The Walking Dead : Liderança e Rick Grimes, uma análise

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Resolvi escrever esse artigo após ler inúmeros comentários pela rede sobre como Rick Grimes, personagem de Andrew Lincoln na série The Walking Dead, é um péssimo líder para o grupo de sobreviventes na adaptação televisiva do apocalipse zumbi no universo do quadrinista Robert Kirkman, assertiva essa que ganhou mais força após a transmissão do episódio do último domingo, Indifference.

Na série, o personagem é xerife em Cynthiana, Kentucky, e não muito diferente dos quadrinhos, acaba emergindo como líder natural de um pequeno grupo de sobreviventes após uma pandemia que transformou grande parte da população em mortos-vivos. Nessa sua trajetória, especificamente ao longo da primeira temporada, temos Rick Grimes como um homem em busca de sua família, da qual se separou após ser acometido por um coma profundo decorrente de um tiroteio no episódio piloto. No segundo ano da série, porém, ao entrar em conflito com seu ex-parceiro, Shane Walsh, personagem interpretado por Jon Bernthal, Rick finalmente se investe no papel de líder com a derrocada do ex-melhor amigo. Por fim, no ano seguinte, há a colisão de duas civilizações distintas e um exemplo bastante claro de governança corrompido através da figura do Governador (David Morrissey).

Como qualquer pessoa, Rick Grimes não está isento de erros, e nesse meio tempo entre segunda e início de quarta temporada, foi responsável por tomar algumas das decisões tidas das mais controvertidas, as quais, ainda, são por muitos consideradas representações negativas de liderança. A título de ilustração, seguem algumas das situações ocorridas na série que boa parte dos fãs apontam como exemplos de liderança a não serem seguidos:

1. Na primeira temporada, Rick Grimes, supostamente desprovido de um plano de ação e estratégia, conduziu o grupo de sobreviventes do qual faz parte até o Centro de Controle de Doenças em Atlanta, Georgia, com a informação extraoficial de que seria um lugar seguro para sobreviventes da ameaça zumbi. Ao descobrir que o lugar estava condenado, e que não encontrariam lá o lar que tanto almejavam, tampouco as respostas de que precisavam, o grupo seguiu viagem para Fort Benning. Diz-se, que a partir desse exemplo, a falta de visão da parte de Rick comprometeu o grupo.

2. Na segunda temporada, durante a estada do grupo na fazenda de Hershel Greene (Scott Wilson), Rick enfrentou o dilema sobre os mortos-vivos mantidos pelo veterinário em seu celeiro. Ele ouviu a opinião de todos sobre os walkers cativos e o perigo que representavam tão perto do seu grupo, e não tomou uma decisão imediata, qualquer que fosse. Ele permitiu que Shane se atravessasse no acordo de cavalheiros que mantinha com Hershel, e tomasse a iniciativa de arrombar o celeiro e matar um a um dos errantes. Nesse caso, Rick deixou de tomar uma decisão imediata para salvaguardar os interesses do seu grupo.

3. Na segunda temporada, Rick também muda de ideia sobre manter em seu grupo Randall (Michael Zegen), membro de uma gangue de criminosos pós-apocalipse, para então executá-lo no intuito de proteger a todos. No último instante, porém, ele muda novamente de ideia. Na terceira temporada, ele se encontra com o Governador (David Morrissey) para tentar eliminar os problemas entre os dois grupos, e informa seus aliados que pretende fazer o que for preciso para resolver o impasse. Quando o Governador lhe diz que os deixará em paz caso entreguem Michonne (Danai Gurira), ele esconde tal fato do grupo, mas compartilha com a pessoa mais improvável, Merle (Michael Rooker), e faz campanha para uma guerra contra o Governador. A suposta falha de Rick, nesse caso, é a instabilidade na tomada de decisões.

4. Ainda na segunda temporada, ficou mais evidente a diferença no modo de resolver as coisas entre Rick e Shane. Enquanto Rick compartilhava com o grupo questões polêmicas e racionalizava demais antes de tomar uma decisão, Shane se adiantava para resolver tudo ao seu modo. Foi assim com o incidente do celeiro na fazenda de Hershel, e também com Randall. Como se não bastasse, Shane repetidamente discordava de Rick diante de todos, trazendo instabilidade ao grupo, bem como conflitos internos, como o havido entre Dale (Jeffrey DeMunn) e Andrea (Laurie Holden). Diz-se, portanto, que o erro de Rick foi prolongar o problema com Shane, chegando a um ponto trágico.

