Filmes do mês de setembro

the big offer

A melhor oferta (2013)*****

Escrito e dirigido pelo aclamado cineasta italiano, Giuseppe Tornatore, responsável por produções inesquecíveis como Cinema Paraíso, Estão Todos Bem, A Lenda de 1900 e Malèna, A Melhor Oferta surge como uma surpresa deveras agradável inserida no gênero thriller de mistério como há muito não se via.

Geoffrey Rush empresta todo seu potencial e carisma como o personagem Virgil Oldman. Ele é o renomado leiloeiro que, através de pequenas trapaças com seu amigo de longa data, Billy Whistler (Donald Sutherland), coleciona várias obras de arte que retratam rostos femininos de várias e diferentes épocas, evidenciando sua grande sina que é justamente a incapacidade de se relacionar com o sexo oposto. Rígido e tomado por uma rotina que transcende o transtorno obsessivo que lhe submete, Virgil acaba sendo contatado por Claire Ibbetson (Sylvia Hoeks), a excêntrica herdeira de uma vasta coleção de peças antigas. O fato dela ser portadora de um grave caso de agorafobia que a impede de qualquer contato humano passa a intrigá-lo tanto quanto as pequenas peças de relógio antigo que encontra pela decadente mansão a cada contato feito com sua nova cliente através das paredes da sala de estar.

Na medida em que Virgil vai desvendando os mistérios acerca das estranhas peças encontradas com a ajuda de um especialista em antiquidades, Robert (Jim Sturgess), vai igualmente se descobrindo apaixonado por Claire, a qual, eventualmente acaba se revelando para ele. Os dois então passam a viver um grande romance que deverá fazê-los superar suas dificuldades de convivência social.

O filme é belíssimamente produzido, e a performance de Rush, que simplesmente carrega o filme todo sozinho com sua genialidade ímpar, apenas torna a película ainda mais crível sob o olhar atento do telespectador, que envolvido na trama meticulosa de Tornatore, acaba sendo tomado de surpresa com um final absolutamente incrível e inesperado.

Sem sombra de dúvidas, um dos melhores filmes dos últimos tempos, que não pode e não merece de forma alguma passar despercebido.

bookthief

A Menina que roubava livros (2013)*****

Brian Percival dirige A menina que roubava livros, adaptação do best-seller homônimo de Markus Zusak, com roteiro de Michael Petroni.

Narrada pela Morte (voz de Roger Allam), a história do longa-metragem conta a trajetória da pequena Liesel Meminger (Sophie Nélisse) em meio aos horrores havidos na Alemanha durante a Segunda Guerra Mundial e as inúmeras situações que a fizeram correr risco de vida. Após o óbito do irmão mais novo, ela é enviada pela mãe para a casa de Rosa (Emily Watson) e Hans Hubermann (Geoffrey Rush), não sem antes tomar para si um livro perdido pelo coveiro por ocasião do enterro de seu falecido irmão, tornando-se, a partir de então, a menina que rouba livros.

Lá, ela enfrenta o difícil trato de Rosa, e se afeiçoa rapidamente ao desempregado Hans, o qual passa a ensiná-la a ler e a escrever ao notar seu peculiar interesse por livros sem ao menos saber o que está escrito neles. Ela faz amizade com Rudy (Nico Liersch), filho dos vizinhos, Barbara (Carina N. Wiese) e Alex Steiner (Oliver Stokowski), e ao ser flagrada pela esposa do prefeito, Ilsa Hermann (Barbara Auer), roubando um livro da pilha de exemplares levados à fogueira pelas autoridades nazistas em praça pública, passa a frequentar sua biblioteca e a ler diversos livros em sua companhia.

O ponto alto do filme acontece quando, por conta da perseguição de judeus pelos nazistas, Hans concorda esconder Max Vandenburg (Ben Schnetzer), filho de um antigo amigo, em sua casa. O rapaz passa então a morar no porão, e Liesel se torna bastante próxima a ele ao passo em que não pode revelar seu paradeiro a fim de não comprometer a segurança de Max e nem de seus pais adotivos. Durante o inverno, o rapaz adoece, e sem possibilidade de buscar ajuda médica, ele não tem outra opção a não ser esperar a morte enquanto Liesel lê para capítulos e mais capítulos de livros.

