Filmes do mês de fevereiro

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Encontros e Desencontros (2003)*****

Revisitar essa obra-prima de Sofia Coppola é sempre um enorme prazer, ainda mais quando, a cada vez assistido, o filme Lost in Translation deixa uma impressão diferente.

Bob Harris (Bill Murray) é um ator de meia-idade que desembarca no Japão para participar da campanha publicitária de uma marca de bebida. Casado há mais de 25 anos, ele não apenas está a milhas de distância física da esposa, mas também completamente desconectado emocionalmente dela. Tal fato fica fortemente evidente a cada conversa que os dois têm ao telefone. Sem parecer se importar, Lydia (Nancy Steiner), sua esposa, chega ao ponto de não medir palavras quando lhe diz que as crianças sentem falta dele, mas que se acostumam com sua ausência.

Charlotte (Scarlett Johansson), por sua vez, é uma recém-formada estudante de filosofia de Yale que está em Tóquio para acompanhar o marido, o fotógrafo de celebridades John (Giovanni Ribisi). Ela está nitidamente presa a um casamento de 2 anos no qual admite já não reconhecer mais a pessoa com a qual decidiu passar o resto de sua vida, ao passo em que também não sabe o que fazer da sua carreira profissional. Ela então passa a contemplar a cidade, a visitar lugares e tentar descobrir um pouco mais de si naquele mundo tão diferente.

Tomados por uma insônia constante decorrente da inadaptação ao fuso horário, os dois acabam se encontrando várias vezes no bar e no lobby do hotel, e quando a oportunidade aparece, como pássaros não mais aprisionados numa gaiola, eles voam por uma Tóquio multicolorida e inebriante que passam a admirar não mais através das janelas do táxi ou do quarto do hotel.

A combinação entre essas duas almas solitárias e maduras acaba despertando neles um sentido na vida, e o que poderia ser um encontro num momento e lugar propícios e parar por ai, acaba se tornando um golpe do destino quando ambos se descobrem conectados por algo muito mais forte do que uma mera atração física.

O longa-metragem é excelentemente escrito e dirigido, e não deixa nada a desejar nesse ponto, enquanto a cinematografia é igualmente impecável. As externas em Tóquio são belíssimas, e Sofia Coppola consegue transpor para a tela o que de mais contagiante a capital japonesa tem a oferecer, e não se trata aqui apenas do neon e do dinamismo da cidade que nunca dorme, mas da exibição de um passado jamais esquecido, como quando Charlotte visita um templo budista, vê a mulher em seu maravilhoso kimono no parque, ou é convidada a participar de uma aula de ikebana.

Do mesmo modo, Bill Murray e Scarlett Johansson desempenham com magnitude seus papéis. A expressão corporal dos personagens não deixa dúvidas acerca da tensão entre os dois, e a transformação pela qual passam até o momento de se descobrirem numa relação que chega a ser mais íntima daquela que compartilham com seus respectivos cônjuges sem ao menos jamais se entregarem é perfeita, e não teria sido melhor na pele de outro casal de atores.

Lost in Translation é provavelmente um dos melhores filmes da carreira de Sofia Coppola, principalmente pela excelente mensagem de otimismo às almas perdidas num mundo cada vez mais acelerado e distante daquilo que é invisível aos olhos.

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Thor : Mundo Sombrio (2013)****

Alan Taylor dirige Thor: The Dark World, longa-metragem que dá continuação a Thor e The Avengers, e que traz a adaptação da saga do supervilão da Marvel Comics, Malekith, criado por Walt Simonson, que aparece pela primeira vez em Thor #344, de junho de 1984.

A película tem início com uma sequência de batalha à la O Senhor dos Anéis, para mostrar a história de Malekith, o Maldito (Christopher Eccleston), Senhor dos Elfos Sombrios de Svartalfheim. Ele tenta corromper Asgard e Midgard através de um inverno eterno, mas é banido por Odin (Anthony Hopkins) e seu poderoso exército.

Após, o filme dá um salto para os tempos atuais, onde, após a batalha em New York havida no filme The Avengers, Thor (Chris Hemsworth) traz Loki (Tom Hiddleston) de volta para Asgard, onde a complacência de sua mãe adotiva, Frigga (Rene Russo) o faz sair ileso de uma pena capital, para ser apenas aprisionado.

Na Terra, dois anos se passaram, e Jane Foster (Natalie Portman) está agora em Londres tentando levar uma vida relativamente normal. Ela está num encontro, quando é surpreendida por Darcy (Kat Dennings), e as duas seguem para um prédio abandonado onde há registros de atividades físicas que remontam ao seu primeiro encontro com Thor. Lá, no entanto, ela acaba sendo sugada para uma dimensão onde é possuída por um poder sinistro, e sabendo do perigo que ela corre, Thor vai ao seu encontro. Ao descobrir o poder que a domina, ele a leva para Asgard, a contragosto de Odin, que acaba identificando a força que a possui como Aether.

