Filmes do mês de outubro

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No Limite do Amanhã (2014)*****

Doug Liman dirige Edge of Tomorrow, traduzido como No Limite do Amanhãblockbuster que tem roteiro de Christopher McQuarrie, Jez Butterworth e John-Henry Butterworth, adaptado do romance japonês All You Need is Kill, de Hiroshi Sakurazaka, e surpreende ao apresentar ao telespectador uma trama de ficção-científica como há muito não se via.

Tom Cruise é o Major William Cage num mundo pós-apocalíptico no qual uma raça de alienígenas denominada “mimetizadores” invade a Terra e pretende colonizá-la na medida em que avança ferozmente com a já destruição de várias cidades na Europa. Após uma vitória relevante em Verdun, na França, Cage, que é assessor de imprensa da reserva dos Estados Unidos, é enviado a Londres, onde encontra com o General Brigham (Brendan Gleeson), que lhe ordena uma cobertura da guerra no litoral da França. Cage se recusa, já que não possui qualquer treinamento militar, e após uma infrutífera e infeliz tentativa de chantagem, é rebaixado e enviado como prisioneiro para a base militar, na qualidade de desertor.

No dia seguinte à sua chegada, acontece a batalha que, porém, acaba se tornando um massacre total pelos mimetizadores. Sem experiência em campo de batalha, tampouco com as vestimentas militares, compostas por armamento preso a um sofisticado exoesqueleto, Cage até consegue sobreviver por alguns instantes, mas após encontrar Rita Vrataski (Emily Blunt), conhecida como o “Anjo de Verdun”, e principal responsável pela vitória humana anterior, acaba explodindo uma das criaturas, e tendo a pele consumida pelo sangue alienígena.

Após morrer, ele desperta novamente na base militar, onde revive o dia de sua chegada após seu rebaixamento, e percebe que a cada vez que morre tem aquele dia reiniciado. Ele então tenta alertar Rita sobre tal fato, e que talvez poderá ajudá-la, e ela pede que ele a encontre tão logo acorde novamente. Assim, na reinicialização do dia, ele encontra com ela na base, e ela, que também passou por tal experiência em Verdun, une-se a ele para tentarem vencer a guerra. O problema é que a cada vez que morre, Cage precisa repetir vários passos até conseguir avançar na batalha do dia seguinte com Rita e finalmente acabar com a guerra.

Considerada uma das melhores surpresas do ano, Edge of Tomorrow se supera em enredo e sequências de ação, mas acima de tudo brilhante, além de comprovar o talento de Tom Cruise para assumir o papel principal numa grande produção na qual ainda tem a oportunidade de mostrar um pouco de sua veia cômica. Decididamente, vale a pena ser conferido!    

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Lucy (2014)**

Uma mulher envolvida numa negociação sombria vira o jogo frente aos seus captores e se transforma numa guerreira eficiente e sem escrúpulos ao passo em que movida por um imbatível talento lógico que a torna fria e desprovida de sentimentos e sensações.

Se tal premissa, escrita e dirigida por Luc Besson, fosse ao menos inspirada em quadrinhos, certamente seria mais coerente. Contudo, a ideia vendida pelo surpreendente e arrebatador trailer comercial não passa de uma bela e deslavada história sem grande profundidade que acoberta uma trama tão inconsistente quanto absurda e repetitiva.

Descaradamente inspirado em filmes como Matrix, Blade Runner e Limitless, Lucy mostra a personagem central, interpretada por Scarlett Johansson, sendo obrigada por um mafioso koreano (Min-sik Choi), a atuar como mula de drogas. Assim, ela e outros três laranjas tem sacos com a droga sintética CPH4 cirurgicamente implantadas em seu abdômen.

No cativeiro, após ser agredida por conta de uma tentativa de estupro, o saco implantado em Lucy vaza, e uma grande quantidade do componente entra diretamente em sua corrente sanguínea. Consequentemente, ela passa a expandir sua capacidade cerebral e adquire incríveis habilidades físicas e mentais, como telepatia, telecinese e eletrocinese. Após fugir de seus raptores no melhor estilo Jason Bourne, ela segue em busca de respostas com o cientista e professor Norman (Morgan Freeman), e precisa correr contra o tempo antes que sua capacidade cerebral alcance os 100% ou que a máfia koreana a capture novamente.

