Filmes do mês de abril

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A Identidade Bourne (2002)*****

Primeiro da trilogia estrelada por Matt Damon, e adaptada da série de livros de Robert Ludlum sobre o superespião sem memória, A Identidade Bourne é o tipo de filme que vale a pena ver e rever.

Dirigido por Doug Liman, o longa-metragem que colocou o ator Matt Damon na lista dos atores mais bem pagos de Hollywood, conta a história do personagem Jason Bourne, que é encontrado à deriva no mar por um barco de pescadores italianos, sem qualquer lembrança de sua vida ou dos acontecimentos que o levaram a ser encontrado em alto mar.

Com a ajuda de um chip subcutâneo, ele descobre ser portador de vários passaportes, uma boa quantia em dinheiro e uma arma bem guardados num cofre em Zurich. Lá, ele descobre que está sendo perseguido por uma organização chamada Treadstone, e na medida em que vai descobrindo ser detentor de habilidades incríveis, acaba envolvendo Marie (Franka Potente) em sua rota de fuga.

Na tentativa de descobrir os motivos pelos quais é perseguido, ele acaba esbarrando em assassinos tão talentosos quanto ele, até finalmente confrontar Conklin (Chris Cooper), o homem por trás de uma operação da qual fez parte e que consistia em assassinar um ditador africano.

O filme é excelentemente dirigido, e as performances de Matt Damon, de Chris Cooper e de Brian Cox, que faz o diretor do projeto Treadstone são estupendas. Considerado um dos melhores filmes de espionagem das últimas décadas, provavelmente desde The French Connection, A Identidade Bourne é também definidor de uma nova fase para os filmes de ação no cinema. Se o louvável esforço de Damon, sua química com Franka Potente, ou a trama não fazem a película valer a pena, ao menos as cenas de ação pelas ruas de Paris são um deleite visual à parte.

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Warrior (2011)****

Gavin O’Connor escreve e dirige Warrior, que embora pareça uma tentativa de reprisar antigas fórmulas vistas em filmes como Rocky (1976) ou The Karate Kid (1984), e mesmo revisitar o universo de seu mais recente predecessor do gênero, The Fighter (2010) adaptado para o cenário das lutas MMA, acaba se tornando uma boa surpresa.

Tommy Conlon (Tom Hardy) é o filho mais novo de Paddy (Nick Nolte), um ex-boxeador alcoólico, que retorna para casa após uma grande desavença familiar que os separou. Misterioso, ele se inscreve numa academia local para treinar Muay Thai, e acaba surpreendendo ao ser colocado para lutar com o lutador de MMA profissional, Mad Dog Grimes (Erik Apple), nocauteando-o. Colt Boyd (Maximiliano Hernández), empresário de Mad Dog, procura por ele, na tentativa de colocá-lo no circuito de lutas, e Tommy pede a Paddy para treiná-lo. Enquanto este acredita que é uma boa oportunidade de se reaproximar do filho, Tommy deixa claro que ainda guarda remorsos do passado.

Paralelamente, Brenda Conlon (Joel Edgerton), ex-lutador do UFC e irmão mais velho de Tommy, passa a ter dificuldades financeiras após uma cirurgia de coração a que foi submetida uma de suas filhas pequenas. Temendo perder a casa, enquanto trabalha durante o dia como professor ginasial, à noite ele participa de lutas de MMA clandestinas. Descoberto, ele é colocado em suspensão pelo diretor, Zito (Kevin Dunn). A despeito da discordância de sua esposa, Tess (Jennifer Morrison), ele decide aproveitar o tempo livre para ser treinado por Frank (Frank Grillo) e retornar ao ringue no intuito de participar de um torneio de lutas e conseguir o dinheiro suficiente para estabilizar os problemas financeiros.

O que os dois irmãos não sabem, tampouco o pai deles, porquanto não se falam mais, é que eles irão participar do mesmo combate em Atlantic City, e após derrotarem um a um de seus oponentes, eles irão se confrontar na final.

Embora pareça absurda a ideia de dois irmãos se enfrentarem numa arena de MMA até as últimas consequências por conta de sabe-se lá o que houve na família, uma vez que jamais é esclarecido o que de fato ocorreu para cada um ir para um lado (o que, todavia, só faz o telespectador pensar o pior, e talvez essa seja a intenção), o longa-metragem tem seus méritos. Um deles, logicamente, é Tom Hardy, que embora não tenha muitas falas, ao ter algo a dizer acaba simplesmente roubando a cena, como na sequência em que humilha o pai num salão de jogos no cassino ou quando confronta pela primeira vez em anos seu irmão numa praia. Ademais, a transformação física de Hardy, que é apenas uma de várias outras (Star Trek: Nemesis, Bronson, The Dark Knight Rises), é o grande arroubo.

