Bates Motel : dica de série

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Origem

Concebido por Anthony Cipriano, e produzido pela A&E TV, Bates Motel surge como proposta de nova prequela da história do personagem Norman Bates, extraído do romance Psycho, de Robert Bloch, e imortalizado no filme homônimo de 1960, dirigido por Alfred Hitchcock.

Com história de Carlton Cuse, Kerry Ehrin e do próprio Cipriano, trilha sonora arrebatadora de Chris Bacon, que em muito remonta a da clássica refilmagem, bem como honra o trabalho de Bernard Herrmann, aliado a um desempenho estupendo do elenco principal, sobretudo de Vera Farmiga, Freddie Highmore e Nestor Carbonell, Bates Motel se supera como produto spin-off de conteúdo thriller de horror e mistério adaptado para os dias atuais de forma excepcional, principalmente pelo fato de que só o fato de explorar um pouco mais do universo posterizado por Anthony Perkins já satisfaz.

Originalmente inspirado no serial killer Ed Gein, também conhecido como «o açougueiro», que também serviu de base para outros personagens da cultura popular, como Leatherface, de The Texas Chain Saw Massacre, Jame Gumb (Buffalo Bill), do romance The Silence of the Lambs, Ezra Cobb, do filme Deranged e Bloody Face/Dr Thredson da segunda temporada do seriadoAmerican Horror Story, intitulada Asylum, Psycho (o livro), conta a história de Norman Bates, vítima da abusiva mãe, Norma, que pregava o quão pecaminoso é o sexo, e que todas as mulheres (à exceção dela) são prostitutas.

Na história original, tratada no livro de Bloch e adaptada para o cinema e na produção televisiva Psycho IV: The Beginning, após a morte do pai de Norman, ele e a mãe passam a morar sozinhos em Fairvale, California, até que Norma se envolve amorosamente com Joe Considine. Levado ao limite do ciúme, Norman envenena ambos com strychnine, e faz tudo parecer um homicídio seguido de morte da parte de sua mãe. Após passar algum tempo institucionalizado por conta do trauma, ele desenvolve uma desordem dissociativa de identidade, assumindo a personalidade de Norma para reprimir a consciência da morte e da culpa pelo assassinato.

No livro de Bloch, Bates possui múltiplas personalidades: Norman, a criança dependente da mãe; Norma, a mãe possessiva que mata todos aqueles que ameaçam a ilusão de sua existência; e Normal, o adulto funcional do dia-a-dia que conduz os negócios na casa e no hotel da família. Tanto no livro, como no filme de Hitchcock, Norman e Norma tem conversas nas quais Bates imita a voz de sua mãe, e quando ele se veste como ela, é quando Norma toma controle totalmente.

Mas antes da trama contada em Psycho (o livro e o filme), no qual Norman Bates tem o segredo da mãe empalhada no porão e os assassinatos cometidos após matar sua última vítima, Mary Crane (no filme, Marion Crane), revelados, há a história por trás de sua origem, mostrada no último filme da série, Psycho IV: The Beginning, na qual a psicopatia de Bates tem como origem a esquizofrenia e o comportamento obsessivo-compulsivo de sua mãe.

Em Bates Motel, no entanto, embora as nuances do livro e dos filmes estejam todos lá, temos uma reformulação da história que conta a evolução do jovem Norman Bates, brilhantemente interpretado por Freddie Highmore, que personifica não apenas os trejeitos de Anthony Perkins, como transfere ao personagem um novo grau de insanidade que é simplesmente crível e deleitável de se conferir.

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A série

Seis meses após a morte de Sam Bates (David Cubitt), vítima de um suposto acidente na garagem de casa, Norman (Highmore) e Norma (Vera Farmiga) decidem se mudar para White Pine Bay, no Oregon, onde Norma recém adquiriu uma propriedade tomada pelo banco, na qual há uma velha casa e um hotel em atividade há mais de cinquenta anos.

Enquanto Norman tenta se integrar na nova vida, chamando a atenção de Emma (Olivia Cooke), uma garota que sofre de fibrose cística e que logo se apaixona por ele, e se voltando para a garota mais bonita e popular da escola, Bradley (Nicola Peltz), Norma tenta reorganizar a vida dos dois.

