Filmes do mês de março

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Side by Side (2012)****

Side by Side é um documentário escrito e dirigido por Christopher Kenneally que investiga a história e o processo de criação dos filmes digitais.

Um dos mais importantes trabalhos da atualidade no que diz respeito ao tema, a produção, que tem Keanu Reeves como apresentador e entrevistador, faz um tour pela história do cinema tradicional e digital e mostra o impacto causado pela nova era.

O documentário conta ainda com os relatos de célebres cineastas, dentre os quais: Danny Boyle, James Cameron, David Fincher, Barry Levinson, George Lucas, David Lynch, Christopher Nolan, Robert Rodriguez, Joel Schumacher, Martin Scorsese, Steven Soderbergh, Lars von Trier, Andy Wachowski, Lana Wachowski e cinegrafistas que atuam há vários anos no mercado cinematográfico. Astros e estrelas, como Lena Dunham, Greta Gerwig e John Malkovich também emprestam a palavra sobre os diferentes tons alcançados pelos filmes nos últimos anos e as mudanças na indústria do cinema.

Keanu Reeves emprega com dinamismo sua função de apresentador e entrevistador, e deixa os convidados sempre muito à vontade, além de conseguir transmitir com muita eficiência a mensagem da nata de Hollywood sobre as mudanças no mundo de imaginação tão amado e respeitado por milhões. Impossível não se emocionar com alguns dos relatos, nos quais cineastas renomados fazem sua homenagem à nova geração e aos feitos atuais do cinema.

Além das entrevistas, o documentário também apresenta um pouco da história e da evolução das câmeras e da cinematografia em si num verdadeiro espetáculo informativo e visual aos admiradores da sétima arte. Recomendo!

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Room 237 (2012)**

Room 237 é um documentário de cunho extremamente subjetivo que explora diversas teorias acerca das mensagens subliminares supostamente deixadas por Stanley Kubrick em seu aclamado The Shining.

Dirigido e escrito por Rodney Ascher, a produção conta com diversos depoimentos e explora cenas e supostas pistas do saudoso cineasta para livre interpretação. A despeito de o documentário ter como foco justamente explorar os bastidores do consagrado filme estrelado por Jack Nicholson e Shelley Duvall, adaptado do romance de Stephen King, bem como a genialidade do próprio Kubrick, as teorias trazidas à baila em Room 237 são meras extensões de como todos nós geralmente interpretamos aquilo que vemos, bem como do próprio processo de interpretação em si.

Registre-se, que o fato de Kubrick não estar mais vivo contribui para a liberdade da produção, que exerce um interessante, porém desastroso exercício de leitura de mensagens metafóricas, e que conduzem o telespectador a uma viagem que tem como resultado uma total falta de análise mais coerente.

Inconsistente, além de apontar referências ao genocídio dos índios americanos e ao holocausto, o documentário também peca por sugerir, ao também trazer à tona a teoria de que Kubrick estaria por detrás das supostas filmagens com as referências da missão Apolo 11 em The Shining, que a chegada do homem à lua seria a maior fraude da história.

No final, a conclusão é a de que, se você é fã de The Shining e deseja manter intocado seu entendimento sobre o filme, não assista a Room 237, pois o documentário é não apenas contraditório, como também ineficiente. Ao assisti-lo, você vai acabar se decepcionando com a quantidade de detalhes do clássico de Kubrick que são explorados, e que simplesmente arruínam todo o seu mistério, mas que de forma alguma simbolizam uma oficial versão da mensagem do cineasta. Melhor mesmo é continuar a acreditar que Kubrick, como qualquer outro artista, apenas e tão somente se divertia fazendo o que ele mais gostava quando dirigiu aquele que é considerado um dos maiores filmes de horror de todos os tempos. Não recomendo!

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Fighting for a Generation: 20 Years of the UFC (2013)****

Dirigido por Adam Condal e Adam Goldberg, Fighting for a Generation: 20 Years of the UFC é provavelmente um dos melhores documentários do mundo dos esportes já produzidos, e faz um breve retrospecto dos 20 anos de existência do Ultimate Fighting Championship – UFC, da sua evolução até os dias de hoje, da criação do MMA como hoje o conhecemos, bem como dos vários e valorosos lutadores que já se enfrentarem em suas arenas.

A produção mostra através de relatos, entrevistas e imagens, os primórdios do UFC e tem início basicamente apresentando um pouco da história da família Gracie e o jiu-jitsu brasileiro. Co-fundadores do UFC, Rorion Gracie, Art Davie e Bob Meyrowitz aparecem na película para apresentar em linhas gerais o objetivo do inovador campeonato quando inaugurado em novembro de 1993, e o documentário mostra trechos do primeiro grande combate: o UFC 1, no qual Royce Gracie derrotou seu então oponente,  Gerard Gordeau, tornando-se assim o primeiro grande vencedor do UFC.

O documentário também mostra a trajetória do evento, e as controvérsias acerca da sua natureza violenta ao longo de sua primeira década, o que deu origem a uma campanha promovida pelo então senador do Arizona, John McCain, para o total banimento do UFC, obrigando assim seus realizadores a executar algumas reformas, bem como a estipular novas diretrizes ao estilo de combate até então desprovido de qualquer regra.

O longa-metragem também mostra os momentos de dificuldade sofridos pelo evento até sua aquisição por um grupo de investidores de cassinos de Las Vegas, e a assunção da sua presidência por Dana White, bem como da sua reformulação como hoje o conhecemos, da compra do Pride FC, da monumental realização do UFC 100 em 2009, e da criação de uma categoria feminina.