A verdade é que Lucy até seria um bom filme se não tivesse sido concebido como uma produção para intelectuais, lembrando que muita explicação, principalmente quando o conteúdo é de cunho científico, acaba comprometendo toda uma narrativa se o filme não é realista e eminentemente fantasia. Assim, a película, caso se mantivesse na condição de produção despretenciosa, poderia muito bem ter alcançado o sucesso como apenas mais uma divertida fantasia de ficção-científica. O lamentável, é que vale mais pena conferir o trailer do que o próprio filme.

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Planeta dos Macados (1968)*****

Inspirado no romance do francês Pierre Boulle, Franklin J. Schaffner dirige a adaptação de Planeta dos Macacos, com roteiro de Michael Wilson e Rod Serling, criador e apresentador do sucesso televisivo, Além da Imaginação (1959-1964).

Estrelado por Charlton Heston, que, na época, ainda colhia os louros de filmes como Os Dez Mandamentos e Ben-Hur, o longa-metragem conta a história de três astronautas sobreviventes de um acidente após sua espaçonave cair num desconhecido planeta. Líder da tripulação, George Taylor (Heston), e seus subalternos, Landon (Robert Gunner) e Dodge (Jeff Burton), decidem explorar o misterioso e inóspito planeta em busca de recursos e civilização. Após uma longa travessia pelo deserto, eles encontram uma tribo de selvagens, mas antes que possam fazer contato, são surpreendidos por caçadores que os arrastam por meio de redes.

Taylor é então confrontado com uma terrível realidade, na qual o planeta é dominado por macacos, enquanto os selvagens, que se parecem com ele, são relegados ao papel de criaturas irracionais e incapazes de se comunicar. Ferido na garganta, Taylor fica impossibilitado de falar devido a um ferimento, mas chama a atenção do casal de cientistas Zira (Kim Hunter) e Cornelius (Roddy McDowall).

Quando Taylor consegue finalmente falar, e descobre a verdade sobre o que aconteceu com seus ex-companheiros, ele precisa provar que possui inteligência superior, ou ao menos equiparável à dos símios habitantes do planeta. Porém, ele, assim como Zira e Cornelius, encontram diversas dificuldades junto ao Dr Zaius (Maurice Evans), autoridade máxima no planeta no que diz respeito à proteção e preservação da história dos primeiros macacos. O que Taylor, Zira e Cornelius não sabem, porém, é que há uma verdade muito mais mórbida por trás da perseguição dos símios em relação aos selvagens, e a vida de todos será colocada em risco para que os macacos continuem no controle dos incomunicáveis selvagens.

Rever o clássico Planeta dos Macacos pode parecer menosprezar o que há de novo em reformulação da história nos cinemas com seus bem-sucedidos predecessores, Rise of the Planet of the Apes e Dawn of the Planet of the Apes, mas o fato é que, depois de assistir o longa-metragem estrelado por Hestor, o que fica é a sensação de que o filme de 1968 é e sempre será atemporal e superior, uma vez que, a despeito dos efeitos especiais da época em contrapartida aos atuais, o roteiro, embora simples, é infinitamente melhor. Produção insuperável e digna de ser conferida! 

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Lawless (2013)****

John Hillcoat dirige a adaptação do romance biográfico The Wettest County in the World, de Matt Bondurant, que conta a história de três irmãos do ramo de contrabando de bebidas em meio à época da Lei Seca no sudoeste da Virginia e que se vem coagidos a pagar suborno a um recém-chegado agente especial do Governo capaz de colocar fim aos seus negócios a qualquer custo.