Com a liberação de Aether, Malekith, julgado morto por Odin, desperta de seu sono profundo em sua nave, e decide invadir Asgard a fim de possuir o poder que domina Jane. Lá, no entanto, uma grande batalha é travada, e Frigga acaba sendo morta, o que faz com que Thor confronte as ordens de Odin para um embate pessoal com Malekith, valendo-se, no entanto, da ajuda de Loki.

Obviamente que cenas de destruição em massa não são mais uma opção nos filmes inspirados nos quadrinhos da Marvel, e o cenário agora é Londres, que tem diversos portais ativados por onde naves dos elfos sombrios e montros horrendos do mundo de Asgard saem diretamente para as ruas londrinas.

Mais uma vez, Hemsworth empresta simpatia e magnetismo ao deus do trovão, e assim como Anthony Hopkins e Rene Russo, que aparecem mais em cena nesse segundo filme do personagem Thor, Stellan Skarsgård, como o cientista Erik Selvig, bem como Natalie Portman, todos eles brilham em cena, embora seja Tom Hiddleston aquele que angaria maior carisma junto à audiência, responsável por seu maior tempo em cena.

Como não poderia deixar de ser, o final e as cenas pós-créditos dão a deixa necessária para mais uma continuação, senão com mais um filme do Thor, ao menos com mais uma saga em The Avengers, e fica ai a expectativa para a saga de Thanos e das Guerras Infinitas.

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Lone Survivor (2013)***

Dirigido por Peter Berg, e adaptado da autobiografia de Marcus Luttrell, Lone Survivor é inspirado numa história real, o que talvez essa seja a parte mais terrível do filme, e embora o título e os minutos iniciais já deem a dica à audiência acerca do final do filme, é mais do que válido conferir a história de coragem de quatro soldados das forças especiais no Afeganistão durante uma missão que, a princípio, deveria ser simples, mas que acaba transformando o destino de todos.

A película é basicamente um filme de guerra, em que um time de soldados estadunidenses combate as forças do Taliban em solo afegão no ano de 2005. Os quarenta minutos iniciais do filme são basicamente uma amostra do treinamento e da interação entre os integrantes das forças especiais do exército americano. Há várias nuances de suas vidas pessoais, conferindo mais humanidade, realismo e empatia da audiência por todos eles.

Surge então uma missão, na qual eles devem capturar um perigoso líder talibã, denominado de Shah (Yousuf Azami). O comandante Erik Kristensen (Eric Bana) envia então o time de soldados formado por Marcus Luttrell (Mark Wahlberg), Danny Dietz (Emile Hirsch), Matt Axelson (Ben Foster) e o tenente Michael Murphy (Taylor Kitsch), mas as coisas não saem exatamente conforme o planejado quando eles acabam encontrando um grupo de locais que podem comprometer a operação. Como se não bastasse, eles não conseguem contatar o comando-geral, e precisam tomar a importante decisão sobre o que fazer com esses locais que acabam aprisionando.

Cercados por soldados talibãs, eles agora precisam lutar para se manterem vivos, e o realismo gráfico de cada tiro acertado contra eles é não apenas impressionante como horrível, credibilidade ainda conferida pela excelente cinematografia. Portanto, impossível não se deixar comover pela luta travada entre esses bravos combatentes, que, a despeito de assumirem aqui as consequências de uma decisão movida à base da emoção ao invés da razão, tem suas vidas colocadas à prova.

O longa-metragem não faz crítica contra a guerra, por mais terrível que ela seja, tampouco faz propaganda favorável ou de enaltecimento dos soldados americanos, embora seja essa a primeira impressão, mas apenas e tão somente conta a história de quatro pessoas com sonhos comuns, e que desejam apenas sustentar suas famílias.

Os instantes finais são dignos de louvor, quando os moradores de uma pequena vila também entram em confronto com os soldados talibãs, e o final é arrebatador, principalmente quando começam a ser mostradas imagens dos verdadeiros soldados mortos no conflito.

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Smashed (2012)***

O casal Kate (Mary Elizabeth Winstead) e Charlie Hannah (Aaron Paul) tem a relação construída à base de festas, bares e bebedeiras, aliás, muitas bebedeiras. E quando Kate decide que é hora de parar e ficar sóbria, a vida a dois fica comprometida, e a relação é colocada à prova.

Talvez o que torne Smashed diferente de outras produções do gênero como Quando um Homem Ama uma Mulher ou 28 Dias seja o fato de que a personagem principal decide ficar sóbria por ela mesma, e valendo-se única e exclusivamente de sua força de vontade, sem qualquer internamento, o que, ressalta-se,  é admirável, ainda mais quando encontra em casa toda as tentações possíveis e capazes de desviá-la do seu objetivo quando o marido decide não acompanhá-la nesse processo de sobriedade.