O filme é um verdadeiro encanto, e os méritos não são apenas da excelente e original história de Zusak, mas pelos intérpretes de seus imortais personagens, com destaque, obviamente, para Geoffrey Rush, Emily Watson e Sophie Nélisse.

A Menina de roubava livros é um drama de guerra como há muito não se via, e com peculiaridades especiais, seja no que diz respeito ao fato de ter a Morte como narradora, como o fato de mostrar uma versão em que vemos os horrores da guerra vividos por algumas famílias alemãs. Tanto quanto o livro, o filme é arrebatadoramente imperdível!

goodmorningvietnam

Bom dia, Vietnã (1987)*****

Revisitar essa obra-prima de Barry Levinson não é para muitos, principalmente quando o intérprete de seu personagem principal, um dos atores mais aclamados e queridos de todos os tempos, saiu de cena de forma tão trágica quanto prematura.

Bom dia, Vietnã permanece então como o legado, dentre tantos outros, de uma vida inteira de sucessos alcançados através de lágrimas de alegria e de tristeza proporcionadas pelo grande ator que um dia foi Robin Williams, o qual certamente jamais cairá no esquecimento daqueles que viveram em sua época.

O filme conta a história de Adrian Cronauer (Robin Williams), um irreverente e nada ortodoxo DJ que é recrutado pelas forças armadas a servir junto à Delta DMZ, uma rádio estadunidense em meio ao Vietnã. Embora protegido pelo General Taylor (Noble Willingham), apreciador de seu senso de humor bastante peculiar, ele se torna alvo do Sargento Dickerson (J.T. Walsh) e do Tenente Hauk (Bruno Kirby), que fazem de tudo para mandá-lo de volta para casa por conta de sua petulância exacerbada.

Na constante companhia de Garlick (Forest Whitaker), que o apresenta às instalações e à cidade, Cronauer acaba se apaixonando por uma local, Trinh (Chintara Sukapatana), e ao descobrir que ela faz parte de um grupo que faz aulas de inglês, decide se tornar professor da turma no meio-período que tem livre. Lá, ele faz amizade com o irmão de Trihn, Tuan (Tung Thanh Tran), na medida em que suas investidas humorísticas na rádio começam a se tornar cada vez mais um problema para seus impacientes superiores.

Além do filme ser um dos melhores trabalhos da carreira de Williams, o que lhe rendeu uma nomeação ao Academy Awards®, Bom dia, Vietnã conta, ainda, com excelente trilha sonora, com destaque, obviamente para a inesquecível e sempre associada ao longa, What a Wonderful World, como também impecável cinematografia. Imperdível para quem ainda não viu, e sempre digno de reprise aos entusiastas dos trabalhos de Robin Williams!

thehunt

The Hunt (2012)*****

Thomas Vinterberg dirige e escreve The Hunt, produção dinamarquesa originalmente intitulada Jagten e vencedora de vários prêmios no Festival de Cannes 2012, que conta a história de um professor de jardim de infância implicado numa grave acusação de pedofilia.

Lucas (Mads Mikkelsen) é o dedicado professor num jardim de infância de uma pequena cidade no interior da Dinamarca. Ele acabou de se divorciar e luta para ter a custódia do filho adolescente, Marcus (Lasse Fogelstrøm). Um mal entendido com uma das crianças da escola, Klara (Annika Wedderkopp), filha de seu melhor amigo, Theo (Thomas Bo Larsen), faz a menina inocentemente proferir uma mentira a seu respeito junto à coordenadora, Gethe (Susse Wold), o que a faz levar o caso às autoridades como crime de pedofilia, causando inúmeros dissabores a Lucas.

