Review do episódio #1.08 de True Detective

True-Detective-S01E08

Por dezessete anos, uma conspiração ritualística envolvendo sacrifício de mulheres e de crianças desaparecidas na Louisiana assombrou os detetives Rust Cohle (Matthew McConaughey) e Martin Hart (Woody Harrelson). Designados para investigar o assassinato de Dora Kelly Lange (Amanda Rose Batz) no episódio piloto, os dois descobriram o envolvimento de um potencial serial killer, uma entidade denominada The Yellow King e um lugar chamado Carcosa, que fez com que vários fãs da série conferissem a obra de horror e sobrenatural de Robert W. Chambers, na esperança de encontrar pistas para o desvelamento do mistério aparentemente sobrenatural da trama de apenas oito episódios.

O caráter duvidoso de ambos os detetives, mas, sobretudo, sua vida desregrada, fez com que até mesmo suspeitas da audiência recaíssem sobre eles, principalmente quanto ao pessimista e niilista Cohle, ao passo em que Hart foi cada vez mais revelando um lado temperamental e violento.

Apesar de todas as distrações a que não apenas os dois detetives foram submetidos ao longo desses sete episódios (e o próprio público da série), o que, diante do conceito espiritual dos indícios conectados às prováveis vítimas de um culto satânico fez alimentar uma rede de especulações infindáveis entre os telespectadores, e que iam desde a uma analogia a The Sixth Sense ou a Fight Club a até mesmo The Usual Suspects, as pistas estavam todas lá. Assim, o desfecho da primeira temporada não poderia ser outro: a consolidação da premissa de que O Homem é o animal mais cruel.

E é com as pistas colhidas até o episódio After You’ve Gone que Cohle e Hart seguem rumo à captura do verdadeiro assassino de Dora Lange, e daquele que em determinado momento Cohle apontou ao início da série como o monstro a ser confrontado ao final de um pesadelo, e que não tem qualquer conexão a uma entidade ou força sobrenatural, não passando de um homem desprovido de qualquer compaixão, mergulhado na escuridão da loucura de uma seita concebida há várias gerações.

Após as entrevistas com os detetives Maynard Gilbough (Michael Potts) e Thomas Papania (Tory Kittles) ao longo dos seis primeiros episódios, os ex-parceiros se reencontram e se reconectam de modo a solucionar o caso não totalmente solucionado há dezessete anos. Em After You’ve Gone testemunhamos não apenas uma significativa mudança de ambos, sobretudo de Cohle, que se mostra mais interessado na vida pessoal de Hart, e bem menos presunçoso, como também a captura do xerife Steve Geraci (Michael Harney), provavelmente envolvido nos crimes, na medida em que teria supostamente ajudado a acobertar um desaparecimento insolúvel.

Assim, o episódio Form and Void, que encerra o arco de histórias envolvendo a trama e os personagens da primeira temporada de True Detective começa com Errol Childress (Glenn Fleshler) em seus domínios. Ele está falando com alguém supostamente amarrado a uma cama numa cabana. Eventualmente, ele se dirige a tal pessoa como sendo seu pai, Ted Childress, mas não o vemos em momento algum. Ele então sai da cabana e se dirige até sua casa, onde conhecemos seu cão desobediente e sua esposa desleixada e visivelmente perturbada. Os dois tem um momento de intimidade na qual o transtornado Errol muda de sotaque o tempo todo e a faz contar a história de quando seu avô, Sam Tutle, encontrou-a no canavial, evidenciando o histórico de esquizofrenia de Errol e os abusos de longa data sofrido por ambos.

Enquanto isso, Cohle e Hart fazem Geraci assistir à fita cassete encontrada numa das residências do falecido Reverendo Billy Lee Tuttle (Jay O. Sanders), e que mostra o ritual de estupro seguido de morte de Marie Fontenot (Wanetah Walmsley). Geraci se mostra surpreso e enojado com seu conteúdo, e esclarece não saber de nada, e que só arquivou o caso em obediência à uma cadeia de comando na qual estava à frente o xerife na época, Ted Childress.

Numa escola, em Erath, Errol pinta a parte externa, enquanto várias crianças saem para o intervalo. Ele as observa obsessivamente, quando então uma simpática professora se aproxima e lhe pergunta se ele quer um café ou alguma coisa para comer. Ele agradece e informa que tem muito ainda a fazer. Ela se afasta, e ele continua a observar duas meninas que brincam no pátio, quando então um garoto se aproxima e o fica encarando.

