Filmes do mês de janeiro

chronicle

Crônica (2012)***

Com história e roteiro de Max Landis, filho do lendário cineasta John Landis, responsável por grandes sucessos, como Clube dos Cafajestes, Os Irmãos Cara-de-Pau, Um Lobisomen Americano em Londres e diversos videoclipes, dentre os quais o sucesso cult Thriller, fica mais do que comprovado em Crônica, que o fruto nunca cai longe da árvore.

No longa-metragem, dirigido por Josh Trank, somos introduzidos ao universo de dois inseparáveis amigos: Andrew Detmer (Dane DeHaan) e Matt Garetty (Alex Russell). Enquanto Andrew é tímido, introvertido e vítima de constantes abusos em casa e na escola, Matt o arrasta para uma vida menos atribulada e de festas. E é justamente durante uma festa que, juntamente com o rico e popular Steve Montgomery (Michael B. Jordan), candidato à chapa do corpo estudantil, que os três decidem explorar uma entrada subterrânea surgida do nada. Lá, eles entram em contato com estranhos e multicoloridos cristais.

O filme então dá um salto para o que parecem ser alguns dias depois, e vemos que os três adolescentes estão agora com vários poderes que gradativamente vão se manifestando e ganhando amplitude.

Essa descoberta os aproxima e, sempre registrando tudo através da filmadora de Andrew, eles começam a fazer brincadeiras com desconhecidos na rua e no shopping. Mas as coisas ficam complicadas quando eles também causam acidentes que podem comprometer a vida de outras pessoas. É então que Matt decide que eles devem criar regras.

Contudo, durante uma festa, após um festival de talentos no qual Steve tenta ajudar Andrew a superar sua timidez, as coisas efetivamente perdem o controle. Constrangido por afugentar uma garota, Andrew se enfurece e toma para si um ódio mortal contra tudo e contra todos. Steve e Matt, que sentem que o amigo está com problemas, tentam encontrá-lo. Mas é Steve que o encontra primeiro, e o desfecho para o personagem é trágico.

Andrew então se afasta de Matt, e continua a seguir um caminho sem volta quando decide usar seus poderes para conseguir os medicamentos necessários para salvar sua mãe. Vítima de um acidente, ele é confrontado pelo violento pai (Michael Kelly), que agora também o responsabiliza pela morte da mãe, e os instantes finais do longa-metragem são de arrepiar quando os dois ex-melhores amigos transformam o centro de Seattle em palco para uma luta épica.

No mesmo estilo de cinematografia de A Bruxa de Blair e Cloverfield, temos ai um raro momento de realismo extraído do universo dos super-heróis e que jamais poderíamos ver numa película do Homem de Ferro, do Superman ou qualquer outro que seja. São três pessoas completamente diferentes e comuns, e que comprovam de forma literal a premissa de que é dando poder a alguém que descobrimos seu caráter.

Apesar dos problemas de Andrew, o que provavelmente o torna o vilão mais simpático de todos os tempos, ele foi o único a verdadeiramente se beneficiar com os poderes que adquiriu. Tomado por um orgulho excessivo, perdê-los ou se submeter às regras impostas por Matt para que não machuquem ninguém se tornou algo impensável para ele, que num dado momento faz uma analogia a animais predadores. O resultado não poderia ser diferente. Um filme digno de respeito, e altamente recomendável aos fãs do gênero.

photo-Masquerade-Gwanghae-Wangyidoen-namja-2012-2

Masquerade (2012)***

Inspirados nos quinze dias de governo do rei Gwanhaegun, nos quais, apesar de sua má reputação e crueldade, decidiu revisar a distribuição de terras entre a população, reduziu os impostos e criou leis para melhor aproximação com os povos da dinastia Ming, os sul-coreanos Jo-yun Hwang e Chang-min Choo respondem pelo fantasioso e despretensioso roteiro de Masquerade, filme esse que sugere a troca do rei por um sósia durante esse período de tempo.

No longa-metragem, o rei Gwanhaegun (Byung-hun Lee), décimo quinto e último da dinastia Joseon, teme por sua vida quando descobre uma conspiração para assassiná-lo. Através de seu secretário Heo Gyun (Ryu Seung-Ryong), ele consegue encontrar um sósia e o deixa se passar por ele durante uma a cada três noites, também na intenção de se ausentar para se deitar com suas amantes.

