Orange is the New Black : review primeira temporada

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Orange is the New Black é uma produção Netflix adaptada do romance autobiográfico de Piper Kerman, Orange Is The New Black: My Year in a Women’s Prison, e desenvolvida para a televisão por Jenji Kohan, mesma criadora da consagrada série Weeds.

Inspirada nas memórias de Piper Kerman, que co-produz Orange is the New Black, a série conta a história de Piper Chapman (Taylor Schilling), graduada da conceituada Smith College, e que tem uma carreira promissora como futura sócia de sua melhor amiga, Polly Harper (Maria Dizzia), no ramo gastronômico, mora num apartamento dos sonhos em New York City, e está na iminência de se casar com o adorável aspirante a escritor, Larry Bloom (Jason Biggs).

O curso de sua vida perfeita toma novo e inesperado rumo, no entanto, quando ela é forçada a assumir as consequências de um crime cometido dez anos antes, no qual transportou drogas numa viagem internacional a pedido de sua então namorada, a contrabandista Alex Vause (Laura Prepon).

piperCondenada a 13 meses de cárcere em regime fechado no infame sistema correcional federal de segurança mínima para mulheres em Danbury, Connecticut, conhecido simplesmente como FCI Danbury, Piper precisa aprender a conviver com os mais diversos tipos de pessoas, ao passo em que reflete acerca de seus atos, de sua própria existência, e deixa de lado todos os seus planos para o futuro fora das grades e se torna uma pessoa completamente diferente do que era antes.

Entre a “fauna” que compõe o FCI Danbury, estão detentas com histórias das mais complexas e absurdas, e até mesmo com alto grau de insanidade. E embora Orange is the New Black mostre o lado sério, tenso e perigoso do sistema penitenciário feminino, a série é também classificada como uma comédia de humor negro bastante tendenciosa, na qual detentas passam pelas mais absurdas situações num cenário em que a presença masculina é mínima ou relegada a segundo plano.

Em que pese a trama girar em torno de Piper, sua trajetória dentro da prisão, bem como sua história com Alex e seu futuro nebuloso ao lado de Larry, a produção também não peca no que diz respeito a trazer à tona a narrativa pessoal das demais detentas. Portanto, a cada episódio há dramas, angústias e medos vividos por determinadas personagens dentro do FCI Danbury, ao passo em que são mostradas cenas de flashbacks, os quais por vezes revelam os motivos por trás de cada crime cometido, e que também se prestam para mostrar que por trás do aspecto embrutecido de cada uma delas, há uma mulher comum que apenas cometeu um erro pelo qual deve que pagar.

E se Orange is the New Black é a trajetória de Piper para seu melhoramento como ser humano, pode-se dizer, assim, que o mesmo é válido para todas as demais personagens da série, e vai de cada uma delas seguir ou não por esse caminho de aprendizado. Embora a mensagem seja aparentemente essa, a série não procura amenizar os erros cometidos por essas criminosas, ou mesmo fazer com que o telespectador sinta empatia por elas. Aliás, momentos não faltam para nos fazer lembrar que nenhuma delas é santa.

red+nickyRed (Kate Mulgrew), por exemplo, é a chefe da cozinha da prisão e com a qual, logo no primeiro episódio, Piper acaba encrencando, mesmo acidentalmente. Após “se enturmar” com algumas das detentas na ala do refeitório, ela acaba criticando a comida para a própria Red, sem saber que ela é a pessoa que coloca a mão na massa na cozinha, e que não esconde seu orgulho por isso. Assim, a ruiva ucraniana, que sofre de dores lombares e tem respostas evasivas dos filhos sobre a ausência de visitas do marido, faz com que a protagonista seja submetida a um intenso período de privação de comida, isso com o apoio das demais detentas, que temem represálias, mostrando seu poderio dentro do FCI Danbury. Seu núcleo é formado por Norma (Annie Golden) e Gina (Abigail Savage), suas assistentes na cozinha, bem como Nicky (Natasha Lyonne), Lorna (Yael Stone) e Tricia (Madeline Brewer), as quais considera suas “filhas” dentro da prisão, e a masculinizada Big Boo (Lea DeLaria).

Taystee (Danielle Brooks) e Poussey (Samira Wiley) encabeçam o grupo das afro-descendentes no FCI Danbury. Amigas inseparáveis, ambas tem histórias bastante distintas de submissão e preconceito, e garantem alguns dos melhores momentos na série, como quando Taystee deixa a prisão após cumprir pena, mas não consegue se despedir adequadamente de Poussey, e depois acaba retornando ao sistema carcerário por não conseguir se reintegrar à sociedade. A amizade é colocada à prova na segunda temporada, quando o pior dessas duas personagens vem à tona, mas elas acabam superando suas diferenças, ao passo em que Cindy (Adrienne C. Moore) e Janae (Vicky Jeudy) completam o grupo, juntamente com a desequilibrada Crazy Eyes (Uzo Aduba), que também garante alguns dos momentos mais perturbadores para Piper, como quando se apaixona por ela.

