Ícone do dia : Marlon Brando

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Considerado um dos maiores astros do cinema mundial de todos os tempos, tendo apenas o teatral Laurence Olivier como ator de igual valor no que diz respeito à estima, Marlon Brando, que concentrou todo o seu talento no cinema, sobressaiu-se como o principal representante de uma nova escola de atuação e como o tipo irreverente e polêmico dedicado a questões sociais. Mais de 50 anos depois da adaptação de Elia Kazan da peça de Tennessee Williams, Um bonde chamado desejo, e um quarto de século de sua performance como o Coronel Kurtz no aclamado Apocalypse Now, de Francis Ford Coppola, ele ainda é a grande referência para os jovens atores da atualidade.

Diz-se, que seu brilhantismo tem nascedouro no fato de que ele não era um ator de verdade. Brando definitivamente não se levava a sério em cena, e embora assumisse um papel sempre com responsabilidade e zelo no início, a partir de um determinado momento fazia valer seu lado irreverente de forma totalmente despropositada, provavelmente devido à sua notória preguiça e cinismo.

Seja como for, o astro de A Streetcar Named Desire ofuscou grandes ídolos do cinema dos idos dos anos de 1950, como Paul Muni e Fredric March, e por pouco Spencer Tracy, cuja reputação, tal como a de Brando, criou uma nova escola de atuação apenas pela força de sua personalidade.

Nascido numa modesta família descendente de franceses, alemães, holandeses e irlandeses, Brando tinha duas irmãs mais velhas, uma delas também atriz : Jocelyn Brando. Sua mãe, Dorothy Pennebaker, também atriz, era boêmia; e o pai de Brando, um verdadeiro mulherengo, era alcóolatra. Com o nome de família francês Brandeau, de origem alsaciana, e proveniente do alemão Brandau, posteriormente americanizado e italianizado para Brando, o jovem e futuro astro era uma criança problemática. Enviado para a escola militar de Shattuck aos 16 anos, foi lá que ele descobriu sua vocação para as artes, porém, ameaçado de ser expulso por insubordinação, decidiu sair da academia por conta própria.

Após, Brando começou a trabalhar com o pai, fazendo pequenos serviços, e se alistou no exército, mas acabou sendo dispensado após machucar o joelho durante um jogo de futebol americano. Ele então decidiu se mudar para a casa das irmãs em New York, em 1943.

No ano seguinte, tendo como mentora Stella Adler, difusora do método Konstantin Stanislavski nos teatros de New York e professora do Actors Studio, o jovem aspirante a ator estreou na Broadway com a peça I Remember Mama, e chamou a atenção do produtor Stanley Kramer, que lhe deu o papel de destaque no primeiro longa-metragem de sua carreira : The Men. Para viver o papel do soldado paraplégico no primeiro filme de sua carreira, Brando passou um tempo num hospital para veteranos de guerra, e ficou confinado a uma cadeira de rodas por várias semanas. Seu método de atuação, baseado na pesquisa, era inédito: nenhum outro astro ou estrela de Hollywood havia experimentado isso antes.

Um ano depois, após ligar incessantemente para o cineasta Elia Kazan, Brando conseguiu entrar para o elenco estelar de A Streetcar Named Desire assumindo o papel que seria de Burt Lancaster. Diferentemente de seu personagem em The Men, Brando impôs-se como a figura de rebelde e ao lado de Montgomery Clift, Clark Gable e Humprey Bogart, tornou-se símbolo sexual máximo na época. Por seu papel no filme de Kazan, Brando recebeu a primeira das suas oito indicações aos Academy Awards.

A parceria com Kazan foi mais longe. Um dos primeiros a notar o magnetismo pessoal de Brando, o cineasta decidiu reprisar a dobradinha nos três anos seguintes com Viva Zapata!, que rendeu ao jovem ator uma premiação em Cannes, e com On the Waterfront, pelo qual veio a receber seu primeiro Academy Award. O estilo único de Brando, apenas aos 30 anos de idade, influenciou uma leva de novos grandes talentos, como James Dean, Paul Newman, Steve McQueenWarren Beatty, que também se sobressaíram como representações do gênero rebelde. Em 1973, Jack Nicholson fez questão de dizer que «Somos todos filhos de Brando. Ele nos deu a nossa liberdade.»

Na segunda fase de sua carreira, nos idos dos anos de 1955-1962, Brando procurou se estabelecer como grande ator, e deslanchou com filmes como Sayonara, pelo qual recebeu sua quinta indicação ao Academy Awards, e The Young Lions. Nessa época, ele também se esmerou como diretor, e lançou, através de sua produtora, a Pennebaker Productions, o filme One-Eyed Jacks, o qual, todavia, não alcançou o sucesso almejado.