5. Na quarta temporada, Rick começa na série como uma pessoa completamente diferente. Ele se mostra desincumbido da investidura de líder, não participa das reuniões do conselho formado por Hershell e outros membros importantes do grupo, e passa a cuidar da subsistência da pequena comunidade. Todos tem suas funções, e ele não se encarrega de verificar se cada um faz sua parte. Não há mais comunicação, e num momento decisivo, ao descobrir a autoria dos assassinatos de Karen (Melissa Ponzio) e David (Brandon Carroll), ele tomou sozinho a decisão de excluir um importante membro do grupo, Carol (Melissa McBride), deixando-a à sua própria sorte. No caso, diz-se que ele tomou uma decisão precipitada e autoritária, quando já havia se desobrigado da função de líder.

Outras medidas adotadas por Rick, e apontados por vários internautas como falhas de liderança, vão desde o fato dele não ter ensinado Carl (Chandler Riggs) a se proteger desde cedo – o que, supõe-se, teria evitado a morte de Dale -, bem como o retorno ao centro de Atlanta para resgatar Merle, colocando a expedição em perigo, e a aceitação dos habitantes de Woodbury no presídio, sob a alegação de incorrer no risco não apenas de gerar a falta de suprimentos como também o ingresso de simpatizantes do Governador no grupo.

Antes de rebater as apontadas falhas de Rick Grimes na série, imperioso se faz entender melhor o tipo de líder que ele é, bem como resgatar alguns conceitos de liderança.

Inicialmente, deve-se ter em vista que liderança não é ser chefe, mas sim ter a capacidade de influenciar as pessoas. Como fazê-lo? Com iniciativa, domínio, entusiasmo, imaginação, autocontrole, personalidade, persistência e confiança, características essas por meio das quais a pessoa acaba se tornando líder de maneira praticamente espontânea. Mas não basta apenas ter todas essas qualidades : capacidade, talento e energia deve ser investida de forma positiva.

A formação do líder baseia-se na suposição de que os líderes são pessoas que sabem quais são suas forças e fraquezas, e como empregar integralmente as primeiras para compensar as últimas. – Warren Bennis, mestre nos estudos sobre liderança, e autor de diversos livros científicos sobre o tema.

Segundo Jack Welch, as oito regras da liderança são:

Regra 1: Os líderes são incansáveis em melhorar a equipe, usando todos os encontros como oportunidades para avaliar, treinar e reforçar a autoconfiança.

Regra 2: Os líderes se empenham para que as pessoas não só compreendam a visão, mas também para que a vivenciem e respirem.

Regra 3: Os líderes se põem no lugar de todos, transpirando energia positiva e otimismo.

Regra 4: Os líderes angariam confiança com franqueza, transparência, reconhecendo os méritos alheios.

Regra 5: Os líderes têm coragem para tomar decisões impopulares.

Regra 6: Os líderes questionam e instigam, por meio de uma curiosidade constante que se aproxima do ceticismo, esforçando-se para que suas perguntas sejam respondidas em ação.

Regra 7: Os líderes inspiram a assunção de riscos e o aprendizado constante, dando o exemplo.

Regra 8: Os líderes comemoram.

Em The Walking Dead, embora Rick Grimes acredite que não tem muito a comemorar, ele sobreviveu à insanidade da qual poderia ter sido acometido após a morte de Laurie, bem como conseguiu impedir a dizimação de seu grupo no confronto com o Governador, que, diga-se de passagem, deixou muito a desejar. Na sua busca por equilíbrio e sobrevivência de todos, ele se fez valer das principais características de um bom líder, quando trabalhou em equipe; assumiu responsabilidades; tomou decisões; delegou atividades; fixou objetivos; motivou os liderados; administrou conflitos; e buscou diálogo e negociação.