O filme é tenso e dramático, com muitos momentos angustiantes, sobretudo quando uma histeria em massa ocorre, e com as informações de Gethe aos pais dos demais alunos, várias outras acusações vão surgindo contra Lucas, o que não apenas compromete seu emprego, mas também sua amizade com Theo e sua relação com todos os demais moradores da cidade e, sobretudo, seu processo de guarda de Marcus, que é uma das poucas pessoas que acredita em sua inocência.

Assim, The Hunt, que faz referência ao próprio hobby praticado pelo personagem principal juntamente com seus ex-amigos na cidade, mas à situação na qual passa ele passa a se encontrar em decorrência das infundadas acusações que lhe são submetidas, acaba mostrando o outro lado da extrema e delicada situação na qual a palavra de uma criança é geralmente considerada como verdadeira, mas aqui, no caso de Lucas, acaba sendo sua mentira que culmina na sua injusta desgraça total.

Embora não tenha o reconhecimento internacional merecido, o longa-metragem é de uma produção impar, e o desempenho de Mikkelsen, que já foi vilão em Casino Royale (2006) e hoje é a nova encarnação de Hannibal Lecter na série de televisão, Hannibal, é de extrema profundidade e singelismo.

thesessions

As Sessões (2012)****

Adaptada da história real de Mark O’Brien, As Sessões, escrita e dirigida por Ben Lewin, é uma produção independente que conta a difícil trajetória de um homem com mobilidade reduzida e condenado a um respirador artificial que tenta descobrir sua sexualidade com a ajuda de uma terapeuta sexual substituta, modalidade terapêutica bastante polêmica criada nos anos de 1960/1970 pelo casal de sexólogos americanos William Master e Virginia Johnson.

Mark O’Brien (John Hawkes) é um poeta vítima de poliomielite na infância, e que para sobreviver passou a depender de um aparato artificial. Com mobilidade reduzida há mais de trinta anos, ele é impulsionado a descobrir sua sexualidade logo após se apaixonar por uma de suas cuidadoras particulares, Amanda (Annika Marks). Religioso, e no afã de desmistificar o sexo como tabu, ele concilia reuniões com o padre de sua paróquia, Brendan (William H. Macy), e sessões com uma terapeuta sexual substituta, Cheryl Cohen (Helen Hunt).

Sem qualquer cerimônia, o filme conta em pormenores o avanço das descobertas de Mark, na medida em que ele relata ao padre Brendan cada acontecimento havido nas sessões realizadas com Cheryl, e vai superando fases como a timidez, o toque, o controle da ejaculação precoce e o orgasmo da contraparte.

Mas muito além de mostrar a ajuda ofertada a Mark para relaxamento, massagem, conhecimento do próprio corpo, carícias e prática do sexo propriamente dita, o filme também mostra o envolvimento de Cheryl com seu paciente, e o quanto isso afeta ou não sua própria vida pessoal e seu casamento.

O filme é bastante interessante, principalmente por se tratar de uma narrativa inspirada em uma história real, e que aborda uma técnica terapêutica por muitos até então desconhecida e polêmica. O destaque, obviamente, é para Helen Hunt, não apenas por abraçar sua sexualidade aos quase 50 anos de idade aparecendo completamente nua em todas as cenas das sessões de terapia com o personagem de Hawkes, como também por sua interpretação emocionante e convincente.

commitement

Commitement (2013)**

Commitement é uma produção sul-coreana que conta a história do filho de um espião norte-coreano que se vê obrigado a seguir os mesmos passos do seu pai a fim de proteger a vida de sua irmã mais nova.

O longa-metragem começa com um espião norte-coreano (Seong-Woong Park) que, após ser descoberto, na iminência de ser capturado pelas autoridades sul-coreanas, suicida-se. Para concluir sua missão, uma entidade norte-coreana decide recrutar seu filho, Ri Myung-hoon (Seung Hyun Choi), e para tanto, ameaça o bem estar de sua irmã mais nova, Ri Hye-in (Yoo-Jeong Kim).