Na manhã seguinte da primeira noite da troca, no entanto, o rei acorda vítima do que parece ser uma tentativa de envenenamento. Mais do que depressa, e sem que ninguém mais saiba, exceto o assistente eunuco do rei (Gwang Jang), Heo Gyun convoca Ha-seon, o sósia do rei, para assumir seu lugar até sua total recuperação sob os cuidados médicos numa cabana longe do palácio.

Ha-seon, que não recebe qualquer treinamento para as mais básicas funções reais, acaba se submetendo às mais absurdas situações, desde o ritual para usar o banheiro até o momento de fazer suas refeições. Mas é quando ele decide aprender melhor sobre política para tentar entender seu papel nas reuniões com os ministros, que ele acaba contrariando Heo-Gyun tomando decisões e proclamando leis de acordo com seu próprio discernimento, surpreendendo os ministros e a própria rainha, Lady Ryu (Hyo-ju Han), por quem acaba se apaixonando.

Na medida em que Ha-seon vai descobrindo mais sobre as funções reais, e a que ponto pode chegar a lealdade de seus súditos, ele então tem a certeza de que é incapaz de seguir adiante, mas toma para si aquela experiência como algo único e transformados não apenas de sua própria vida como as das pessoas com as quais convive no palácio real.

O filme é mais uma agradável surpresa do cinema sul-coreano. Com um certo alívio cômico na adaptação ao estilo de vida real por Ha-seon, o telespectador ainda é apresentado a um pouco da história do reinado de Gwanhaegun, além de conferir um verdadeiro deleite visual no que diz respeito à cinematografia e ao figurino, que é impecável. Sem dúvida, um filme que não pode e não merece passar despercebido. Recomendo!

this_is_england_04_1270x833_300dpi

This is England (2006)***

Baseado nas experiências pessoais de Shane Meadows, responsável pelo roteiro e direção, e ambientada nos idos do ano de 1983, This is England conta a história de Shaun (Thomas Turgoose), um garoto de doze anos que recentemente perdeu o pai na Guerra de Falklands e que sofre abusos e perseguições na escola até começar a se envolver com um grupo de skinheads que o adota como se fosse membro da família.

Após uma briga no colégio, a caminho de casa, Shaun é abordado pelo grupo de adolescentes formado por Milky (Andrew Shim), Gadget (Andrew Ellis), Meggy (Perry Benson), Lenny (Frank Harper) e Pukey (Jack O’Connell). Após uma confusão entre Shaun e Gadget, ele volta para casa e mergulha na sua rotina solitária. No dia seguinte, procurado por Gadget, ele é então convidado para uma saída com o grupo e, hesitante, acaba aceitando. Liderados por Woody (Joseph Gilgun), que instantaneamente se afeiçoa a Shaun ao perceber que se trata de uma vítima de constantes bullyings, os garotos do pequeno grupo de skinheads rapidamente o tomam como membro, sem qualquer objeção da mãe do menino, Cynthia (Jo Hartley), que parece se reconfortar com a ideia do filho ter alguns amigos e não sofrer mais perseguições na escola.

A vida do pequeno Shaun se transforma para melhor, pois agora não apenas tem amigos e uma possível namorada, como também não lamenta mais os maus tratos que sofre na escola. Só que as coisas tomam novo rumo quando o ex-presidiário Combo (Stephen Graham) retorna para liderar o grupo junto com seu novo amigo, Banjo (George Newton). A contragosto de Woody, Combo começa a incitar os garotos ao ódio generalizado contra o governo, e principalmente contra os negros e a Guerra de Falklands, o que os divide. Gadget e Pukey, assim como Shaun, decidem então ficar no grupo de Combo, e Woody parte com os demais.

Agora sob a liderança de Combo e fascinado por sua eloquência magnética, Shaun toma para si os ensinamentos aprendidos com o novo líder, e na figura de uma espécie de mascote, parte para uma guerra pessoal contra os imigrantes, praticando atos de violência e participando de reuniões nacionalistas.

As coisas fogem do controle quando, após ser dispensado por um antigo amor, e atual namorada de Woody, Combo acaba se excedendo e uma tragédia quase acaba com a vida de um dos garotos do grupo rival, o que faz com que Shaun finalmente descubra o verdadeiro significado das coisas e como é a vida.