Em 1960, Brando estrelou em The Fugitive Kind e foi o segundo astro de Hollywood, logo depois de Elizabeth Taylor por Cleopatra, a receber $1 milhão de salário por um filme. A despeito de se tratar de uma adaptação de uma peça de Tennessee Williams, cujas versões de Cat on a Hot Tin Roof e Suddenly, Last Summer haviam conquistado grande sucesso dois anos antes, a película não alcançou o reconhecimento esperado.

Uma sucessão de erros e tragédias estava por vir na carreira de Brando: era a fase mais tenebrosa de sua carreira, por muitos chamada de decadência. Depois do fiasco com One-Eyed Jacks e The Fugitive Kind, o astro recusou o papel principal no clássico de David LeanLawrence of Arabia, e decidiu assinar para atuar em Mutiny on the Bounty, outra grande decepção em sua carreira a começar pela produção. As filmagens, aliás, foram tão atribuladas, que, diz-se, até mesmo o então Presidente John F. Kennedy perguntou a Billy Wilder, diretor do longa-metragem, não exatamente quando, mas se as gravações chegariam mesmo a acabar algum dia.

A produção – que só não foi a mais cara na época por conta de Cleopatra, que viria um ano depois pela 20th Century Fox – foi superestimada pelos executivos da MGM, que esperavam reprisar os sucessos de The Ten CommandmentsBen-Hur, e acabou sendo pessimamente recebida pelo público e pela crítica.

A década de 60 não poderia ter sido pior para Brando, que colecionou uma série de fracassos nas bilheterias com The Ugly AmericanThe Chase e Reflections in a Golden Eye. Tais filmes, no entanto, embora fracassos de público e de crítica, são representações do que de melhor há na atuação de Marlon Brando. Nessa mesma época, o astro começou seu notório engajamento político em campanhas contra a segregação racial e proteção aos nativo-americanos. A partir de 1968, ele passou três anos sem atuar.

Com o assassinato de  Martin Luther King, Brando afirmou não ser mais capaz de voltar a Hollywood após tal tragédia, e ao recusar trabalhar ao lado do então atual rei do box-office, Paul Newman, em Butch Cassidy and the Sundance Kid, o astro decidiu fazer The Mercenary, apenas pelo fato de que o filme era uma crítica ao colonialismo e ao racismo. Embora bem recebido nas bilheterias, o filme não foi aclamado pela crítica.

Nesse meio tempo, as opiniões se dividiam sobre Marlon Brando. Para Orson Welles, Brando era um gênio, e embora reconhecesse Richard Burton como o exemplo do ator intelectual e observador na época, admitia que era Brando o mais brilhante e próximo do público, mas que talvez seu problema tenha sido que ele era único, e seu sucesso tenha sido rápido demais, e quando jovem demais.

Truman Capote, que criticou severamente Brando apontando-o como disléxico e de pouco inteligência, afirmou posteriormente que os melhores atores são mesmo ignorantes, pois pessoas inteligentes não são capazes de atuar. Contudo, tal fato foi eventualmente dismistificado, pois Brando não apenas era verdadeira e altamente inteligente, como possuía uma rara genialidade pouco reconhecida, tendo somente se afastado de Hollywood quando finalmente descobriu que tudo dizia respeito apenas a dinheiro, e não usar a arte como forma de expressão ou de transmitir mensagens.

Para Charlton Heston, Brando era um excelente ator, com imenso potencial, mas foi sua inabilidade de separar seu idealismo de sua carreira que o levou ao fundo do poço.

Rod Steiger, considerado um dos «filhos» de Brando nos dizeres de Nicholson, também apontou o talento do astro como único e capaz de elevar a audiência ao topo, mas que só não foi possível porque ele próprio não o quis. Magnético, ele passou a se concentrar apenas naquilo que achava certo, deixando o grande talento que tinha de lado.

Em 1971, quando a Paramount estava para produzir O Poderoso Chefão, os executivos só tinham em mente Laurence Olivier como o único capaz de personificar Don Corleone na adaptação da obra de Mario Puzo. Mas Francis Ford Coppola lutou por Brando, e conseguiu. O filme foi um dos maiores sucessos de todos os tempos, e deu ao astro seu segundo Academy Award de melhor ator de 1972, o qual ele recusou receber, tendo enviado à cerimônia de entrega Sacheen Littlefeather, uma atriz nativo-americana, para receber o prêmio em seu lugar.

Não bastasse seu comeback triunfante e sem precedentes, Brando estrelou no mesmo ano, o escandaloso O Último Tango em Paris, de Bernardo Bertolucci, no qual protagonizou uma das cenas de sodomia mais polêmicas do cinema ao lado de Maria Schneider.