Assim, disfarçado como estudante num ginásio e hospedado na casa de um casal de espiões, Myung-hoon acaba fazendo amizade com Lee Hye-in (Ye-ri Han), uma estudante vítima de bullying, e segue com o único propósito de cumprir todas as missões que lhe são confiadas até o momento em que, ao invés de se reunir com sua irmã, um outro espião é recrutado para matá-lo, e ele terá que sacrificar sua própria vida para tentar salvar a da sua irmã.

O filme não é uma grande produção, e está longe de ser uma das melhores películas sul-coreanas já produzidas, isso considerando que o cinema asiático está cada vez mais em alta, mas acaba tendo o seu charme como uma boa mistura de Identidade Bourne e Twilight sem vampiros.

beauxjours

Les Beaux Jours (2013)***

Marion Vernoux dirige Les Beaux Jours, também conhecido como Bright Days Ahead, inspirado no romance Une Jeune Fille aux Cheveux Blancs, de Fanny Chesnel.

Caroline (Fanny Ardant) é uma dentista aposentada que passa a frequentar alguns cursos oferecidos num centro para pessoas aposentadas. Num dos cursos, de introdução a artes dramáticas, ela acaba chamando a atenção de Julien (Laurent Lafitte), um homem com metade de sua idade e que também ministra o curso de informática na referida instituição. Caroline passa a também fazer o curso de informática, e o contato com Julien fica inevitável.

Embora casada com o também dentista, Philippe (Patrick Chesnais), e mãe de duas filhas, Chantal (Fanny Cottençon) e Sylviane (Catherine Lachens), com a idade de Julien, o relacionamento amoroso é inexorável. Assim, Caroline, que parecia completamente perdida em sua nova rotina diária, passa a ter encontros amorosos com Julien cada vez mais constantes e arriscados, fazendo-a reviver algo que julgava perdido há muito tempo.

Les Beaux Jours é um belo filme, com ótima fotografia, e excelentes performances, com destaque para as de Fanny Ardant, diva consagrada do cinema francês, e Patrick Chesnais. A despeito de não trazer qualquer novidade, seja quanto ao universo feminino, seja no que diz respeito à cultura do adultério na França, a película é aprazível por explorar de forma nada cansativa e bastante peculiar a sexualidade da mulher após os sessenta anos, algo raro num cenário em que a maioria dos filmes atribui ao homem o direito e a possibilidade de explorar sua sexualidade de forma mais vantajosa.

ciderhouse

The Cider House Rules (1999)*****

Lasse Hallström dirige The Cider House Rules, adaptação do romance homônimo de John Irving, e que conta a história de um jovem criado num orfanato e treinado para ser médico que decide deixar tudo para trás e conhecer o mundo.

O filme conta a história de Homer Wells (Tobey Maguire), que após duas frustradas tentativas de ser adotado, acaba ficando no orfanato St. Clouds dirigido pelo médico Wilbur Larch (Michael Caine). Lá, ele é treinado desde pequeno na prática da medicina, e quando adulto, tem posicionamento divergente quanto à prática do aborto ilegal realizada por Larch.

Quando o casal de namorados formado por Wally Worthington (Paul Rudd) e Candy Kendall (Charlize Theron) aparecem para a realização de um procedimento de aborto em Candy, Homer decide partir com eles, a fim de conhecer o mundo, contrariando as intenções de Larch de tornar-se médico e assumir seu lugar no futuro, bem como frustrando vários órfãos, em especial Mary Agnes (Paz de la Huerta) e Buster (Kieran Culkin)

Sem planos, Homer aceita trabalhar na plantação de maçãs dos pais de Wally, juntamente com Arthur Rose (Delroy Lindo), sua filha Rose Rose (Erykah Badu), Peaches (Heavy D), Muddy (K. Todd Freeman) e Jack (Evan Parke).