Joel Edgerton, que é um rosto desconhecido, também faz por merecer, mas é Nick Nolte que se encontra em sua melhor forma. As sequências em que seu personagem tenta se reaproximar dos filhos são simplesmente emocionantes, em especial a cena em que, após uma recaída no vício do álcool, ele finalmente consegue fazer as pazes com Tommy.

O filme não é uma grande produção, mas certamente merece ser conferido.

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Shame (2011)***

Com roteiro e direção de Steve McQueen, Shame surge como um filme artisticamente bem produzido, longas tomadas, atuação estupenda, densidade em cena, e uma história que não se atém a detalhes ou explicação.

Brandon (Michael Fassbender) é um bem sucedido homem de negócios em NY. Ele é solteiro, bem apessoado e tem um belo apartamento. Contudo, ele sofre de compulsão sexual, o que o torna incapaz de se concentrar em outra coisa que não na realização de suas fantasias, afetando suas relações afetivas.

Sua inquietante rotina diária de assistir pornografia (em casa ou no trabalho), de se masturbar quase o tempo todo (em casa ou no trabalho), bem como de receber prostitutas em seu apartamento, é interrompida pela visita inesperada de sua irmã, Sissy (Carey Mulligan). Cantora de bar, ela acaba de sair de um relacionamento, e transtornada, passa a imediatamente se envolver com o chefe de Brandon, David (James Badge Dale), tão logo consegue convencer o irmão de deixá-la ficar com ele por alguns dias.

Não demora muito então para que descubramos que ambos parecem ter vindo de um lar quebrado, o que lhes trouxe consequências nefastas. Enquanto Brandon tem responsabilidade e controle absoluto de sua vida, ele sofre de adição pelo sexo e tem problema em manter relacionamentos sérios, Sissy não tem qualquer controle sobre sua vida, como também se apega demais às pessoas, o que a torna igualmente inapta a ter relacionamentos duradouros.

Na medida em que a trama evolui, vemos que Brandon tenta transpor a barreira de sua doença quando se aproxima de Marianne (Nicole Beharie), uma colega de trabalho, mas é após uma briga com Sissy, que seu vício vem com mais força e então testemunhamos até onde ele pode chegar com sua compulsão.

A película é muito bem produzida, e as performances de Fassbender e Mulligan são críveis e viscerais. A despeito do excesso de longas cenas, e da ausência de qualquer explicação para a origem de tamanho transtorno que afeta o casal de irmãos, acrescido do fato de que o final fica em aberto para livre interpretação, o longa-metragem é deveras fascinante e artisticamente convincente.

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Uma segunda chance (1991)****

J.J. Abrahams é hoje conhecido por suas grandes façanhas como showrunner de séries de televisão como Felicity, Alias e Lost até finalmente se tornar um cineasta de respeito com Mission: Impossible III, Star Trek e Super 8. Com o novo Star Wars: Episode VIIà caminho, ninguém lembra, no entanto, ser ele, sob o nome de Jeffrey Abrams, o roteirista de alguns dos filmes mais interessantes da década de 90, como Taking Care of Business, Forever Young e Armageddon.

É ai que entra Uma Segunda Chance (Regarding Henry), outro grande trabalho com roteiro de Abrams, e dirigido por Mike Nichols, que infelizmente passa despercebido como drama familiar, quando sua mensagem, transmitida por um elenco estelar, é das mais simbólicas em um longa-metragem.

A trama gira em torno de Henry Turner (Harrison Ford), brilhante e impiedoso advogado numa das mais importantes firmas em NY. Distante e vaidoso, ele não se apega aos problemas de casa, e tampouco se esforça para ser um bom pai ou marido. Casado com Sarah (Annette Bening), sua vida se resume às rodas da alta sociedade.

Numa noite, porém, ele acaba surpreendendo um assaltante (John Leguizamo) numa loja de conveniências, e leva dois tiros que o fazem entrar em coma profundo. Após sair do estado de comatose, a triste nova realidade: ele não se lembra quem é e terá que ser submetido a um longo tratamento para reaprender algumas funções, como comer sozinho, andar e falar.