Gloria (Selenis Leyva) e Aleida (Elizabeth Rodriguez) são as veteranas no grupo hispânico composto também por Flaca (Jackie Cruz), Maritza (Diane Guerrero), Maria (Jessica Pimentel) e a novata Dayanara (Dascha Polanco). Aliás, esta última, filha de Aleida, tão logo chega a FCI Danbury, acaba se envolvendo amorosamente com o oficial correcional, John Bennett (Matt McGorry). O romance, que inicialmente os faz tornar a representação da inocência num ambiente hostil, acaba tendo consequências desastrosas ao longo das duas primeiras temporadas, e os dois acabam cometendo um grave ilícito para salvar a própria pele.

pennsatuckyPennsatucky (Taryn Manning) surge ao longo da primeira temporada e ganha espaço como a representação do maior perigo enfrentado por Piper dentro das grades. Fanática religiosa, ela conquista um grupo de seguidoras, sendo Leanne (Emma Myles) e Angie (Julie Lake) as mais devotas, e sua trajetória como criminosa é das mais desconcertantes. Responsável por eventos que ultrapassam o limite da razoabilidade, ela decide a todo e qualquer custo matar Piper, completamente indiferente às consequências que lhe possam advir, simplesmente por ter sido recusado seu pedido de conversão religiosamente após uma reconciliação entre as duas.

E se as personalidades que compõem os grupos de detentas já são por si só interessantes, as personagens isoladas não ficam atrás, como a transexual Sophie (Laverne Cox). Detentora de uma história que envolve drama familiar e reconquista do amor do filho, ela é a cabeleireira da prisão, e garante bons momentos, como quando ensina uma parte anatômica do corpo feminino desconhecido por todas as demais colegas de cárcere. É com a ex-freira hipoglicêmica, Jane (Beth Fowler), que Sophie acaba formando uma inusitada amizade quando aprende a aceitar o fato de que sua ex-esposa tem o direito de seguir com sua própria vida.

Mas são histórias como as de Miss Claudette (Michelle Hurst), Miss Rosa (Barbara Rosenblat) e Yoga Jones (Constance Shulman) que surpreendem mais. Se a primeira representa a esperança que se esvai quando de uma oportunidade de livramento condicional e a consequente perda da razão, a segunda é a adrenalina pura em forma de cometimento desenfreado de assaltos a banco que ganha uma nova brecha quando a morte é certa. Já, Yoga Jones não tem sua história mostrada em flashback, mas a revelação a Janae do crime que a levou para trás das grades é das mais intensas e não lhe faz desmerecer os poucos instantes de cena.

pornstacheE como todo sistema penitenciário, FCI Danbury não fica isento de políticas e conspirações administrativas, e vai mais além. Corrupção e contrabando cometido pelos próprios agentes prisionais ocorrem indiscriminadamente, e Pornstache (Pablo Schreiber) só não se torna a representação máxima da degradação humana na série, por ficar atrás de Figueroa (Alysia Reiner), a diretora do sistema correcional que faz desvio de verbas para bancar a campanha eleitoral do marido, enquanto Healy (Michael Harney), conselheiro prisional, e Caputo (Nick Sandow), vice-diretor, surgem como personalidades responsáveis por algumas mudanças positivas, embora seja evidente o fato de que também estão parcialmente contaminados pelo sistema, na medida em que cometem certos abusos de poder.

Claro que Orange is the New Black tem Piper como sua principal personagem. Embora não seja ela que vive os maiores conflitos pessoais mostrados na série, a personagem garante que sua grande transformação será decorrente do que provavelmente virá com o amadurecimento e a resolução do complicado relacionamento amoroso com Larry, mostrado em cenas de flashback ou na tentativa de lidarem com essa nova e temporária realidade, e com Alex, com quem acaba esbarrando em FCI Danbury, e com a qual, após muitas desavenças, torna-se novamente amante.

Com uma coletânea de personalidades tão interessantes e a realidade de um sistema prisional feminino sob o olhar de uma pessoa tão complexa e intensa como Piper, Orange is the New Black se torna uma das melhores séries de televisão do momento. O aspecto deprimente e, por vezes, inconsistente e volúvel pelo qual as personagens são submetidas só as torna mais humanas, com a diferença de que, aprisionadas, essas mulheres não tem para onde ir, algumas delas nem alguém para amá-las ou confortá-las, e precisam ainda enfrentar a dura rotina enquanto pagam por erros e cumprem a pena pelos crimes que cometeram.

As duas primeiras temporadas de Orange is the New Black estão disponíveis no Netflix, e a terceira estreia somente em junho de 2015.

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