No piloto, após ser atacada e estuprada por Keith Summers (W. Earl Brown), antigo proprietário da casa e do hotel, Norma é salva pelo filho, mas, sozinha, quando ofendida pelo agressor imobilizado em sua cozinha, ela parte para cima dele, matando-o com uma faca de cozinha. E é assim que a série inaugura, no melhor estilo Psycho. Assim, e diferentemente no livro de Bloch e dos filmes, vemos Norma Bates surgir também como figura assassina na narrativa, ao encobrir seu crime com a ajuda de Norman.

Embora possessiva, ciumenta, temperamental e por vezes incompreensiva à adoração de Norman, a Norma Bates de Bates Motel também se distingue da original por não ser totalmente arredia à ideia do filho se envolver com garotas, embora prefira ela mesma selecioná-las, dando uma estranha preferência à Emma após descobrir sua pouca expectativa de vida em decorrência do mal que a submete, do que à bela e desejável Bradley.

Aos poucos, sua personalidade evolui a um ponto em que passamos a conhecê-la melhor, e embora por vezes duvidemos de seu envolvimento na misteriosa morte de Sam, bem como de suas tendências violentas, Norma acaba ela mesmo se tornando uma figura promíscua aos olhos da audiência quando acaba se envolvendo com o assistente do xerife, Zach Shelby (Mike Vogel), que tem uma importante prova do assassinato de Summers na casa dos Bates encontrada debaixo da cama de Norman após uma revista policial.

Nestor-Carbonell-as-Sheriff-RoyceAssim, tendo sua credibilidade sempre colocada à prova pelo intransigente xerife Alex Romero (Nestor Carbonell), com o qual passa por reviravoltas interessantes até o final da temporada, e para fins de proteger a inocência do filho, Norma acaba se tornando amante de Zach e, num dado momento, até mesmo se apaixona por ele.

Paralelamente, Norman e Emma se envolvem na descoberta do tráfico de jovens chinesas para prostituição local, bem como conexão não apenas com Summers, mas do próprio assistente do xerife, Zach Shelby. O desvelamento dos mistérios acerca dessa subtrama que teve o próprio Hotel Bates como cenário, acaba sendo uma das coisas mais fascinantes da série ao lado de todas as outras. No episódio Trust Me, por exemplo, Norman invade a casa de Zach para recuperar o cinto de Summers que ele guardou como um suposto «troféu» debaixo de sua cama, reforçando sua natureza psicopata, e que poderá libertar sua mãe dos favores sexuais que se vê compelida, mas acaba encontrando uma jovem chinesa drogada e amarrada no porão. Quando Norma tenta confirmar o relato do filho, e nada encontra, fica a estranha sensação acerca de que Norman alucina todo o tempo, principalmente quando já o vemos apresentar sinais de esquizofrenia na cena em que se vê numa falsa conversa com a mãe, muito mais autoritária e controladora que de costume, ordenar-lhe que invada a casa do policial.

Na medida em que a história avança, White Pine Bay também começa a se revelar como um lugar igualmente nada amistoso. Com uma população sinistra e vários moradores envolvidos com o crime organizado local, cujo chefão ainda não deu as caras, e uma produção em alta escala de Cannabis sativa, além de assassinatos com direito a corpos pendurados e queimados em praça pública como retaliação, a casa dos Bates ganha até mesmo alguns contornos de normalidade em alguns (e raros) bons momentos familiares, ao passo em que todos se tornam suspeitos de qualquer coisa.

Max-Theiriot-in-Bates-MotelComo se só a mudança da localidade do Hotel Bates de Fairvale, California, para White Pine Bay, Oregon, a população violenta e misteriosa que lá reside, e mesmo a mudança no comportamento de Norma Bates como formador do caráter do filho em contrapartida ao livro e aos filmes não fossem suficientes, a série também inova ao acrescentar um elemento novo, qual seja, a existência de um meio-irmão de Norman: Dylan Massett (Max Thieriot), que aparece no segundo episódio para passar uns tempos com a família após perder o trabalho, a casa e não ter mais para onde ir.