Sem êxito com Geraci, mas após algumas ameaças e a destruição de seu valioso Maserati, Cohle e Hart voltam às evidências que tem e, subitamente, Martin se questiona acerca das orelhas verdes mencionadas no relato de uma garotinha que teria mencionado num relato em 1995 que foi perseguida por um monstro de espaguete com orelhas verdes. Intrigado, ele descobre duas fotos de uma mesma casa em Erath próxima a essa suposta perseguição, o que os faz especular se as orelhas verdes não seriam da tinta fresca, ao que eles decidem ir até lá para investigar.

No caminho à Erath, Hart lembra Cohle do dia em que brigaram em frente ao distrito e o ex-parceiro entregou o distintivo. Hart admite que não o culpa mais, pois Maggie (Michelle Monaghan) lhe teria dito que se aproveitou da bebedeira de Rust para destruir a parceria de ambos, bem como seu casamento. Os dois reconhecem que mudaram muito desde então, e Cohle menciona que Maggie ainda se importa com o ex-marido, pois o procurou dias atrás em seu bar, preocupada com o que os dois pudessem estar envolvidos e com os perigos que Martin poderia vir a enfrentar.

Ao chegarem à casa verde, Cohle e Hart descobrem que sua residente em 1995, Lilly Hill (Terry Moore), está agora num asilo, e vão encontrá-la. Lá, ela lhes revela que os pintores de sua casa trabalhavam para o programa de Tutle nas escolas e que o mais novo deles tinha cicatrizes no rosto. Sem maiores pistas para sua localização, eles descobrem que o falecido marido de Lilly pagava os impostos, e declarou o serviço de pintura como sendo feito pela Childress & Filhos.

No bar em que trabalha, Cohle tem vários pacotes com cópias da fita cassete que encontrou na casa de Tutle sobre o balcão, endereçadas para o FBI e diversos comandos de investigação. Ele instrui Robert Doumain (Johnny McPhail), dono do bar em que trabalha e pai de uma das crianças desaparecidas que o tem ajudado, a despachar todos se não tiver notícias dele em menos de 24 horas.

Enquanto isso, Hart se encontra com Papania num restaurante. Enquanto Hart tenta saber o que ele já descobriu sobre o caso de Lake Charles, Papania tenta descobrir o que ele sabe de Cohle. Ambos não revelam o que sabem, mas Papania deixa claro que ele e Gilbough estão vigiando ambos, e que sabem que os dois passam a noite inteira em sua agência de investigação particular. Hart reforça o envolvimento dos Tutle em rituais e sacrifícios, mas Papania retruca no sentido de que ele parece falar como Cohle. Hart então o deixa, não sem antes alertá-lo para que corra para alcançá-los.

A caminho do endereço registrado em nome de Childress, Cohle revela a Hart sentir o mesmo cheiro de alumínio e cinzas que um dia já sentiu. Os dois finalmente chegam à casa de Errol. Cohle pede a Hart que chame Papania, e diz ser aquele o lugar, mas o celular não tem sinal. Enquanto Hart segue para a casa principal, no intuito de ligar de lá, Cohle fica de olho na cabana. Betty, esposa de Errol, atende a porta, mas não deixa Hart entrar. O cão late incessantemente do lado de dentro, e quando finalmente foge em direção aos fundos da cabana, Cohle vai ao seu encalço na certeza de que há alguém lá, enquanto Hart força a entrada da casa principal.

Cohle descobre o cão morto e vê, ao longe, Errol o encarando entre os arbustos. Com a arma em punho, ele ordena que o criminoso se ajoelhe e se entregue, mas Errol desaparece mata adentro, e Cohle vai atrás dele.

Enquanto isso, Hart revista toda a casa, para encontrar caos por toda a parte. Num determinado momento, ele encontra um cômodo repleto de colchonetes, brinquedos e roupas infantis. Quando ele finalmente confronta Betty, ela está histérica. Ele então segue até a cabana, e ao entrar encontra Ted Childress supostamente morto, porém conservado, amarrado à cama.

Cohle, no entanto, continua no encalço de Errol, que o chama para dentro de uma floresta que os leva direto a um túnel e uma estrutura em pedra tomada por vegetação, diversas treliças e armadilhas para demônios, bem como cadáveres pendurados e roupas de crianças empilhadas.

Hart está atrás de Cohle, que continua a seguir a voz de Errol por um corredor. Quando ele lhe apresenta o lugar como sendo Carcosa, Cohle finalmente descobre um pátio por onde a luz do sol brilha do alto através de uma abertura circular. Ele começa a ter visões de um céu estrelado e luzes cintilantes. Subitamente, Errol emerge da escuridão e crava um punhal no abdome de Cohle. Ele então o levanta segurando-o pelo punhal, enquanto Cohle segura a machadinha apontada contra si e desfere vários golpes com a própria cabeça contra seu oponente, mas Errol não cede. Tiros são disparados, e Errol derruba Cohle ao chão. Hart surge e continua a disparar com sua arma, mas Errol lança sua machadinha contra ele, e Martin cai. O criminoso se aproxima dele e lhe chuta a face, e ao remover a machadinha para lhe dar um último golpe, Cohle dispara a arma contra sua cabeça, matando-o.