Quando colocada em pauta as falhas de Rick em contrapartida ao estilo de outros potenciais líderes na série, o que nos remonta à segunda temporada, quando o personagem entrou em disputa direta com Shane, foi exatamente naquele momento que o grupo se viu diante de duas possibilidades bastante distintas, e precisou escolher um lado:

No primeiro deles, havia Shane, que via o mundo em preto e branco e que acreditava que a sua visão era a melhor e a mais válida. Apesar de possuir boas qualidades de um líder, ele não seguia regras. Note-se, que ele não queria discutir os problemas com o grupo. Ao contrário, rebatia ferozmente a opinião dos outros e partia diretamente para a ação. Exemplo clássico de líder autocrático, segundo classificação de Kurt Lewin, Shane conquistou a base de fãs da série por prover expectativas claras para o grupo de sobreviventes na série em menor espaço de tempo. Seu estilo, portanto, embora pudesse parecer o melhor para momentos em que há urgência na decisão de questões práticas, permitia uma divisão bem definida entre líder e equipe por meio do qual se sobrepunha por meio de opressão frente a situações polêmicas.

Do outro lado, temos Rick. Ele é o líder democrático e, por vezes, delegante, que oferece direção ao grupo, mas que também participa no mesmo nível, e que se desincumbe de determinadas funções, delegando-as a outros. Com uma liderança assim, pode-se dizer que o grupo é menos promissor e produtivo a curto e médio tempo, no entanto, as contribuições alcançadas são de alta qualidade, uma vez que há incentivo, orientação, boa vontade, entusiasmo, união e desenvolvimento, princípios basilares que diferenciam liderança de poder e opressão.

Quando os dois estilos de liderança se confrontaram na segunda temporada, o grupo entrou em conflito, e embora muitos não tenham se sentido confortáveis com algumas ações e decisões tomadas por Rick, passaram a confiar mais nele por conta de sua flexibilidade, a mesma que, por vezes, é tão criticadas pelos telespectadores da série que o apontam como um líder instável. Portanto, os erros cometidos pelo personagem, e que, segundo a opinião do público, conduzem-no ao exemplo de um suposto mau líder correspondem a exatamente aquilo que o torna humano num mundo onde não existe mais humanidade e no qual a meta é sobreviver.

A concentração de energia de Rick como líder está diretamente relacionada a esses dois fatores, e se por vezes ele hesita ou se mostra instável diante de uma situação polêmica, é exatamente isso que o tornou líder espontâneo. Mesmo afastado das decisões tomadas pelo conselho dentro do presídio ao longo dos primeiros episódios da quarta temporada, ele é procurado, quesitonado e cientificado de tudo o que é decidido ou que será colocado em pauta. Ou seja, as pessoas ainda o tomam como líder, ainda que ele não esteja à frente de grandes decisões, recolhendo-se, portanto, para vindoura necessidade de seus talentos, uma vez que, diante de sua flexibilidade e adaptabilidade, é o mais apto a assumir grandes responsabilidades em nome de todos e a resolver dilemas e impasses que desafiam a moral e o bem comum, já que para as decisões práticas e urgentes todos ali são capazes de tomar.

Portanto, ainda que a visão daquilo que está adiante não esteja clara para todos na série, como quando Rick conduziu o grupo para o centro de Atlanta até o Centro de Controle de Doenças, e depois para Fort Benning, ainda assim ele é a pessoa que assume o risco e a responsabilidade de decidir o que parece ser a melhor opção para todos. Eventualidades e baixas no grupo são inevitáveis e imprevisíveis no fictício universo de um apocalipse zumbi, e ainda que possam ser amenizadas, recursos e segurança são escassos.

Sobre a alegada instabilidade de Rick na tomada de medidas imediatas e definitivas, tais como a polêmica sobre os walkers no celeiro da fazenda de Hershel, ou sobre o episódio envolvendo o personagem Randall, bem como sua resposta ao proposto pelo Governador no que dizia respeito a Michonne, e o prolongamento do problema concernente a Shane, é bastante clara aqui a tentativa do personagem ser o mais humano possível nas suas decisões. Dale, apesar de muito odiado por uma boa base de fãs, por vezes fez o papel da consciência de Rick ao longo dos grandes dilemas enfrentados na segunda temporada. Mais do que enxergar as dificuldades e perigos que se sobrepunham ao grupo, ele jamais o deixava esquecer daquilo que os separava de tudo o que foi destruído: a humanidade. Portanto, cada hesitação de Rick, cada decisão apontada como impensada ou desafortunada, é o que o torna um bom líder: um líder mais humano.