Após mais três anos de hiato, Brando retornou na produção de Arthur Penn, The Missouri Breaks, no qual atuou ao lado de Jack Nicholson num bem sucedido western que rendeu críticas positivas e boa recepção nas bilheterias. Dois anos depois, em 1978, ele viria a ser contratado por um salário de $3.7 milhões e mais 10% do lucro nas bilheterias para apenas 13 dias de gravação como Jor-El, em Superman.

Era a terceira e última grande fase da carreira de Brando, que mal chegou a receber o pomposo cachê por Superman, e foi logo em seguida contratado por um salário de $2 milhões por apenas uma ponta em Apocalypse Now, no qual reprisou a parceria com Francis Ford Coppola, agora como o intérprete do personagem igualmente emblemático Coronel Kurtz. Foi a última grande performance de Brando, embora ele tenha posteriormente recebido uma oitava e última nomeação a um Academy Award por A Dry White Season.

Nos anos de 1980, Brando se afastou das telas, e só voltou a atuar em 1989, com o filme A Dry White Season, doando todo o seu cachê às associações de combate ao apartheid na África do Sul.

Mais tarde, nos idos dos anos de 1990, Brando apareceu em Don Juan DeMarco, The Island of Dr. Moreau e The Brave, este último, produção independente dirigida por Johnny Depp, com quem havia atuado três anos antes, mas que chamou sua atenção por ser uma trama focada num personagem indígena. Em seu último filme, The Score, de 2001, Brando atuou ao lado de Robert De Niro e Edward Norton, mas mais uma vez polemizou ao não querer gravar as cenas sob a direção de Frank Oz.

Brando, que chamou a atenção do público pela primeira vez aos 24 anos quando apareceu na revista Life ao lado de sua irmã Jocelyn para a divulgação de uma peça da Broadway, conquistou as plateias como o soldado paraplégico em The Men. Carismático, magnético e polêmico, o jovem e belo astro ganhou notoriedade em A Streetcar Named Desire como o tipo rebelde, o bad boy que conquistou homens e mulheres do mundo todo, e inaugurou uma forma única de atuar, baseada na experiência, método esse até hoje empregado por vários astros e estrelas que ainda o tomam como um dos maiores representantes do que de melhor há na atuação. Politizado, Brando se engajou em causas anti-discriminatórias e defensoras dos nativo-americanos, dando as costas para Hollywood quando lhe convinha ou quando não conseguia usar a arte como forma de protesto.

Conhecido também por suas grandes conquistas amorosas, tendo sido amante de diversas divas da era de ouro do cinema, como Marilyn Monroe, Bette Davis, Marlene Dietrich, bem como Édith Piaf e Jacqueline Kennedy e, diz-se, até mesmo de astros como James Dean, Montgomery Cliff e Cary Grant, Brando casou-se três vezes: com Anna Kashfi (de 1957 à 1959), com Movita Castaneda (de 1960 à 1962) e com Tarita Teriipaia (de 1962 à 1972).

Pai de cerca de cerca de treze filhos, o astro também viu sua vida pessoal se tornar palco de desgraças quando o filho mais velho, Christian Brando, foi julgado e acusado de matar o namorado na meia-irmã Tarita Cheyenne, que viria a se matar cinco anos depois, sob a justificativa de que ela teria sido vítima de violência doméstica enquanto grávida de seu primeiro filho.

Destemido, apesar das críticas e do desgaste de sua imagem, Marlon Brando é o ícone do cinema que surgiu na era de ouro de Hollywood, e que por muitos anos continuou dando exemplo do que de melhor se pode conferir da atuação e de compromisso com seus ideais.

O portal da Life/Time Magazine e a página oficial do astro dispõem um acervo de fotos raras. Na primeira delas, temos Marlon Brando aos 16 anos e já interno na academia Shattuck. Mais adiante, o registro em imagens da aplicação do método de estudo para o personagem em The Men:

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Abaixo, Marlon Brando com sua avó materna, Elizabeth Myers, com quem dividiu a condição de convidado na casa de sua tia, Betty Lindemeyer, em Eagle Rock, California, durante as filmagens de The Men:

Brando no Academy Awards de 1955, quando ganhou o prêmio de melhor ator principal por On the Waterfront, e ao lado de Marilyn Monroe, com quem afirmava ter tido um romance exatamente na mesma época em que se especulava que a estrela estaria tendo um caso com John F. Kennedy:

Abaixo, Brando em ensaio fotográfico para a Life/Time Magazine:

O astro na intimidade:

E, por fim, Marlon Brando nos bastidores de alguns de seus filmes:

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