Durante esse período de adaptação, Henry precisa reaprender a conviver com Sarah e a filha, Rachel (Mikki Allen), com quem tinha uma difícil relação antes do acidente. Não bastasse isso, ele começa a descobrir não gostar mais de seu ofício quando constata algumas omissões em casos relevantes ganhos por seu escritório, o que só torna a situação financeira da família ainda mais complicada.

Contudo, os Turner descobrem juntos que dinheiro e status nada significam quando a família não é unida, e decidem abraçar a segunda chance que lhes foi proporcionada para mudar de vida nesse que é um dos filmes mais agradáveis de todos os tempos, e com uma das melhores performances de Harrison Ford e Annette Bening. Recomendo!

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As Virgens Suicidas (1999)***

Sofia Coppola dirige a adaptação do romance de Jeffrey Eugenides em As Virgens Suicidas, um dos longas-metragens mais aclamados de todos os tempos.

Com narração de Giovanni Ribisi, o filme conta a história de uma família na fictícia Grosse Pointe, Michigan, nos idos do ano de 1974. Em estilo flashback, a trama gira em torno dos Lisbon. Ronald (James Woods) e Sara Lisbon (Kathleen Turner) são professores ginasiais extremamente protetores, conservadores e autoritários, e possuem cinco filhas: Therese (Leslie Hayman), de 17 anos, Mary (A.J. Cook), de 16 anos, Bonnie (Chelse Swain), de 15 anos, Lux (Kirsten Dunst), de 14 anos, e Cecile (Hanna Hall), de 13 anos.

Após o inexplicado suicídio de Cecile, Ronald e Sara decidem redobrar a atenção sobre as filhas, que surpreendentemente retornam à escola indiferente ao ocorrido, a despeito da repercussão do caso.

As coisas ficam complicadas quando Lux acaba chamando a atenção de Trip Fontaine (Josh Hartnett) que, obcecado por ela, consegue conquistar a confiança dos intransigentes pais da moça e autorização para, junto com outros três amigos, levar ela e as irmãs ao baile de formatura. Mas as meninas voltam para casa sem Lux, que perde a virgindade com Trip na quadra de futebol do colégio, para no dia seguinte ser largada pelo namorado.

Ronald e Sara decidem então não permitir mais a saída das meninas, que passam a viver isoladas dentro de casa. Intrigados e fascinados pelas garotas, um grupo de adolescentes tenta contatá-las com sinais de luz e recados no jardim, e quando os garotos finalmente conseguem acesso para encontrá-las pessoalmente, uma tragédia familiar vem à tona.

A despeito de algumas lacunas, As Virgens Suicidas é um filme bastante interessante, e os méritos talvez sejam todos de Kirsten Dunst, que, não à toa, volta a trabalhar com Coppola em Marie Antoinette. Mas Kathleen Turner e James Woods não fazem por menos. O filme ainda conta com as participações de Michael Paré, de Scott Glenn e de Danny DeVito, que não passam despercebidas.

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Não sei como ela consegue (2011)**

O filme de Douglas McGrath, inspirado no romance de Allison Pearson, deveria ser a proposta de como uma mãe de dois filhos pequenos consegue conciliar a vida familiar com as atribulações do trabalho e, ainda assim, crescer na carreira e manter um casamento feliz. Infelizmente, o que fica é a lição do politicamente correto, a despeito de uma realidade atual incompatível, e a bem sucedida escalada de uma mulher responsável por toda a bagunça que é sua vida.

Kate Reddy (Sarah Jessica Parker) é analista financeira em uma importante firma de Boston, mãe de dois filhos pequenos, Emily (Emma Rayne Lyle) e Ben (Julius Goldberg e Theodore Goldberg), e casada com o marido mais complacente do mundo, Richard (Greg Kinnear). Ela se culpa constantemente por não conseguir participar ativamente da vida dos filhos, e de não ter mais tempo para a vida a dois com Richard. Entre correrias no trabalho e em casa, ela consegue encaixar rápidos encontros com sua única amiga e confidente, Allison (Christina Hendricks).

As coisas ficam complicadas quando seu chefe, Clark Cooper (Kelsey Grammer) a coloca à frente de uma nova possibilidade de negócios com o banqueiro nova-iorquino, Jack Abelhammer (Pierce Brosnan), para desgosto de seu competitivo colega, Chris Bunce (Seth Meyers), que enxerga na atrapalhada mãe a possibilidade de crescer na firma. Tendo que transitar entre Boston e NY durante toda a semana, Kate não apenas acaba se afastando cada vez mais da vida familiar, como conquista o coração do solitário Abelhammer.

