House of Cards : review primeira temporada

«Mal, para o bem maior» é o lema de House of Cards, versão estadunidense do Netflix para o aclamado drama homônimo produzido pela BBC em 1990.

Diferentemente da minissérie britânica com roteiro de Andrew Davies, e estrelada pelo saudoso Ian Richardson, a produção de David Fincher, Eric Roth, John P. Melfi e Kevin Spacey, adapta as maquinações de um ambicioso político e sua conivente esposa que desejam vingança contra todos aqueles que os traíram para o universo dos bastidores da política dos Estados Unidos, e que fazem valer os primeiros dizeres do personagem principal no piloto, de que «existem dois tipos de dor».

Originalmente inspirado no romance House of Cards de Michael Dobbs, primeiro de uma trilogia do autor que segue com To Play the King e The Final Cut, a trajetória da versão estadunidense é basicamente a mesma da britânica, exceto por algumas pequenas e suntuosas diferenças.

Na versão de Jeremy Gwilt e Ken Riddington, o Chefe de Bancada do Parlamento Francis Urquhart (Richardson) tem negada uma posição no gabinete após uma promessa quebrada pelo então eleito Primeiro Ministro Henry Collingridge (David Lyon). Com a ajuda da jornalista Mattie Storin (Susannah Harker), Urquhart dá início a um estratégico e ousado plano de vingança. Já, na produção estadunidense, o Chefe da Casa Civil dos Estados Unidos, o congressista Francis Underwood (Spacey), ressentido após o novo Presidente eleito, Garrett Walker (Michael Gill), descumprir a promessa de nomeá-lo Secretário de Estado, decide ir à desforra. Para que seus planos deem certo, ele conta a ajuda não apenas de seu habilidoso assistente Doug Stamper (Michael Kelly) e de uma jovem e talentosa jornalista, Zoe Barnes (Kate Mara), mas, principalmente, de sua astuciosa e charmosa esposa, Claire Underwood (Robin Wright).

Enquanto a versão original se passa no universo fictício cronológico em que Collingridge sucede a Primeira Ministra Margaret Thatcher, a nova adaptação se dá na alternativa linha temporal de 2013, na qual Walker é o Presidente eleito ao invés de Barack Obama.

Muito mais longa do que a primeira parte da minissérie britânica de apenas quatro episódios (que teve duas continuações, com To Play the King e The Final Cut), a primeira temporada de treze episódios da versão estadunidense também se vale de um número considerável de histórias paralelas, aliado, ainda, à utilização de ferramentas do século XX, como blogs, mensagens instantâneas e outras tecnologias que tornam a vida dos personagens mais fácil.

Ainda, sobre o personagem principal, enquanto o Underwood de Kevin Spacey é democrata sulista e não tem muito contato nos primeiros episódios com o Presidente eleito, o Urquhart de Ian Richardson tem um passado privilegiado, fala constantemente com Collingridge, e é pertencente ao Partido Conservador, equivalente nos Estados Unidos ao Partido Republicano. Ambos se distanciam, ainda, pela falsa modéstia de Urquhart, ao passo em que Underwood é mais óbvio e implacável desde o início, com linguajar mais bruto e uma eloquência admirável e reminiscente à de Lyndon Johnson. Os apartes irônicos de ambos para com o telespectador felizmente permanecem na nova versão, e são ainda mais deleitáveis quando reproduzidos por Spacey. Num dado momento na série, por exemplo, durante a cerimônia de posse de Walker, Underwood não apenas fala com o telespectador, como até mesmo faz um aceno da audiência.

Sobre as diferenças entre Elizabeth (Diane Fletcher) e Claire (Wright), na versão britânica a esposa de Urquhart tem importância suplementar à trama, porém vem muito mais forte nas minisséries que dão sequência a House of Cards: To Play The King e The Final Cut. Já a personagem de Robin Wright tem grande relevância na versão estadunidense, e desempenha de forma soberba e com muita coesão não apenas o papel de suporte ao personagem de Spacey, como se coloca na posição de sua parceira única e absoluta. A cumplicidade de ambos é desmedida, e a despeito do desfecho causado por Claire com a não aprovação do projeto de lei de autoria de Francis para a Secretaria da Educação a fim de que ela pudesse obter a ajuda financeira do enigmático Remy Danton (Mahershala Ali) em sua organização, o casal segue firme e inabalável em seus propósitos.

Por outro lado, a versão estadunidense não abranda a relação entre Underwood e a jornalista Barnes. Enquanto a tecnologia na nova adaptação aprimora a comunicação entre os dois e facilita a execução do plano do ambicioso congressista, o uso das mensagens instantâneas, aliado ao comportamento promíscuo da jornalista, favorece um clima para investidas sexuais, e o House of Cards de David Fincher acaba ganhando contornos ainda mais shakespearianos que seu predecessor, principalmente quando inclui um quarto elemento, o fotógrafo Adam Galloway (Ben Daniels), com quem Claire frequentemente flerta.

E se não bastassem as improvisações de Francis Underwood nos bastidores do Congresso, ele ainda tem como ferramenta para auxílio na conquista de seus objetivos o jovem e despreparado congressista Peter Russo (Corey Stoll), que, vítima de seus próprios erros, acaba sendo chantageado e forçado a fazer o que não quer. Embora Russo seja o foco de um dos melhores momentos da série quando decide se candidatar a Governador pela Philadelphia – por sugestão de Francis – e supera seus medos e vícios, sua subsequente decadência só nos faz lembrar que tudo não passa de estratégias da parte de Underwood, que fará de tudo para conseguir o que quer. Embora na série não tenha sido mencionado o verdadeiro objeto do casal Underwood, é nítida a impressão de que Francis almeja a Presidência dos Estados Unidos, já que na versão britânica, Urquhart acaba se tornando Primeiro Ministro. Se ele vai conseguir ou não, e se Zoe Barnes será um obstáculo, aliado a vários outros que possam surgir, só iremos saber na próxima temporada, a qual não dá pistas de que seguirá à risca a série de livros de Dodds.

Espirituoso, cerebral e sombrio, House of Cards é uma das melhores séries do momento, tão boa quanto Breaking Bad, Sopranos, Wiseguy, The Wire ou Mad Men e tantas outras repletas de personagens ambíguos ou inescrupulosos, com o reforço dos excepcionais Kevin Spacey e Robin Wright, e que não exige do telespectador um conhecimento aprofundado do sistema político estadunidense, mas apenas o desejo por acompanhar de perto uma trama tão inteligente e envolvente.

A primeira temporada de House of Cards está disponível online no Netflix, e pode ser conferida aqui.

A segunda temporada será disponibilizada na íntegra a partir do dia 14 de Fevereiro, enquanto a terceira temporada, já confirmada, começará a ser filmada em breve.

Confira abaixo os trailers da primeira e da segunda temporada:

houseofcards

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