Além de homenagens a grandes lutares que já combateram na arena do UFC, e menções honrosas aos grandes campeões, Anderson Silva e Georges St-Pierre, a produção enfatiza a importância do evento e o quanto sua transformação e adaptação está enraizada ao amor pelo esporte. Sem dúvida alguma, um documentário excelentemente produzido e bastante eficiente. Recomendo!

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Haywire (2011)**

Nem a direção de Steven Soderbergh, e nem o elenco estelar conseguem salvar o roteiro de Lem Dobbs para o filme Haywire, thriller de ação que conta a história de uma super-soldado que trabalha para uma organização governamental que decide sair à desforra contra seus superiores após ser traída durante uma missão.

A ex-lutadora de Muay Thai e terceira melhor combatente de MMA feminino do mundo, Gina Carano, empresta todo seu talento em artes marciais e técnicas de luta corpo a corpo no longa-metragem também estrelado por Ewan McGregor, Michael Douglas, Antonio Banderas, Bill Paxton, Michael Fassbender e Channing Tatum.

A trama até que começa bem quando a personagem encontra quem parece ser uma ameaça na pela de Channing Tatum num restaurante de beira de estrada e os dois saem na pancadaria sem que ao menos possamos entender o que se passa. Fica a partir daí a expectativa de um bom filme de ação pela frente, até que, com um desconhecido a tiracolo (Michael Angarano), Mallory Kane (Carano) pega a estrada e revela sua história que acaba se desenrolando em flashbacks, e o que se segue é uma decepção atrás da outra.

Membro de uma agência especial, ela é recrutada para uma missão em Barcelona, Espanha, para o resgate de um refém (Anthony Brandon Wong). Na sequência, ela é imediatamente despachada para outro trabalho em Dublin, na Irlanda, juntamente com outro associado, Paul (Michael Fassbender). Eventualmente, porém, ela acaba descobrindo ser vítima de uma armadilha na qual seus empregadores pretendem não apenas incriminá-la de um homicídio, como também matá-la. Mais rápida e eficiente no combate físico, porém, ela acaba conseguindo se desvencilhar de seu assassino. Na tentativa de buscar respostas para a suposta cilada, ela acaba descobrindo o envolvimento direto de seu imediato, Kenneth (Ewan McGregor), e uma verdadeira caçada tem início.

Apesar dos esforços de Carano, que faz aqui sua versão feminina de Steven Seagal, bem como de todo o elenco e do peculiar – e sempre excelente – estilo cinematográfico de Soderbergh, o roteiro é deveras fraco e inconsistente. Além do mais, o que fica é a nítida impressão de que a ideia principal da película era a de fazer da personagem uma versão feminina de Jason Bourne, o que acaba dando errado, uma vez que a trama é basicamente linear, portanto, desprovida de qualquer clímax.

Resumindo, Haywire vale a pena unicamente pelas sequências de luta entre a personagem principal e seus oponentes, que não são poucos, e dentre os quais se destacam Channing Tatum, Michael Fassbender e Ewan McGregor.

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Inimigo do Estado (1998)****

Visionário para a época em que produzido, o filme do saudoso Tony Scott, com roteiro de David Marconi, mostra o que de mais impossível se poderia imaginar em outros tempos, principalmente ao final do século XX: a paranoia estadunidense como alavanca para um excesso de vigilância constante através de sua Agência de segurança nacional.

Se o que temos hoje em tema de drones, vigilância via satélite e outros meios praticados pela NSA que tanto repercutem e aterram a população e governos mundiais, Enemy of the State já anteviu. Surpreendente para os dias de hoje, o longa-metragem retrata com incrível fidelidade uma realidade atual, embora se distancie de nossos dias em quinze anos.

Will Smith, no seu terceiro grande trabalho cinematográfico, logo seguido de Independence Day e Men in Black é Clayton Dean, um advogado que acaba se envolvendo por acidente numa trama de mistério que envolve Thomas Reynolds (Jon Voight), diretor da NSA, o assassinato de um senador (Jason Robards), e a demonstração do poder de destruição quando a premissa conhecimento é poder se torna real num mundo em que o Big Brother está sempre de olho.

Tenso e repleto de ação, o filme tem um grande elenco, que conta ainda com Barry Pepper, Gabriel Byrne, Jason Lee e Jack Black. Gene Hackman também aparece na história como o personagem Edward Lyle, um ex-agente da CIA que acaba ajudando o personagem de Smith a recuperar sua vida após ser descoberto como o detentor de uma prova incriminadora contra o inescrupuloso diretor da NSA.

A despeito da trama intensa, o filme, que não apenas reflete uma realidade atual, funciona como um trabalho padrão de Hollywood, em que o final é bastante previsível, e os momentos de tensão são quebrados pela performance de Smith, que por vezes emprega seu estilo como um alívio cômico, mesmo que seja o intérprete do personagem principal.

Excelentemente dirigido e produzido, com cinematografia impecável, aliado a um roteiro bastante satisfatório, Enemy of the State é sem dúvida um filme que, embora retrate uma determinada época, e seja arrebatador para o seu tempo, presta-se como um bom exercício de análise para os dias atuais. O destaque, por óbvio, fica por conta do próprio tema: vigilância constante como elemento preponderante para a nova ordem mundial. Recomendo!

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