Rory, como também faz Lorelai preocupar-se com questões mais sérias e que dizem respeito à sexualidade da filha adolescente.

Ao final, porém, o contrapeso na vida amorosa de Rory vem na figura de Logan Huntzberger (Matt Czuchry), herdeiro de uma abastada família, e que entra em sua vida em sua fase em Yale. Aprovado pelos avós de Rory por motivos óbvios, e visto inicialmente com desconfiança por Lorelai pelas mesmas razões, Logan é o misto do bom moço que faz de tudo pela amada, mas que também tem seus momentos de descomedimento, como quando promove incessantes baladas e se envolve em esportes radicais com a dupla de amigos nada ajuizados, Colin (Alan Loayza) e Finn (Tanc Sade), só para contrariar a vontade do pai, o magnata do mundo da mídia, Mitchium Huntzberger (Gregg Henry), o que inevitavelmente também acaba gerando graves consequências em sua relação com Rory.

E se a vida de Lorelai já é complicada com sua dedicação total à filha e aos percalços por esta enfrentados na realização de seus sonhos e nos seus dilemas pessoais, como se já não bastasse o convívio atribulado com Emily e o desejo crescente de ter seu próprio negócio, o súbito interesse de finalmente viver um relacionamento amoroso torna tudo ainda mais intrincado para a mãe solteira e independente que fala sem medir as palavras, mas cujas intenções são as mais nobres possíveis. Nesse cenário, até que Luke se revele o príncipe na pele de sapo, são muitos os pretendentes para Lorelai.

Nas duas primeiras temporadas, seu romance com o professor de Rory, Max Medina (Scott Cohen), é de idas e vindas, ao passo em que o terceiro ano tem o sócio do pai, Jason Stiles (Chris Eigeman), como um inusitado interesse romântico que mais parece ser uma provocação à Emily. Após assumir um namoro seguido de noivado com Luke, as diferenças e os problemas enfrentados por esses dois estreantes no que diz respeito a relacionamentos de longa duração acabam culminando num rompimento traumático. Ao final, Lorelai recorre ao ex-namorado e pai de Rory, Christopher Hayden (David Sutcliffe), numa tentativa de tornar realidade o sonho da família ideal, mas quando ela finalmente se dá conta de que o grande amor de sua vida é mesmo aquele que parecia o candidato mais improvável, ou seja, Luke Danes, tudo já pode estar perdido, a menos que ambos engulam o orgulho.

Tão apaixonante quanto ver a dedicação de Lorelai à filha na série, é vê-la finalmente descobrir que a felicidade pode estar ao lado de Luke, por mais gritantes que sejam as diferenças entre os dois. Assim, enquanto as três primeiras temporadas mostram um relacionamento de amizade inigualável entre os dois, baseada na dependência e no apoio moral sempre permeadas por discussões e brigas, a despeito da extrema rabugice de Luke e da cegueira desenfreada de Lorelai, são justamente essas diferenças inconciliáveis que fazem evoluir a relação a ponto de se tornar o grande norte para o que a série passa a oferecer a partir de sua quarta temporada. Claro que Emily, que não omite qualquer opinião ou atitude no que diz respeito à vida pessoal da filha e da neta, faz de tudo e mais um pouco para atrapalhar o namoro de Lorelai com Luke, sempre na tentativa de fazer valer aquilo que entende como correto e tradicional, qual seja, vê-la se unir ao pai de Rory, Christopher (Sutcliffe), que volta e meia aparece para fazer os sentimentos de Lorelai entrarem em conflito.

Além de possuir forte temática nos relacionamentos entre pais e filhos com situações até mesmo bastante tensas, mas que sempre acabam se resolvendo para imediatamente retomar um tom mais leve e descontraído, Gilmore Girls aborda questões que envolvem o quotidiano em geral e que dizem respeito às dificuldades enfrentadas a cada momento e fase da vida, como, por exemplo, os percalços para se entrar numa universidade, o primeiro emprego, a inauguração de um negócio próprio e por aí adiante, sempre regados a boas doses de otimismo, sabedoria e humor.

Embora muitos fãs apontem que o mojo dos primeiros anos da série tenha esfriado a partir da sexta e da sétima temporada após a consumação da relação entre Lorelai e Luke; que os roteiristas tenham perdido a mão ao criar soluções nada criativas como um revival amoroso para Lorelai e uma filha que aparece de forma inesperada para despertar o instinto paternal em Luke; e que os últimos episódios encerraram a história das Garotas Gilmore de forma súbita demais, a série ainda é considerada uma das representações máximas do que de melhor já foi produzido pela televisão no gênero drama e comédia familiar. Referência para outras bem sucedidas produções, como Friday Night Lives e Parenthood, esta última, aliás, também estrelada por Lauren Graham, Gilmore Girls tem como mérito não apenas os diálogos ousados e inteligentes, as histórias amarradas e complexas, como também o desempenho ímpar do próprio elenco, destacando-se, obviamente, as performances imbatíveis de Graham, bem como de Alexis Bledel e de Kelly Bishop.

Vencedora de diversos prêmios, Gilmore Girls é um grande sucesso televisivo que faz valer a pena a máxima de 600 palavras ditas por minuto nos momentos de picos de discussões entre as protagonistas. Disponível em DVD e em Blu-Ray, e atualmente on streaming via Netflix, a série conta com uma das maiores bases de fãs já existentes, não sendo por acaso que uma reunião de elenco agendada para junho de 2015, que inclui as presenças de Lauren Graham, Alexis Bledel e Amy Sherman-Palladino, pretende homenagear seus quinze anos de estreia, ainda que a proposta de um longa-metragem que dá continuidade à história das Garotas Gilmore seja remota.

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