Enquanto Larch tenta convencer Homer a voltar, enviando-lhe cartas e até mesmo um estojo com equipamentos médicos, Wally é convocado para combater na Segunda Guerra Mundial. Na sua ausência, Homer e Candy ficam bastante próximos, e acabam se tornando amantes, mas circunstâncias alheias à sua vontade os fazem tomar uma difícil decisão, enquanto Rose Rose fica grávida do próprio pai e Homer também precisa agir contra sua moral.

O filme é lindamente produzido, com excelentes performances de Michael Caine, de Charlize Theron e, sobretudo, de Tobey Maguire. Embora existam algumas discrepâncias na história em relação ao livro, a película ainda assim é aprazível e emocionante, principalmente em seus instantes finais, quando Homer decide de uma vez por todas o rumo que pretende dar à sua vida.

letmein

Let Me In (2010)****

Matt Reeves dirige a refilmagem de Let the Right One In (2008), adaptado do romance Låt den rätte komma in, do escritor sueco John Ajvide Lindqvist, que conta a história bastante incomum de um garoto e uma vampira.

Owen (Kodi Smit-McPhee) tem 12 anos e seus pais acabaram de se divorciar. Sua rotina diária se resume a constantes abusos. Não bastasse o desleixo de sua mãe alcoólatra, e o desinteresse de seu pai, ele sofre perseguições e bullyings na escola da parte de um grupo liderado por um terrível garoto chamado Kenny (Dylan Minnette).

Um noite, ele presencia a chegada dos novos vizinhos: um homem (Richard Jenkins) e uma menina (Chloë Grace Moretz). Intrigado, ele passa a observá-los, e durante uma noite é surpreendido pela estranha garota, que se apresenta como sendo Abby. Os dois ficam rapidamente amigos, e quando fica evidente para ela as violências sofridas por Owen na escola, ela o encoraja a se defender de seus agressores.

Paralelamente, o homem com quem Abby tem uma estranha rotina: ele sai todas as noites para cometer assassinatos. Ele drena o sangue de suas vítimas, e o leva num frasco para casa, até que, numa dessas vezes, ele acaba sendo descoberto e sofre um acidente. Na tentativa de não ser reconhecido, ele despeja um vidro com ácido em seu rosto. Hospitalizado, ele é visitado por um detetive (Elias Koteas) determinado em descobrir a verdade.

Quando Owen finalmente descobre a verdade sobre Abby e os motivos para seu protetor fazer o que fazia, vários eventos culminantes convergem para um final inevitável, e no qual os dois terão que tomar uma importante decisão.

Provavelmente um dos melhores filmes de horror dos últimos tempos, Let Me In se destaca não apenas pelo suspense constante da trama, seja no que diz respeito aos crimes ocorridos na vizinhança de Owen, seja no que diz respeito aos mistérios pertinentes a Abby e ao homem com o qual ela vive.

Diferentemente de tudo o que já se viu de horror sobrenatural já feito, a película acaba sendo uma experiência extremamente gratificante em meio a um universo contaminado por inúmeros desacertos havidos nos últimos tempos no gênero. E embora Richard Jenkins e Elias Koteas desempenhem de forma soberba, como de costume, são as crianças, Chloë Grace Moretz e Kodi Smit-McPhee, o grande arroubo do filme, o qual não pode e não merece passar despercebido.

Ne-quelque-part-930X620_scalewidth_630

Né Quelque Part (2013)**

Né Quelque Part, também conhecido como Homeland, é uma produção dirigida e escrita por Mohamed Hamidi, que conta a história de um jovem francês que se vê forçado a viajar para a Algéria, terra natal de seu pai, a fim de impedir a demolição da casa que ele construiu com as próprias mãos.

Farid Hadji (Tewfik Jallab) é um jovem estudante de Direito em vias de concluir seus estudos e que mantém um relacionamento estável com a namorada, Audrey (Julie De Bona). Quando seu pai adoece, este lhe pede para ir à Algéria a fim de evitar a demolição da casa que ele construiu para os seis filhos com as próprias mãos.