Narrado por Jack (Shia LaBeouf), a trama gira em torno dos mitos de invencibilidade e de respeito à sua família, composta por ele e mais dois irmãos: Forrest (Tom Hardy) e Howard (Jason Clarke). Eles são alguns dos mais bem sucedidos donos de uma destilaria clandestina de Moonshine que acaba tendo problemas com a chegada de Charlie Rakes (Guy Pearce), um agente do Governo que exige o pagamento de propina para que possam dar continuidade à produção e venda ilegal de bebidas. Mas Forrest, o cérebro do empreendimento familiar, não pretende se submeter a tal compromisso, e acaba comprando uma grande briga.

Enquanto Rakes cerca os Bondurant com terríveis métodos de violência e tortura, um evento funesto que apenas engrandece o mito de invencibilidade de Forrest acaba comprometendo os negócios, o que faz Jack tomar uma grande decisão, qual seja, contatar um novo potencial comprador, o temível mafioso local, Floyd Banner (Gary Oldman). As vendas aumentam, tornando os negócios da família ainda mais prósperos, mas uma final sucessão de eventos desastrosos acaba conduzindo a um confronto final violento que colocará fim à guerra entre os Bondurant e Rakes.

Excelentemente dirigido, o filme se destaca, principalmente, pela interpretação ímpar de Tom Hardy como Forrest Bondurant. Podendo ser considerado o novo camaleão da sétima arte, porquanto mais uma vez irreconhecível em um papel, com sua espetacular adaptação de acento, fica cada vez mais evidente o fato dele estar na categoria de um dos melhores atores de sua geração. LaBeouf, por sua vez, que jamais fez qualquer grande coisa que pudesse despontar sua carreira, acaba surpreendendo, mas os constantes deslizes de seu personagem, que comprometem até mesmo a vida de seus irmãos, só fazem o telespectador odiá-lo.

Completam o elenco, ainda, Jessica Chastain, como Maggie, o interesse amoroso de Forrest, Mia Wasikowska, como Bertha, e Dane DeHaan, como o inseparável amigo de Jack e ajudante nos negócios dos irmãos Bondurant.

Inspirado numa história verdadeira, o filme é digno de apreciação, e se não for aprazível pelo enredo ou pelo excesso de violência gráfica, é ao menos interessante pelas excelentes performances de Hardy e de Pearce, que mais uma vez rouba a cena como um vilão tosco, e também pela sempre marcante presença de Oldman, ainda que singela.

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The Company Men (2010)***

John Wells, responsável por alguns sucessos da televisão como ERThe West Wing and Shameless, dirige The Company Men, filme que recria o cenário pós-crise econômica nos Estados Unidos em 2008, através de três personagens, todos ex-funcionários de uma companhia recém adepta ao corte de funcionários em massa.

Bobby Walker (Ben Affleck) é o diretor de marketing. Com salário superior a 100.000K por ano, ele tem uma casa no subúrbio e paga a prestação de um belo Porsche, ao passo que sua esposa, Maggie (Rosemarie DeWitt), é enfermeira, e seus filhos, Drew (Anthony O’Leary) e Sarah (Sasha Spielberg), frequentam as melhores escolas. Demitido, ele se vê na dura e difícil batalha para reconquistar seu espaço no mercado de trabalho sem deixar cair o padrão de vida, ainda que não faça a menor ideia de que tal esforço será inútil. Com a ajuda do cunhado, Jack (Kevin Costner), Bobby finalmente se dá conta de que precisará engolir o orgulho e recomeçar por baixo.

De outro turno, Phil Woodward (Chris Cooper), é outro funcionário demitido, o qual, no entanto, advindo de uma escola anterior à de Bobby, enfrenta dificuldades ainda maiores para sua reintegração no mercado de trabalho. Mais velho, ele não aceita se submeter a um mercado onde a concorrência é mais jovem e no qual a experiência não tem mais importância, e tem dificuldades até mesmo para ser chamado pelo primeiro nome quando de uma entrevista numa empresa responsável por reintegração profissional. Como se não bastasse, a fim de evitar humilhação perante os vizinhos, sua esposa o proíbe de chegar a casa antes da hora, como se ainda estivesse trabalhando, tornando a situação ainda mais insustentável.