Violento e impressionante, This is England é eficiente não apenas por mostrar a realidade de uma época na Inglaterra, mas também os perigos de se acreditar cegamente numa ideologia que prega o ódio. O mais chocante e revoltante no longa-metragem é o fato de uma criança ser o protagonista dessa triste história, o que provavelmente torna tudo tão apropriado. Recomendo!

the-station-agent

Vidas Cruzadas (2003)****

The Station Agent é um filme escrito e dirigido por Thomas McCarthy e estrelado por Peter Dinklage, Patricia Clarkson, Bobby Cannavale e Michelle Williams, que trata de relacionamentos e amizade.

Fin McBride (Dinklage), um aficionado por trens, é restaurador de brinquedos na loja do seu único amigo, Henry Stiles (Paul Benjamin). Por conta da sua condição de anão, ele causa as mais terríveis impressões e sofre preconceito por onde quer que vá. Como consequência, ele é extremamente solitário e desconfiado.

Quando Henry morre, ele herda um depósito de trem abandonado em Newfoundland, New Jersey, e com a venda da loja e liquidação de todo o seu acervo, Fin decide se mudar para o tal depósito e lá viver como um eremita. Mas seus planos vão por água abaixo quando ele encontra Joe Oramas (Bobby Cannavale), que cuida provisoriamente do caminhão de lanches de seu pai adoentado e que fica estacionado em frente ao depósito, assim como a recém-divorciada Olivia Harris (Patricia Clarkson), que imediatamente se interessam por ele, e fazem de tudo para se tornarem seus amigos.

Fin acaba vendo com desconfiança o súbito interesse dos dois e procura evitá-los a qualquer custo, mas aos poucos o insistente Joe consegue conquistá-lo e igualmente aproximá-lo de Olivia, a qual também sofre com a recente perda de seu único filho num trágico acidente, o que a torna extremamente vulnerável. Aos poucos, Fin vai descobrindo através dos novos amigos que existem pessoas diferentes no mundo e que podem ser incapazes de fazê-lo mal, e ele então retribui o carinho desses dois completos estranhos quando ambos também passam por dificuldades, fortalecendo o que acaba se tornando uma grande amizade.

Fazem igualmente parte de seu novo ciclo de relações, a pequena Cleo (Raven Goodwin), também apaixonada por trens e que lhe pede para enfrentar o maior pavor de sua vida que é estar diante de uma plateia ao ir à sua escola para uma apresentação sobre o objeto de fascínio de ambos, bem como Emily (Michelle Williams), uma bibliotecária que acaba se interessando amorosamente por ele.

Embora não seja uma grande produção, Vidas Cruzadas é um filme extremamente aprazível, não apenas pela leveza da história, mas também por Dinklage, que atua com extrema maestria, o que só corrobora seu atual reconhecimento como o grande ator que é em Game of Thrones.

É uma excelente pedida para os fãs de comédias dramáticas e de filmes que abordam temas relativos a diferenças sociais e relacionamentos humanos. Recomendo!

twin-peaks-1992-07-g

Twin Peaks: Fire walk with me (1992)***

Revisitar de tempos em tempos o universo de Twin Peaks é sempre uma experiência interessante, e no mínimo divertida. Mas é importante ter uma mente aberta ao visionarismo de David Lynch, que não mede esforços para desconcertar a audiência.

Twin Peaks: Fire walk with me é a prequela da série de televisão com 30 episódios transmitidos pela ABC entre 1990 e 1991, que se tornou o maior sucesso na época em virtude não apenas do grande mistério em torno de um terrível assassinato, como também pelo gênero inovador que influenciou tantas outras produções televisivas ao longo das últimas décadas e até mesmo cinema.

A despeito de se tratar de uma história que se passa antes dos eventos havidos na série de TV, é de se ressaltar que o longa-metragem revela em seus instantes finais a autoria do assassinato de Laura Palmer (Sheryl Lee), motivo pelo qual, recomenda-se seja assistido inicialmente os 30 episódios da série antes do filme.

A primeira parte da película se passa em Deer Meadow, cidade próxima a Twin Peaks, e mostra a investigação do assassinato de Teresa Banks (Pamela Gidley). Os agentes encarregados pelo caso são Chester Desmond (Chris Isaak) e seu parceiro, Sam Stanley (Kiefer Sutherland). Mais uma vez, o suspense e o sobrenatural dão o ar da graça, assim como o humor negro e o horror surreal que tanto marcaram a série de televisão.

O protagonista da série, e também agente do FBI, Dale Cooper (Kyle MacLachlan), aparece rapidamente com mais uma de suas confusas sequências de sonho envolvendo o Man From Another Place (Michael J. Anderson) e numa cena extremamente bizarra com Phillip Jeffries (David Bowie), além do próprio Lynch, que volta a interpretar o agente surdo, Gordon Cole. Com o desaparecimento do agente Desmond, Cooper deixa claro que deseja fazer parte do próximo caso de assassinato na região, o que dá o gancho para o que se seguirá com a série.