Cohle deita de costas, e Hart vai até ele. O ferimento parece bastante sério, e Cohle remove lentamente o punhal, revelando o tamanho do estrago. Os dois ficam ali até finalmente Papania e Gilbough surgirem com reforços.

Hospitalizado, Hart é informado por Papania e Gilbough que o punhal usado contra Cohle seria o mesmo usado contra Dora Lange e no crime em Lake Charles. Sem mais querer saber detalhes, ele lhes pergunta sobre Rust, e a notícia é de que ele ainda estaria em coma após a cirurgia. É então que Maggie e as filhas de Hart entram no quarto. Os dois detetives os deixam, e Hart fica feliz ao revê-las. Maggie lhe pergunta se ele está bem, e ele começa a chorar.

No noticiário, o caso repercute, e é informado que a polícia e o FBI estariam descartando os rumores de que o acusado teria alguma relação familiar com o senador da Louisiana, Edwin Tutle. Cohle, que está em seu leito no hospital, desliga o monitor e olha as estrelas pela janela.

Num outro momento, Cohle está dormindo, e acorda com Hart numa cadeira de rodas ao lado de sua cama. Os dois tem uma pequena discussão, e Cohle então revela que já tinha visto Errol antes, numa das escolas onde eles foram investigar o caso de Dora Lange, em 1995. Ele lhe diz que o sujeito cortava grama, que estava sujo e sentado, motivo pelo qual não reparou no seu rosto e na sua altura. Ele então confidencia sua frustração pelo fato de não ter conseguido capturar todos os homens que aparecem no vídeo da morte de Fontenot.

Dias depois, Hart visita Cohle. Ele o leva para fora do hospital numa cadeira de rodas. Ele lhe dá um presente: um maço de Camel. Cohle então finalmente lhe revela que mergulhou fundo na escuridão, que se tornou parte dela e que ao achar que morreria, sentiu as presenças de sua filha e de seu pai. Os dois fazem conjecturas sobre o bem e o mal, bem como sobre qual deles estaria vencendo. Cohle então lhe pede para levá-lo embora, pois não quer mais ficar no hospital, e o episódio acaba.

Se alguém esperava alguma manifestação sobrenatural ao final de True Detective, talvez possa ter se contentado com a espiritualidade encontrada por Cohle em seus instantes finais. O personagem, que é apresentado ao longo de toda a temporada como descrente de tudo o que seja de origem espiritual, e extremamente pessimista em relação ao ser humano, encontrou a luz, por assim dizer, em sua experiência de quase morte. Sua fé no ser humano talvez tenha sido a simbólica reunião com Hart e o envolvimento do ex-parceiro para ajudá-lo a terminar de desvendar o caso e finalmente enfrentar o monstro ao final do pesadelo, apesar de todas as diferenças que enfrentaram.

Apesar dos defeitos de Cohle e Hart ao longo da série, e de tudo o que fizeram de modo a comprometer seu caráter, os dois encontraram sua redenção no desempenho da função que os torna verdadeiros detetives, ou seja, de irem até o fim para a solução de um caso, mesmo colocando em risco a própria vida para dar um fim ao horror causado às muitas das vitimas inocentes que morreram pelas mãos dos assassinos envolvidos nos rituais do The Yellow King.

Sendo uma antologia, não veremos mais a dinâmica entre Cohle e Hart ao longo das próximas temporadas, já que o retorno de McConaughey e Harrelson está oficialmente descartado. Mas podemos ter a certeza de que vimos o melhor que esses dois grandes atores tiveram a mostrar em True Detective, provavelmente no que pode ser considerado o melhor desempenho da carreira de ambos, isso, claro, sem desmerecer todos os demais que participaram da série.

Considerando que Nic Pizzolatto parece ter ainda muito a oferecer, podemos ainda ter a garantia de novas histórias muito mais densas, em outras e tão fascinantes localidades quanto os pântanos da Louisiana, bem como repletas de personagens e elenco fantásticos para as próximas temporadas. E se a ideia de uma antologia parecia desagradar ao início, hoje podemos ter a convicção de que apenas esses oito episódios valeram muito a pena, e que True Detective solidifica aqui em seu primeiro ato um novo estilo de produção, preparando o público para uma nova era no que diz respeito a séries de televisão.

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