Gene McClary (Tommy Lee Jones), por sua vez, é o diretor da companhia. Igualmente demitido, ele não apenas vê suas ações caírem na bolsa de valores, como resolve se divorciar para morar com Sally (Maria Bello), sua amante, para só então depois viver a constrangedora situação de desempregado em idade tão avançada e ter que reavaliar suas opções.

Embora o filme tenha uma narrativa lenta, quase enfadonha, e seja um tanto quanto irrealista em certos aspectos, principalmente no que diz respeito à conduta de Bobby frente à sua nova e dura trajetória de vida, a película tem seu charme, e vale a pena pelo fato de mostrar três versões do reflexo de uma nova realidade econômica que não afeta apenas o hemisfério norte, mas o mundo todo. 

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A Million ways to die in the West (2014)***

Seth MacFarlane dirige e escreve o longa-metragem A Million of ways to die in the West, produção em que também faz sua estreia como ator após os grandes sucessos como criador, roteirista, diretor e dublador de Family Guy e Ted.

O filme conta a história do covarde fazendeiro Albert Stark (Seth MacFarlane). Ele acaba de ser ameaçado para um duelo caso não pague uma dívida e leva um fora da namorada, Louise (Amanda Seyfried), que passa a se relacionar com o barbeiro especialista em bigodes na cidade, Foy (Neil Patrick Harris). Desiludido, ele não vê outra alternativa que não seja a de tentar reconquistar Louise, mas quando os irmãos Anna (Charlize Theron) e Lewis (Evan Jones) aparecem, as coisas mudam de rumo.

Membros da quadrilha de ladrões liderada por Clinch (Liam Neeson), Anna e Lewis estão na cidade apenas para se infiltrarem até que o bando todo apareça, mas quando Lewis é preso por matar o filho do xerife, Anna se aproxima e se torna amiga de Albert. Os dois então passam o filme todo confabulando para afastar Louise de Foy e fazer com que a garota volte para ele, mas aos poucos acabam se apaixonando. Quando Clinch aparece, as coisas ficam realmente complicadas, e se Albert quiser ficar com a amada, terá que superar sua covardia e enfrentar os terríveis vilões.

O filme tem um elenco de primeira, e conta também com Giovanni Ribisi e Sarah Silverman como o casal de amigos de Albert, e algumas pontas mais do que especiais e que quase passam imperceptíveis, como as de Ewan McGregor, de Ryan Reynolds e de Patrick Stewart, embora seja Christopher Lloyd, que reprisa seu papel de Doc Brown, da série de filmes Back to the Future (grande paixão de MacFarlane, e referência em vários episódios de Family Guy), e Jamie Foxx, que revive seu Django na cena pós-créditos, sejam as mais louváveis.

Apesar de MacFarlane ser um roteirista incrível, dotado de senso se humor como nunca antes visto, e ser um dublador excepcional, a película, no entanto, não convence. Os deméritos, no entanto, são todos da própria duração do filme, que poderia muito bem passar insofrível com apenas 80 a 90 minutos de duração, e não mais de duas horas, tornando-se amargamente enrolada e enfadonha a partir da segunda metade. Não bastasse isso, MacFarlane não parece muito à vontade do outro lado da câmera, do que se conclui que talvez um outro ator pudesse ter feito melhor seu papel, embora num dado momento nem mesmo as piadas (em estilo de constantes esquetes) pudessem mais salvar o filme.

Apesar dos esforços, do conceito adquirido por MacFarlane ao longo desses últimos anos e de uma piada ou outra que acaba valendo a pena, A Million of ways to die in the West é um fiasco que talvez só tenha por valor o elenco estelar massivo.

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Uma secretária de futuro (1988)*****

Para uma geração inteira que escutou inúmeras vezes na rádio a inesquecível Let the River Run, de Carly Simon, ou que viveu os incríveis e tresloucados penteados dos anos de 1980, é inadmissível não falar demais sobre o sucesso Cult de Mike Nichols, que tornou Melanie Griffith o modelo mais realista de heroína numa história típica e atemporal com uma boa dose de conto de fadas.