A dinâmica entre Dylan e Norma e Norman acaba então se tornando outro grande arroubo em Bates Motel, uma vez que explora sem qualquer sutileza a evolução e a verdadeira faceta dos personagens. Num dado momento, por exemplo, no segundo episódio, Norman quase assassina o irmão na cozinha quando este chama a mãe de prostituta. Dylan, por sua vez, embora não seja um grande exemplo, pois acaba se envolvendo com os criminosos locais e chega a até mesmo a assassinar o homem responsável pela morte de seu parceiro, vivencia diariamente o que ele acredita ser uma sucessão de comportamentos abusivos sofridos pelo irmão. Assim, e ao finalmente conseguir se aproximar de Norman como irmão, e descobrir o crime acobertado por ele e a mãe, decide levar o caçula para longe daquela que considera insana, e possivelmente responsável pela morte de Sam Bates.

A menos de quatro episódios para o final, no entanto, em The Truth, logo após o violento desfecho da trama envolvendo o tráfico de mulheres e as chantagens de Zach Shelby contra os Bates, Norma conta a Dylan o que de fato aconteceu no dia da morte de Sam, e a verdade propriamente dita emerge: Norman é um assassino incontrolável em momentos de transe total, e Norma não apenas tem ciência das suas alucinações, mesmo anteriores, como sua nítida loucura se resume a proteger o resquício de sua família. Tal assertiva revela muito mais sobre a série do que ela mesma: é a exploração de uma nova origem para a psicopatia do personagem Norman Bates, e que não tem a ver com abusos sofridos pela mãe enlouquecida. De fato, Bates Motel procura demonstrar que Norman é um assassino psicopata há mais tempo do que se imagina. Por outro lado, Norma não está isenta de responsabilidade, uma vez que sua imaturidade no enfrentamento de problemas, a relutância em aceitar que o filho precisa de tratamento psiquiátrico, e mesmo quando de suas revelações desnecessárias, como quando, em Midnight, conta a Norman sobre os abusos por ela sofridos na infância, tem grande contribuição para o que ele um dia irá se tornar.

Freddie-Highmore-as-Norman-BatesBates Motel é simplesmente deleitável. Certamente que não chega a ser uma série agradável, mas consegue elevar a categoria de trama envolvendo uma família disfuncional a um novo nível. Ainda, as performances estupendas de Vera Farmiga e Freddie Highmore fazem com que as pequenas incoerências narrativas passam batidas. Se Highmore consegue personificar de forma convincente o Norman Bates de Anthony Perkins, acrescentando em sua performance elementos originais, e imbatíveis, Farmiga não fica nem um pouco atrás com uma interpretação da mãe jamais antes vista, mas nem por isso não imaginada. A necessidade de controle absoluto que a torna tão possessiva e ciumenta em relação a Norman pode até não ser o fator preponderante na transformação do filho no psicopata que conhecemos no futuro, mas fica cada vez mais evidente o quanto a tóxica relação entre os dois o afeta.

Os fãs do livro e dos filmes também não ficarão decepcionados com as inúmeras referências. Além da excelente caracterização da casa e do hotel, seja na parte externa ou interna, e que ficaram simplesmente idênticos ao longa-metragem original, há vários pequenos detalhes que nos remontam ao clássico de Hitchcock, como por exemplo: a faca de cozinha, que surge em diversos momentos como instrumento de defesa e de ataque entre os Bates; a adoração de Bates por filmes antigos, em homenagem à própria produção original; o corpo de Zach retirado no necrotério por Abernarthy (Jere Burns), já com sinais de autópsia, colocado na cama de Norma como forma de ameaça, e que remonta à cena em que a mãe de Bates é encontrada no porão do primeiro filme; a iniciação de Norman com a taxidermia através do pai de Emma, Will Decody (Ian Hart), após uma sucessão de eventos perturbadores.

Bates Motel é, sem dúvida, uma agradável surpresa aos fãs e não fãs da filmografia original, e funciona perfeitamente bem como spin-off e reformulação da história do personagem Norman Bates antes de Psycho.

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