Dessa forma, em contrapartida ao polêmico final do episódio de domingo, a decisão de Rick não foi exatamente precipitada. Sabendo que precisava descobrir a autoria dos assassinatos de Karen e David, ele descobriu o envolvimento direto de Carol. Sem questioná-la, conhecendo-a como todos a conhecem, como a mais devotada membro do grupo no que diz respeito à proteção frente a cada ameaça externa, ele não questionou seus motivos sabendo que sua intenção era a de proteger os não infectados da fatal epidemia de gripe. Mas ele deixou claro que sua atitude não apenas foi precipitada, na medida em que pouco ainda se sabia sobre a causa da gripe e suas consequências em cada indivíduo, como também deixou de alcançar o resultado esperado, já que na sequência vários outros foram acometidos pela doença e se submeteram ao isolamento em regime de quarentena com chances de recuperação. Ele então a levou para uma expedição na qual excluiu a particição de qualquer outro membro, unicamente na intenção de analisá-la e reconectar-se a ela.

Ao longo do episódio, no entanto, Carol deu vários indícios de que rompeu em definitivo com os princípios do grupo. Ela não apenas se mostrou indiferente e sem qualquer remorso frente aos assassinatos cometidos, defendendo incansavelmente sua atitude como uma tentativa de afastar um perigo iminente e que aprendeu a aceitar tal fato como verdade absoluta, como também mostrou ter perdido há muito sua humanidade. Enquanto Rick menciona que ainda pensa em Lori, e assume que a perda da esposa foi um grande trauma que ainda o abala, mostrando toda sua humanidade, Carol, ao contrário, mostra-se sem qualquer conexão com o que um dia Sophia lhe representou.

Ainda, embora árdua defensora dos membros do grupo do qual faz parte, diferentemente de Rick, Carol não se importou nem um pouco com desconhecidos, possivelmente como consequência dos eventos sucedidos na terceira temporada, mas dos quais ela não participou diretamente, eis que jamais confrontou o Governador como a maioria dos personagens principais. Quando Rick a questiona sobre permiti-los ingressar no grupo, ela é indiferente, e quando a garota que encontram na casa abandonada é devorada por walkers, Carol age mais uma vez com desprezo, do mesmo modo quando Sam não aparece, e ela entende que devem deixá-lo sob a assertiva de que ele pode se cuidar, a despeito de cabalmente demonstrado que ele era incapaz de se defender sozinho.

Há ainda quem diga que quando Carol sugeriu a Rick que o casal de desconhecidos, ainda que impossibilitados, ajudassem a colher suprimentos, ou que deveriam partir ainda que Sam não tivesse dado qualquer sinal, foram ordens como a de um líder, o que, evidentemente, é deveras equivocado. Afinal, ficou bastante claro que suas ponderações foram meras sugestões e, como já mencionado, o estilo de liderança adotado por Rick é o participativo por democracia com leves nuances de delegação. Portanto, desde o início da terceira temporada, as pessoas do grupo são capazes de expor suas opiniões e tomar decisões próprias para questões práticas e imediatas, desde que sejam do interesse do grupo. A liberdade ali conferida no episódio não passa de uma permissividade do próprio Rick na qualidade de líder democrático.

Portanto, em Indifference, Rick nada mais fez do que analisar Carol o tempo todo, seja no que diz respeito às suas explicações sobre as mortes de Karen e David, na sua revisitação ao passado e suas lembranças acerca de Sophia, no seu instinto de sobrevivência, e principalmente na sua autonomia. O que ele encontrou, no entanto, foi indiferença pura e simples da personagem quanto aos seus atos e sua nova visão de realidade, o que vai diretamente de encontro com os interesses do grupo, que é não apenas a preservação da vida de todos, como também da própria humanidade na sua essência.

Dessa forma, deixando de existir sinergia da parte da Carol, a qual tomou uma decisão egoísta, sem submetê-la a qualquer outro membro do grupo, ou mesmo ao conselho, porquanto ausente nela ou em qualquer outra pessoa a investidura para a tomada de decisões polêmicas que não seja através de Rick, é que seu afastamento do grupo se mostrou como medida mais do que cabível. Afinal, se ela foi capaz de matar friamente duas pessoas que até então não representavam perigo algum, e que estavam completamente indefesas com base numa equivocada interpretação de interesse comum, o que se pode esperar do futuro do grupo? Registre-se, por fim, que a decisão de Rick não poderia ser mais coerente, amparada, ainda, na própria proteção pessoal da personagem frente às retaliações, em especial da parte de Tyreese.

Resta agora saber se o reflexo da decisão de Rick ao final do episódio de domingo será tão polêmico e criticado entre os personagens da série, a ponto de até mesmo dividi-los, como o está sendo em relação à base de fãs da série.

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