Review literário : Juillet, de Marie Laberge

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Juillet é o segundo livro escrito pela romancista e autora de peças de teatro quebequense Marie Laberge, autora ainda de outros onze livros, todos publicados pela Éditions du Boréal.

Escrito em 1987, mas publicado apenas dois anos depois, Juillet conta a história que se passa num único dia quente de verão do mês de julho em que Simon, um ex-cirurgião especializado em bioética celebra o aniversário de 65 de sua esposa, a também médica Charlotte, juntamente com a família de seu filho David. O problema, é que Simon é apaixonado por sua nora, a bela e vivaz Catherine.

Com tons de tragédia grega, o romance de pouco mais de cem páginas é basicamente a história de um amor impossível. Com leitura simples e agradável, a autora aborda ao máximo a personalidade e as características de cada um dos cinco personagens que compõem a narrativa e que representam cada qualidade ou defeito do ser humano em geral, porém, amplificada ao extremo.

Julien, por exemplo, que é o filho de um ano e meio de Catherine e David,  representa a inocência, a imprudência e o perigo frente às consequências de certos atos ou circunstâncias. Ao longo da história, o pequeno apenas se diverte, ri, chora, canta ou briga pouco se importando com os acontecimentos ao seu redor. Os eventos tomam seu lugar na narrativa e Julien está totalmente alheio a eles, mas ao mesmo tempo presente em cada um.

David, por seu turno, pai de Julien, marido de Catherine, e filho de Simon e Charlotte, é descrito como um personagem submisso, covarde e incapaz de tomar suas próprias decisões sozinho. Desde o começo da história ele quer falar com seu pai sobre aceitar ou não uma proposta extremamente vantajosa de trabalho, o que denota uma necessidade absurda de aprovação contínua da parte de seu pai, o qual considera muito superior a ele. Incapaz de falar com Catherine sobre os problemas conjugais que enfrentam, ele ainda expõe a situação íntima do casal a seu pai, o que torna tudo ainda mais pesado e desagradável.

Charlotte é esposa de Simon e mãe de David. Descrita como uma mãe perfeita e médica reconhecida, ela representa aquilo que todos mostramos aos outros. Ela tem uma opinião para tudo, e tem boas maneiras. Além disso, fala bem e se acha superior à todos. Ela vive de aparências, e a palavra fracasso não consta em seu dicionário. O cumprimento de seu dever médico não é para salvar vidas, mas para provar que ela é infalível. Para ela, David é a maior prova de seu sucesso, e o desfecho da história é o nível extremo do fracasso para Charlotte, motivo exatamente pelo qual ela toma a atitude que encerra a narrativa.

Simon é o símbolo do poder, da inteligência e do charme. Médico, tal como Charlotte, ele optou por se especializar em bioética, o que, para sua esposa, é um grande desgosto, mas que para ele significa salvar vidas, simplesmente porque ele se importa com os outros. Ele tem energia de viver, e força de caráter que o tornam extremamente sedutor, o que inclusive faz com que sua nora se apaixone por ele. Simon jamais diz algo por dizer: ele diz o que é inteligente e pertinente.

E finalmente, temos Catherine: ela é a personagem principal da história e representa a força. Ela tem a personalidade de uma mulher forte que sabe o que quer e faz o que for preciso para alcançar seus objetivos. Mãe amorosa, ela é alvo de chacota por duas vezes na história, e não se deixa abalar em nenhuma delas, permanecendo calma e racional o tempo todo. Simon a descreve como uma mulher de grande força interior, o que o faz se apaixonar por ela.

Juillet é um romance interessante, escrito como uma peça de teatro, porquanto situado num mesmo lugar, e durante o transcurso de um único dia. Apesar de uma história à la Nelson Rodrigues, podemos facilmente nos identificar com cada um dos seus personagens, reconhecendo neles as características que todos temos em diferentes fases de nossa vida ou de acordo com nosso humor.

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