A trama, muitos já conhecem, mas vale a pena lembrar: Tess (Melanie Griffith) é uma secretária com boas ideias que, como qualquer mulher de sua época, tem dificuldades em alavancar na carreira num universo dominado por homens sem escrúpulos. Ela acredita ter a chance de sua vida quando passa a trabalhar para Katherine Parker (Sigourney Weaver), executiva numa empresa de fusões e aquisições, e que passa a dar atenção às suas ideias. Mas um acidente durante uma viagem de lazer que acaba impedindo Katherine de voltar pelas próximas duas semanas à NYC, faz com que Tess descubra que sua mentora roubou uma de suas ideias, e pretendia tomar créditos para si diante de um potencial grande cliente. Como se não bastasse, seu noivo, Mick (Alec Baldwin), é apanhado pulando a cerca em sua própria cama, o que a faz tomar uma grande decisão.

Com a ajuda de sua melhor amiga, Cyn (Joan Cusack), Tess decide assumir o projeto que lhe fora roubado por Katherine e fazer valer sua própria ideia, de modo que contata o parceiro de negócios de sua chefe, Jack Trainer (Harrison Ford). Passando-se por executiva da empresa em que trabalha, Tess precisa despistar a todos enquanto coloca seu plano em prática antes da chegada de Katherine, ao mesmo tempo em que acaba se envolvendo amorosamente como Jack, então namorado de sua chefe.

Tirando o excesso de laquê, de sombras coloridas e de ombreiras, o filme é agradabilíssimo, e sua história, além de convincente e realista, é um deleite no que diz respeito à roteirização, sendo lamentável o fato de ter sido esnobado pela Academia em 1989. Como se não bastasse, Griffith, Ford e Weaver estão absolutamente incríveis em seus papéis, provando serem capazes de transitar em vários gêneros.

Uma Secretária de Futuro é um filme imperdível, que vale a pena ser visto e revisto.

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Birth of the Living Dead (2013)****

Rob Kuhns dirige o documentário Birth of the Living Dead, também intitulado como Year of the Living Dead, que conta a história dos bastidores das filmagens do clássico do horror, A Noite dos Mortos-Vivos, de 1968.

Com depoimentos de vários envolvidos, historiados, e até mesmo do próprio George A. Romero, roteirista e diretor do filme de 1968, a produção faz uma análise crítica sobre a época em que a película foi filmada, os fatores históricos que a influenciaram, os percalços e as dificuldades durante toda a produção, mas, sobretudo, a influência que até os dias de hoje o trabalho de Romero exerce em várias outras histórias de horror do gênero.

O documentário não chega a ser uma obra de arte de primeira categoria, e poderia até mesmo fazer parte dos extras de uma edição especial comemorativa dos 45 anos do lançamento de A Noite dos Mortos-Vivos. Por outro lado, a figura carismática de Romero acaba conferindo à produção um excelente exercício mental sobre a superação das dificuldades enfrentadas por um grupo de jovens aficionados pela sétima arte que, sem pretensão alguma, só queriam fazer um filme como queriam e como podiam sem se submeter aos ditames de uma realidade política caótica.

Birth of the Living Dead não é sobre os zumbis imortalizados por Romero e que lançaram ao mundo uma nova categoria de monstros do cinema horror ao lado dos aclamados Drácula, Frankenstein, Lobisomen ou Múmia. É sobre a época em que foi concebido, e a forma como foi recepcionado.

Assim, se Kuhns pretendia uma homenagem ao clássico do horror que inaugurou a figura dos mortos-vivos como novo pesadelo às platéias do mundo inteiro, o documentário cumpre bem com sua função, mas é muito mais do que isso, e a presença de Romero compartilhando histórias dos bastidores apenas tornam tudo ainda mais fascinante. Imperdível aos fãs do filme de 1968, e aos apaixonados por cinema.

jogo de risco

Jogo de Risco (2013)**

Jogo de Risco é uma produção dirigida por Brad Furman, inspirada no roteiro de Brian KoppelmanDavid Levien, que tem Ben AffleckJustin Timberlake antagonizando um conflito pessoal e profissional no paraíso dos golpistas na Costa Rica.

