Review do episódio #1.01 de True Detective

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Com a mórbida canção Far From Any Road, interpretada por The Handsome Family, como tema de abertura, e tendo com lema a assertiva de que o Homem é o animal mais cruel, True Detective surge como a promessa da HBO de uma produção de sucesso equivalente à aclamada e extinta The Wire, e com desenvolvimento e roteirização até mesmo superior à igualmente encerrada, porém jamais esquecida, Breaking Bad.

Produzida e desenvolvida para a televisão por Nic Pizzolatto, responsável por dois dos melhores episódios da primeira temporada de outro grande thriller de mistério serial da AMCThe Killing, a premissa de True Detective é fazer o que um dia Twin PeaksFamília SopranoThe Wire e tantas outras séries de televisão um dia fizeram: provocar o telespectador de forma inteligente e instigante a ponto de não fazê-lo mais desgrudar da tela até o último suspiro de série. E True Detective não apenas conseguiu alcançar tal propósito, como também se tornou um dos maiores fenômenos das redes sociais. Os méritos do sucesso imediato da produção de Pizzolatto não se devem apenas à Barack Obama, que recentemente encomendou toda a temporada, mas da própria desenvoltura da série.

Estrelada por dois grandes astros da atualidade, Matthew McConaughey e Woody Harrelson, que também produzem, True Detective é uma antologia, o que significa dizer que cada temporada – em princípio, de 8 episódios – será fechada, ou seja, com uma trama completa, enquanto os personagens e o elenco também mudam a cada ano. Cary Fukunaga dirige esse primeiro ato, que se passa em dois períodos distintos num período de 17 anos, e que conta a história dos dois detetives da Divisão de Homicídios do Departamento de Polícia Distrital da Louisiana que investigam o ritualístico assassinato da prostituta Dora Kelly Lange (Amanda Rose Batz) e o envolvimento de um provável serial killer que se autodenomina The Yellow King, inspirado na obra de horror e sobrenatural de Robert W. Chambers.

A série mostra os detetives Rust Cohle (McConaughey) e Martin Hart (Harrelson) em duas fases. A primeira delas, em 1995, mostra as primeiras semanas de trabalho em parceria, e o envolvimento de ambos no caso de assassinato de Dora Lange. A cena inicial, que mostra os detetives no local em que o corpo é descoberto é uma das mais arrebatadoras. Nua e amarrada à um tronco de árvore, a vítima possui galhos de cervo sobre a cabeça como se fosse uma coroa, e um símbolo supostamente satanista tatuado nas costas. Galhos artesanalmente entrelaçados e que se assemelham a uma armadilha para pássaros compõem o cenário. A segunda fase, em 2012, tem a dupla agora sendo separadamente entrevistada por outros dois detetives, Maynard Gilbough (Michael Potts) e Thomas Papania (Tory Kittles), que reabrem o caso diante de um novo e semelhante assassinato.

Aliado à trama de mistério envolvendo a investigação, Cohle e Hart também tem suas trajetórias pessoais exploradas ao longo da série. E enquanto Hart se mostra um homem de família, a despeito de suas aventuras extraconjugais e de sua constante desatenção aos problemas familiares e profissionais, Cohle carrega um passado penoso, no qual perdeu a filha pequena num acidente, o que acarretou sua separação. Embora as duas personalidades sejam completamente distintas, na medida em que Cohle não passa de um sujeito deprimido, pessimista e niilista, enquanto Hart vive a vida intensamente até chegar o ponto de comprometer seu casamento, ambos se complementam e se respeitam mutuamente, o que – quando não submetidos a substâncias ou envolvidos em casos amorosos – torna a investigação extremamente produtiva, a despeito ainda dos percalços enfrentados.

O episódio de estreia, intitulado The Long Bright Dark, mostra os ex-detetives Rust Cohle e Martin Hart sendo entrevistados por Maynard Gilbough e Thomas Papania sobre o caso Dora Lange. Ambos narram a história de como foram as primeiras semanas de trabalho em parceria e as impressões de um sobre o outro. Cohle, cujo apelido é taxador por conta do caderno que carrega durante toda a investigação para fazer anotações, é descrito como um sujeito reservado e introvertido. Avesso a relacionamentos sociais, sua vida aparentemente monótona dá espaço para um desempenho profissional inabalável, ao passo em que Hart dispõe apenas e tão somente de sua senioridade no departamento, o respeito dos colegas, mas sobretudo o apoio ao parceiro nas suas suposições, ainda que se oponha às suas crenças pessoais, ou falta delas.

Em 1995, eles chegam ao local do assassinato de Dora Lange. Cohle faz anotações e reproduz em seu caderno a disposição do corpo e todos os detalhes da cena do crime. Ele então compartilha com Hart sua convicção de que não se trata da primeira vítima do assassino, mas seu parceiro se mostra cético. A investigação os leva à descoberta do caso de Marie Fontenot (Wanetah Walmsley), desaparecida há 5 anos, e cujo paradeiro jamais foi descoberto ou investigado. Um outro caso é trazido à tona, que envolve uma criança que teria supostamente sido perseguida na floresta por um “monstro verde orelhudo de spaghetti”.

Enquanto Cohle tem constantes alucinações seguido de um histórico de uso de substâncias e problemas com álcool, Hart tenta socializá-lo e o convida para um jantar em sua casa. Mas é aniversário de sua filha morta, e o detetive, inicialmente relutante ao convite, aparece embriagado à porta da casa do parceiro. Mesmo assim, Hart o recebe, e Cohle interage com as filhas de Hart, Andrey (Madison Wolfe) e Masie (Meghan Wolfe), e conhece sua esposa, Maggie (Michelle Monaghan), sempre desconfiada do comportamento e do distanciamento do marido, mas que parece encontrar no novo parceiro um bom amigo.

Ainda, o chefe de polícia Ken Quesada (Kevin Dunn) apresenta a dupla ao Reverendo Billy Lee Tuttle (Jay O. Sanders) como o esquadrão anti-crimes cristãos, o que os deixa extremamente desconfortáveis, e dando sequência às investigações, Hart e Cohle decidem investir no caso de Marie Fontenot e visitam seu tio doente para tentar obter mais algumas informações, e Cohle encontra mais uma treliça de galhos num balcão aos fundos da propriedade.

Em 2012, descobrimos, durante as entrevistas, que Hart e Cohle não se falam desde 2002, após um desentendimento, e Papania e Gilbough, não apenas mostram a Cohle o retrato de uma garota morta em circunstâncias idênticas à Dora Lange, como também revelam pretender descobrir como o assassino pode continuar à solta se foi capturado em 1995.

Com uma première que dispensa comentários, True Detective mostra a que veio: torna-se o mais novo divisor de águas na televisão. Com uma trama repleta de mistérios e inteligentemente elaborada, aliado ainda às estupendas performances de McConaughey e Harrelson, mas principalmente do intérprete de Cohle, que tem se mostrado recentemente numa ótima fase, e tem aqui, na produção de Pizzolatto talvez o seu mais soberbo trabalho de atuação, True Detective conquista a audiência também por sua excelente cinematografia e estilo, que remonta ao humor negro de Twin Peaks ou Família Soprano, mas com uma riqueza de detalhes jamais vista na televisão. Produção equivalente, e talvez até mesmo superior, a uma obra cinematográfica, a série conquista espaço e atenção como há muito não se via. Como se dará o desfecho de sua primeira temporada é um mistério a sete chaves, mas teorias e especulações que rondam a Internet não faltam.

True Detective está no seu episódio seis, restando apenas dois para acabar. Portanto, ainda há tempo para correr e assistir.

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