A contragosto, Farid não vê outra alternativa que a de cumprir a vontade de seu pai, e parte para a terra natal deste no intuito de cumprir a sua missão. Lá, ele encontra seu primo (Jamel Debbouze), um trambiqueiro que acaba roubando seu passaporte e parte em seu lugar para a França. Obrigado a ficar no país até conseguir nova documentação, Farid consegue resolver provisoriamente o problema da demolição da casa de seu pai e a de vários outros locais, enquanto abraça suas raízes e tem um vislumbre de uma outra vida.

As coisas ficam complicadas quando seu primo comete delitos em Paris, e Farid passa a ser procurado pelas autoridades, o que o impede de conseguir uma segunda via do seu passaporte, vendo-se então obrigado a partir como ilegal numa viagem clandestina de volta à França.

Embora o filme seja interessante, sobretudo pelos aspectos da política e da imigração legal na França, a história parece perder um pouco de fôlego ao longo de sua segunda metade, e chega ao cúmulo da incoerência o fato de Farid não ao menos tentar explicar sua situação às autoridades acerca do roubo do seu passaporte a ponto de se submeter à terrível e perigosa viagem clandestina.

Apesar dos esforços, o filme não vinga, e acaba sendo uma grande decepção. Lamentavelmente, o começo instiga, e fica inevitável a vontade de saber como será o desfecho da aventura de Farid.

adam's apples

Adam’s Apples (2005)***

Adam’s Apples é uma comédia de humor negro dinamarquesa escrita e dirigida por Anders Thomas Jensen, que conta a história de um neo-nazista sentenciado a cumprir pena de prestação de serviços à comunidade junto a uma paróquia sob a responsabilidade de um cegamente devotado padre que só vê o lado bom da vida, por mais absurdas e surreais que sejam as situações.

Adam (Ulrich Thomsen) é um neo-nazista convicto encaminhado à paróquia do padre Ivan (Mads Mikkelsen) para fins de cumprimento de uma pena de serviços à comunidade por crime cometido. Lá, estão também outros dois condenados, o ladrão Gunnar (Nicolas Bro) e o aprendiz de terrorista Khalid (Ali Kazim).

Irônico e debochado, sem qualquer pretensão Adam faz Ivan estipular como meta para o cumprimento de sua pena a feitura de uma torta com as maçãs de uma árvore em frente à Igreja. Mas acontecimentos sinistros, como um ataque de corvos, uma infestação por vermes, e uma horrível e inesperada tempestade impedem que as maçãs sejam colhidas, o que faz Ivan especular ser uma armadilha do mal para que Adam não consiga realizar sua missão.

Incrédulo, Adam precisa lidar com a insistente visão positiva de Ivan para toda e qualquer situação, sobretudo quando descobre a verdadeira triste realidade do padre, o que o revolta a ponto de partir para a violência. Quando a fé de Ivan começa a ficar abalada, a chegada inesperada do grupo de neo-nazistas do qual Adam fazia parte pode colocar tudo a perder, exceto pelo fato de que os planos divinos são outros.

Divertido, porém estranho, Adam’s Apples é uma produção bastante peculiar e deveras interessante. Com momentos que oscilam entre comédia do estilo mais tenro ao mais bizarro, os louros são todos do elenco, com destaque, obviamente, para Mikkelsen e Thomsen. Vale a pena ser conferido!

bigpicture

The Big Picture (2010)*****

Eric Lartigau dirige e escreve, com colaboração de Laurent de Bartillat, Emmanuelle Bercot e Bernard Jeanjean, o filme The Big Picture, produção francesa também conhecida como L’Homme que Voulait Vivre Sa Vie, inspirado no romance homônimo de Douglas Kennedy.

O filme começa com a apresentação do personagem Paul Exben (Romain Duris), advogado numa prestigiosa firma parisiense em vias de assumir sua presidência diante da doença que submete a co-fundadora, Anne (Catherine Deneuve). Bem sucedido, ele deixou uma tão sonhada carreira de fotógrafo para trás no intuito de prover a família. O que ele não sabe, porém, é que sua esposa, Sarah (Marina Foïs), está cansada da vida de regalias e pretende voltar ao mercado de trabalho.