Os primeiros minutos do filme são de puro absurdo, quando vemos Kate e Charlie mergulharem fundo na bebida. Baladas todos os dias, eles não limites. Certa noite, totalmente desprovida de discernimento, porquanto entorpecida pela bebida, Kate chega ao cúmulo de dar carona a uma prostituta e a usar drogas. Num outro momento, ela rouba uma garrafa de vinho numa loja de conveniências, e após vomitar diante dos alunos do ensino elementar dos quais é professora, assume a mentira induzida de que está grávida.

Descoberta pelo colega de trabalho, Dave (Nick Offerman), este lhe indica o grupo de alcoólicos anônimos do qual faz parte, e quando participar de uma reunião do AA era sempre motivo de piada entre o casal, Kate, sabendo que sua dependência alcoólica está lhe comprometendo sua vida profissional, eis que decide participar, ainda que hesitante. Lá, ela encontra a simpática Jenny (Octavia Spencer), que se torna sua madrinha, mas o apoio de quem mais precisa, ela não consegue. Charlie continua a se embriagar na frente dela, e mesmo sua mãe (Mary Kay Place) a desencoraja quando diz que a separação entre os dois será certa e serve Bloody Mary para ambos.

Mas a persistência de Kate a faz chegar longe, e mesmo num momento clímax, após um grande confronto com Charlie, ela toma uma grande decisão na qual sua sobriedade vem em primeiro lugar.

Embora o desfecho não seja exatamente feliz para o casal, o filme consegue transmitir a mensagem pretendida, e Kate supera a grande batalha travada contra si mesma. O filme é muito bem produzido, e Mary Elizabeth Winsted desempenha soberbamente. Recomendo!

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Frailty (2001)***

Dirigido e estrelado por Bill Paxton, Frailty, traduzido para o Brasil como A Mão do Diabo, conta a história de um homem que vai até o FBI para acusar seu irmão pela autoria de uma série de crimes, bem como relatar toda a história de assassinatos cometidos por seu pai.

O longa-metragem começa com o personagem Fenton Meiks (Matthew McConaughey) chegando ao escritório de investigação do agente federal Wesley Doley (Powers Boothe), responsável por investigar a autoria de uma série de assassinatos que ocorrem há vários anos por um psicótico que se autodenomina Mão de Deus. Sem rodeios, Fenton revela que o autor de tais crimes é seu próprio irmão, Adam (Levi Kreis), que teria se suicidado há alguns dias.

Hesitante quanto à infundada acusação, Doley decide ouvir todo o relato de Fenton, e o filme se passa como um flashback na casa em que o personagem cresceu. Mais velho de dois irmãos órfãos de mãe, Fenton (Matt O’Leary) ajuda a criar o irmão Adam (Jeremy Sumpter), enquanto o pai (Bill Paxton), mecânico, trabalha arduamente. Os três tem uma ótima relação, e tudo vai bem apesar da perda precoce da mãe dos meninos, até o dia em que o pai os acorda no meio da noite para revelar que teve uma visão e que foi escolhido por Deus para destruir os demônios na Terra.

Apreensivo, e ao contrário de Adam, que acredita em tudo, Fenton desconfia da saúde mental do pai, principalmente quando este começa a trazer machados, luvas e canos que diz terem sido apontados por uma luz divina como as armas invisíveis para combater o mal.

As coisas ficam realmente sérias quando o pai aparece com uma lista de nomes que mostra aos garotos como sendo a relação de demônios que precisa destruir. Ele então mergulha os filhos numa viagem macabra na qual ele passa não apenas a matar pessoas sob a justificativa de se tratarem de criaturas do mal, como também a obrigar os garotos a participar da suposta missão divina, enterrando os corpos esquartejados num bosque.

Os dois irmãos, que eram muito unidos, começam então a se distanciar um do outro ao passo em que Adam defende os ideais do pai, e Fenton não consegue aceitá-los, acusando-o de assassino e afirmando não querer fazer parte da tal tarefa divina. Num dado momento, porém, Fenton precisa tomar uma decisão para se salvar e ao irmão.

Frailty pode até não ser um dos melhores thrillers de mistério de todos os tempos, uma vez que chega a até mesmo ser um tanto quanto previsível a certa altura, aliado ainda ao seu estilo, que remonta (e muito) uma produção qualquer daquelas made for TV. Contudo, a película é deveras perturbante e agrada com uma reviravolta à la The Usual Suspects e com seu twist estendido, além, obviamente, de conter como bônus especial as ótimas performances de McConaughey e de Paxton. Recomendo!

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