Num dado momento, quando Kate reavalia qual é a prioridade máxima em sua vida, ela precisa tomar uma importante decisão e assumir o controle das coisas.

O filme tem seus momentos. Sarah Jessica Parker é simplesmente adorável, ainda que chegue a reviver com Brosnan as nuances da relação de Carrie Bradshaw e Mr Big (Chris Noth), enquanto Christina Hendricks faz uma mistura entre Joan Holloway e Samantha Jones (Kim Cattrall). O que resta, porém, é uma película que, ao invés de tratar com um pouco de mais de intensidade um problema tão real, ainda que se trate de uma comédia estrelada por Parker, prega a moral e os bons costumes de forma descarada.

Embora Richard também tenha sua carreira e esteja em momento decisivo para uma promoção, ele se mostra sempre solícito, e Kate parece não saber (ou não quer) aproveitar mais da ajuda do marido na vida familiar do que deveria. Desorganizada, ela ainda não consegue ter o controle de uma realidade simples, afinal, ela tem o emprego que tanto ama e pelo qual é bem remunerada (privilégio para poucos), o marido é compreensível e paciente (algo raro), e como descobrimos ao final, o chefe é igualmente compreensível (o que inexiste na realidade).

E se temos a representação da via contrária com Momo (Olivia Munn), assistente de Kate, que, workaholic, pensa em jamais ter filhos na vida, mas acaba engravidando por acidente e decide seguir adiante, enquanto Kate consegue priorizar a família, a conclusão é a de que o filme nos faz engolir a ideia de que a suposta linha natural das coisas é sagrada e não pode ser rompida, o que é patético. Enfim, o longa-metragem é ao menos divertido, e vale a pena ser conferido para mera reflexão.

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The Shipping News (2001)***

Inspirado no romance homônimo de Annie Proulx, The Shipping News traz Kevin Spacey numa das melhores interpretações de sua carreira como o emocionalmente abalado Quoyle, que precisa retomar o controle de sua vida após uma sucessão de tragédias.

O longa-metragem começa mostrando um trauma de infância, no qual Quoyle, ainda pequeno, é jogado num lago pelo próprio pai, Guy (John Dunsworth), a fim de que possa aprender a nadar. Anos mais tarde, ele trabalha no setor de impressão de um jornal. Reservado e sem amigos, ele acaba conhecendo a prostituta Petal (Cate Blanchett). Após lhe pagar uma refeição, os dois dormem juntos e, tempos depois, agora casados, tem uma filha, Bunny (Alyssa Gainer).

Contudo, Petal não se conforma com a vida de mãe e esposa, e continua a transitar em bares e com os piores tipos. Quoyle, que faz vista grossa para o estilo de vida da mulher, cuida de Bunny, até que um dia Petal vai embora e a leva junto. Pouco depois, Peta é encontrada morta, vítima de afogamento após mergulha com o carro num rio juntamente com o amante, enquanto Bunny, vendida pela própria mãe para a adoção, é localizada e retorna para casa.

Nesse meio tempo, no entanto, os pais de Quoyle se matam, e uma tia distante, Agnis Hamm (Judi Dench), surge para prestar as homenagens às cinzas do irmão e da cunhada, quando, na verdade, pretende roubar os restos do falecido.

Sem rumo, Quoyle decide partir com Agnis para Newfoundland para se reconectar com suas origens e refazer sua vida. Lá, ele começa a trabalhar como jornalista no jornal local, The Shipping News, e conquista o respeito e a admiração de seu chefe-fundador, Jack Buggit (Scott Glenn). Enquanto tenta se ajustar à nova vida e superar antigos traumas, bem como o conturbado relacionamento com Petal, Quoyle acaba se aproximando de uma adorável viúva, Wavey (Julianne Moore), e descobre alguns segredos guardados pelos moradores da cidade, e de sua própria tia.

Embora não seja uma grande produção, The Shippment News tem seus encantos: a começar, pelo próprio Kevin Spacey, que junto a Judi Dench faz uma dobradinha inesperadamente interessante. Com história simples, porém agradável, o filme também tem seus méritos no que se refere à cinematografia. Mesmo que não se tenha muito de Newfoundland que a torne vivaz, a sua caracterização e a dos seus moradores a tornam uma das cidades de pescadores mais fascinantes. Vale a pena ser conferido como reflexão.

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