Após ser descoberto administrando um site de apostas de dentro da universidade de Princeton, e perder sua bolsa de estudos, Richie Furst (Timberlake) aposta tudo o que tem e acaba perdendo. Numa tentativa de se aperfeiçoar, ele vai atrás de Ivan Block (Affleck), na Costa Rica, o bem sucedido dono de uma rede mundial de jogos e apostas pela Internet.

Lá, porém, ele acaba se envolvendo com a misteriosa Rebecca (Gemma Arterton), e embora se torne o braço direito de Block em seus negócios, descobre-se aos poucos envolvido numa rede de intrigas que o fará assumir toda a responsabilidade pelos crimes cometidos por seu novo chefe, ao que precisará se valer de toda sua genialidade como jogador para se esquivar de qualquer culpa pelos erros cometidos.

A despeito dos talentos de Timberlake e Affleck, o filme é extremamente monótono, e o enredo só atrapalha com uma trama sem qualquer habilidade ou surpresa. Depois de ver Timberlake se sobressair com filmes como Edison, Alpha Dog e A Rede Social, ou Affleck se superar com Argo e ser a grande promessa de Zack Snyder para Batman v Superman: Dawn of Justice, Jogo de Risco é vergonhoso, para não dizer ridículo e inassistível.

Kristin Scott Thomas

Il y a longtemps que je t’aime (2008)***

Escrito e dirigido por Philippe Claudel, Il y a longtemps que je t’aime é uma produção francesa que conta a história de uma mulher recém-saída da prisão após cumprir quinze anos de pena por assassinato, que passa a tentar se adaptar à sociedade com a ajuda de sua irmã mais nova.

O longa-metragem começa com a desconfortável cena em que Juliette (Kristin Scott Thomas) é levada por sua irmã, Lea (Elsa Zylberstein), para sua casa, onde ficará temporariamente após deixar a prisão. É revelado que as duas jamais fizeram contato durante todo esse período, e que a mãe de ambas, já falecida, jamais perdoou Juliette, tendo sido a responsável pelo afastamento entre as irmãs.

Na casa de Lea, Juliette precisa lidar com o desprezo do cunhado, Luc (Serge Hazanavicius), e a inquietação de sua sobrinha, filha adotiva de Lea. Ao longo da trama, o conturbado relacionamento entre as irmãs vai dando espaço a um envolvente emaranhado de lembranças que as reaproxima, na medida em que Juliette redescobre o amor e as circunstâncias e o crime por ela cometido vão sendo revelados gradativamente ao telespectador.

Embora o filme seja uma grande oportunidade de ver o melhor da veterana Kristin Scott Thomas, a história acaba deixando muito a desejar, e o telespectador acaba ficando mesmo apenas com a convincente performance da consagrada atriz inglesa, que carrega o filme todo sozinha, solidificando seu talento inigualável.

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Dark Shadows (2012)**

Sombras da Escuridão é a vergonhosa produção de Tim Burton que faz um grande elenco se submeter ao que de pior se poderia ver numa comédia de horror.

Com roteiro de Seth Grahame-Smith e John August, que adaptam a história do saudoso Dan Curtis, criador da série de televisão de horror e fantasia, Dark Shadows (1966-1971), que evoca elementos de várias outras produções da época, como The Munsters (1964-1966) e The Addams Family (1964-1966), Burton insiste reprisar o sucesso que o consagrou com filmes como Os Fantasmas se Divertem, Marte Ataca! e A Noiva Cadáver. Ocorre que reprisar fórmulas antigas nem sempre é a melhor receita de sucesso, e o humor grotesco de Burton já perdeu charme há tempos.

Assim, e embora Burton seja infalível em certos aspectos nas produções acima mencionadas, e tenha se superado com filmes incríveis como Eduardo Mãos de Tesoura, Ed Wood, A Lenda do Cavaleiro Sem Cabeça e Peixe Grande, fica cada vez mais evidente que sua tentativa de refilmar clássicos não é sua melhor vertente. Basta conferir o medonho e desprezível Charlie e a Fábrica de Chocolate.