A segunda parte da película mostra a última semana de vida de Laura Palmer. Diferentemente da série de TV, em que o telespectador jamais teve contato com a personagem em vida, vemos aqui finalmente a transposição de tudo o que foi descrito ao longo da série por todos que a conheceram e de acordo com os relatos em seus diários. Sua vida desregrada é bastante explorada, mas sobretudo a carga sobrenatural em torno da personagem até sua decadência total.

Embora boa parte dos personagens da série não estejam no longa-metragem, como o xerife Harry (Michael Ontkean), Ben Horne (Richard Beymer), Audrey Horne (Sherilyn Fenn), entre outros tantos, os membros do ciclo mais próximo de Laura estão presentes, como Bobby Briggs (Dana Ashbrook), James Hurley (James Marshall), seus pais Sarah (Grace Zabriskie) e Leland Palmer (Ray Wise), bem como sua melhor amiga Donna Hayward, que ao invés de voltar na pele de Lara Flynn Boyle, é interpretada por Moira Kelly. Outras figuras menos importantes, mas decisivas, como Shelly (Mädchen Amick), Leo (Eric DaRe) e a Mulher do Toco (Catherine E. Coulson) também estão lá.

Ainda que a narrativa gire em torno da degradação da personagem e seu encontro final com Bob (Frank Silva), mais uma vez somos introduzidos ao universo surreal e macabro de Twin Peaks, com todas as ótimas referências da série, e novamente ficamos confusos com algumas delas. Sem sombra de dúvidas, uma ótima pedida para quem já assistiu a série, muito embora a grande realização do seu público seja justamente uma continuação a partir da series finale. Recomendo!

936full-malèna-screenshot

Malèna (2000)****

Giuseppe Tornatore dirige e escreve o belíssimo Malèna, um romance de guerra inspirado na história original de Luciano Vincenzoni, e que conta a trajetória do garoto Renato Amoroso (Giuseppe Sulfaro) a partir do momento em que ganha sua primeira bicicleta e conhece sua primeira grande paixão: Malèna Scordia (Monica Bellucci).

Filha do professor Bonsignore (Pietro Notarianni), e esposa de Nino Scordia (Gaetano Aronica), com quem se muda para a pequena cidade ao sul da Sicília em 1940, Malèna rapidamente se vê só quando o marido é convocado para a guerra, e torna-se alvo dos olhares cobiçosos dos homens e das línguas ferinas das mulheres. Vivendo discretamente, ela atravessa a cidade todos os dias seguida por Renato em sua bicicleta, e sob o olhar atento de todos, que não hesitam murmurar vulgaridades para a pobre que sequer levanta os olhos para encarar quem quer que seja.

A vida reservada de Malèna se torna objeto de constante discussão nas rodas de fofocas, e Renato acompanha cada boato lançado ao vento sobre a moça, sofrendo em silêncio a angústia de ter que separar o que é real e o que é ficção.

Quando a notícia de que Nino morreu em combate é divulgada, Malèna se recolhe em luto, enquanto na cidade não se fala em outra coisa que não seja qual será o sortudo a tomar o lugar do falecido. O tempo passa, e Renato observa Malèna em sua solidão e recolhimento ao passo em que já sabe identificar o que é verdade e o que é mentira a respeito dela. Ele também espreita sua relação com o pai, que acaba sendo afetada pelos boatos, cada vez mais cruéis.

Contudo, com a invasão alemã e a morte do pai, Malèna não consegue trabalho e começa a passar fome, ao que decide se prostituir, para sofrimento de Renato, que não encontra coragem suficiente para fazer alguma coisa para ajudá-la. Ao final da guerra, ela acaba sendo mais uma vez vítima da hipocrisia humana quando sofre uma grande e última humilhação diante de todos, para somente um ano mais tarde encontrar a paz após uma intervenção tardia de Renato.

O longa-metragem é lindamente produzido e dirigido. Com cinematografia impecável, assim como adaptação de época impressionante, Malèna conquista a audiência com a doce e ingênua história de um primeiro amor, mas que ao mesmo tempo mostra o lado duro, triste e cruel da realidade da guerra, bem como do preconceito, da inveja e demais mazelas humanas frente ao que é diferente e belo.

Deixe um Comentário