Tão logo Paul descobre que Sarah se tornou amante do fotógrafo profissional e amigo da família, Gregoire Kremer (Eric Ruf), sua vida toma novo e inesperado rumo. Com o pedido de divórcio lançado por Sarah logo após uma desconfortável indireta desferida por Paul num jantar entre amigos, este decide confrontar Gregoire, e um acidente acontece, culminando na morte do fotógrafo.

Sabendo que não terá mais chances de reconciliação com Sarah e recusando qualquer possibilidade de dar a seus filhos a traumática figura de um pai assassino, Paul dá início ao seu arriscado plano de dar sumiço ao corpo de Gregoire, assumindo então sua identidade após simular sua própria morte e cair no mundo como o fotógrafo talentoso que jamais deixou de ser. Assim, ele se muda para a Hungria, onde, com a ajuda de um jornalista, Bartholomé (Niels Arestrup), e da editora-chefe Ivana (Branka Katic), acaba se destacando a ponto de conquistar o inesperado sucesso que poderá comprometer todo o seu plano.

Inteligente, instigante e inventivo, o longa-metragem é tudo aquilo que há muito não se via numa produção cinematográfica. Com originalidade e cinematografia ímpar, The Big Picture só peca, talvez, por não conferir o papel de Paul a um ator com maior carisma, embora Romain Duris não faça tão feio. De qualquer modo, a narrativa supera todos os demais defeitos da obra. Altamente recomendado!

11509_4d76c8627b9aa15c770002bf_1299636436

Réquiem para um sonho (2000)****

Revisitar essa produção de Darren Aronofsky após mais de uma década é, sem sombra de dúvidas, um interessante exercício de reavaliação e completa satisfação no qual um filme inicialmente considerado como uma trama sobre os efeitos devastadores das drogas, torna-se, de fato, na história de pessoas simples que se quebram na conquista de seus sonhos.

Inspirado no romance de Hubert Selby Jr.Requiem for a Dream conta a trajetória de vida desses quatro personagens que vivem em Coney Island e que se veem no afã de tornar real suas próprias obsessões ao mesmo tempo em que são consumidos pelas drogas das quais fazem uso.

Mais do que um filme que retrata os desastrosos resultados causados pelo vício em substâncias químicas, portanto, Requiem for a Dream tem a função primordial de mostrar como essas quatro pessoas podem se destruir mesmo quando apenas movidas por um sonho quase inatingível e que, quando prestes a ser alcançado, faz com que sucumbam por uma cadeia espiralada de desastres.

Jared Leto está simplesmente imbatível como Harry Goldfarb, um jovem que vive a vida aos extremos. Sua performance é indubitavelmente uma das melhores de sua carreira, e ele empresta um desempenho visceral ao personagem, principalmente nos seus momentos finais, quando a realização do tão almejado sonho de uma vida melhor se transforma na mutilação de sua própria vida.

A veterana Ellen Burstyn, no entanto, é aquela que mais se destaca no longa-metragem. Ela é a mãe de Harry, e obcecada com a ideia de participar de um hipnotizante programa de auditório, acaba se submetendo à fome e desidratação com o consumo de perigosas pílulas emagrecedoras. Seu desempenho é inefável.

Jennifer Connelly e Marlon Wayans, intérpretes da namorada de Harry e do seu melhor amigo, respectivamente, não fazem por menos. O declínio de ambos os personagens é igualmente arrebatador.

A cinematografia de Requiem for a Dream é provavelmente um elemento que não merece estar à parte, porquanto complementa a obra e o próprio desempenho do elenco de forma a fazer saltar aos olhos do telespectador toda a loucura das quatro histórias contadas no filme. Do mesmo modo, memorável trilha sonora de Clint Mansell.

Sem dúvidas, um dos melhores e mais belos filmes do gênero, com um elenco formidável, que pode e não merece passar por despercebido. Recomendo!

Anúncios

Deixe um Comentário

Anúncios
Anúncios