Sombras e Escuridão, portanto, não passa de uma aberração gótica, um híbrido entre Beetlejuice e Noiva Cadáver que jamais deveria ter sido produzido, e que só serve para colocar Johnny Depp, Michelle Pfeiffer, Helena Bonham Carter, Eva Green, Jackie Earle Haley, Jonny Lee Miller, Chloë Grace Moretz e Christopher Lee na triste posição de protagonistas e coadjuvantes de um verdadeiro festival de mau gosto artístico.

Depp interpreta Barnabas Collins, que ao não corresponder o amor da bruxa Angelique Bouchard (Eva Green), acaba sendo amaldiçoado e transformado em vampiro. Enterrado vivo por dois séculos, ele retorna a Collinwood para descobrir que sua mansão é agora residência dos descendentes dos Collins, cuja matriarca é Elizabeth (Pfeiffer). Nos conturbados anos de 1970, Barnabas precisa agora se adaptar a uma nova época e enfrentar Angelique, ao mesmo tempo em que se apaixona pela recém-chegada Josette (Bella Heathcote).

Desprezível do início ao fim, o filme só se presta para mostrar o declínio de carreira de Johnny Depp, que mais uma vez embarca no trem descarrilado de Burton rumo à revisitação de antigos sucessos que deveriam ser deixados na época em que acertadamente concebidos.

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Our Idiot Brother (2011)****

Jesse Peretz dirige e escreve O Idiota do Nosso Irmão, que conta a história do idealista Ned (Paul Rudd), que após sair da prisão passa a conviver intensamente com suas três irmãs, causando muita confusão na vida de todos que cruzam seu caminho.

Após vender drogas para um policial, Ned, cultivador de produtos orgânicos, é preso. Liberado por bom comportamento antes de cumprir a pena, ele volta para a fazenda, mas sua namorada, a hippie Janet (Kathryn Hahn), está agora morando com outro homem, Billy (T.J. Miller), e não apenas o expulsa de lá, como o impede de levar ou ter contato com seu adorado cão, Willie Nelson.

Sem ter para onde ir, e na tentativa de arrecadar algum dinheiro para alugar o rancho de Janet, e assim ficar próximo de Willie Nelson, Ned acaba se hospedando na casa de cada uma de suas irmãs, e fazendo pequenos trabalhos. Sua intromissão na vida pessoal de cada uma delas causará enormes confusões, a começar por Liz (Emily Mortimer). Há poucos dias na casa da irmã, ele coloca em risco a relação dela com o marido, o arrogante documentarista Dylan (Steve Coogan), ao descobri-lo tendo um caso, e compromete o ingresso do sobrinho, River (Matthew Mindler), numa conceituada escola ao introduzi-lo ao mundo das artes marciais.

Quando Ned fica na casa da irmã jornalista, Miranda (Elizabeth Banks), as coisas não poderiam ser piores. Ele não apenas complica sua relação platônica com o vizinho, Jeremy (Adam Scott), como também a faz perder uma reportagem que poderá alavancar sua carreira.

E o ciclo se fecha com a irmã lésbica, Nat (Zooey Deschanel), que após pular a cerca com o pintor Christian (Hugh Dancy), e revelar a Ned sua gravidez, tem sua relação de longa data com a namorada, Cindy (Rashida Jones), totalmente comprometida quando ele, mais uma vez, dá com a língua nos dentes.

Com nuances de O Panaca e O Grande Lebowski, O Idiota do Nosso Irmão é a exaltação da inocência na sua melhor forma, na qual Ned só quer o bem de todos, valendo-se de sua absurdamente incrível franqueza e generosidade por meio das quais o vemos gradativamente transformar para melhor a vida de todos, ainda que após traumáticos e hilariantes confrontos e impasses.

Agradável, o filme acaba emergindo de uma comédia sem sentido para uma boa surpresa, e os méritos são todos de Paul Rudd, que provavelmente desempenha aqui uma de suas melhores atuações. Vale a pena ser conferido!

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