The Sopranos : dica de série

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Passados mais de seis anos do seu término, e eleita pelo Sindicato de Roteiristas Americanos como a produção televisiva mais bem escrita de todos os tempos, «The Sopranos» é, e provavelmente sempre será considerada uma das melhores e mais influentes séries de TV, responsável ainda por inaugurar a terceira era de ouro da televisão, representada por roteiros inteligentes e sombrios, bem como personagens ambíguos e desprovidos de qualquer moral.

A série

Criada e desenvolvida por David Chase e transmitida entre 1999 a 2007 pelo canal HBO no formato de cinco temporadas com treze episódios cada e uma sexta e última temporada com vinte e um episódios, a série girava em torno de Tony Soprano (James Gandolfini), mafioso de origem ítalo-americana, chefe da família DiMeo de New Jersey, inspirada na real família de criminosos DiCavalcante, e as dificuldades por ele enfrentadas na tentativa de harmonizar seus conflitos pessoais e sua vida como chefe do crime organizado. Para tanto, ele recorria à ajuda da psicoterapeuta Jennifer Melfi (Lorraine Bracco), sempre relatando situações e temas relacionados a cada trama do episódio em questão.

Originalmente concebida como um filme cuja história seria a de um mafioso com problemas com a mãe, inspirado na própria vivência pessoal de David Chase, entusiasta das histórias de mafiosos, o enredo foi adaptado para o formato de série, e surgiu assim o roteiro do episódio piloto, filmado em 1997, e que, aguardando aprovação por vários meses pelos executivos da emissora, somente foi veiculado dois anos depois com a sinalização e início das filmagens dos 12 episódios subsequentes.

A série explorava a relação de Tony Soprano com a psicoterapeuta interpretada por Lorraine Bracco, uma ítalo-americana divorciada e mãe de um filho adolescente que, diferentemente do personagem de Gandolfini, era reflexiva, racional e humana, e que a despeito dos frequentes confrontos havidos entre os dois nos encontros tidos em seu consultório a cada episódio, despertava nele nítido interesse físico que, embora por vezes recíproco, jamais chegou às vias de fato.

O foco dos problemas enfrentados por Tony e relatados à personagem de Bracco se concentrava em casa e no trabalho. As complicações começavam especificamente por sua mãe, Livia (Nancy Marchand), e as maquinações desta com seu tio Corrado «Junior» Soprano (Dominic Chianese), então chefe nomeado da família de criminosos. Embora tenham dado o ar da graça em poucos episódios, os problemas pessoais de Tony se estendiam também às desavenças com sua irmã Janice (Aida Turturro) e o primo Tony B. (Steve Buscemi), vítimas de difíceis decisões tomadas pelo protagonista ao longo da série.

Contudo, era mesmo em sua própria casa que os desacertos refletiam em outros setores da vida de Tony. Casado com Carmela (Edie Falco), ele tentava equilibrar a figura de homem de família e as constantes infidelidades que procurava mascarar com recompensas materiais para a esposa, a qual eventualmente também decidiu pular a cerca. Mas ambos tinham relacionamentos também conturbados com os dois filhos adolescentes, Meadow (Jamie-Lynn Sigler) e A.J. (Robert Iler), os quais, todavia, tinham plena ciência dos negócios escusos do pai, e também precisavam saber lidar com a realidade na qual viviam.

No ciclo do crime organizado, Tony também tinha seus contratempos com seus associados. Sua organização era composta por Silvio (Steven Van Zandt), consigliere e melhor amigo, Paulie (Tony Sirico) e Big Pussy (Vincent Pastore), além de Patsy Parisi (Dan Grimaldi), Furio Giunta (Federico Castelluccio) e Christopher (Michael Imperioli), sobrinho e protegé de Tony também envolvido com outra família, o que sempre causou conflitos ao longo da série. Outros importantes membros da família DiMeo são Bobby Baccala (Steve Schirripa), Vito Spatafore (Joseph R. Gannascoli) e Ralph Cifaretto (Joe Pantoliano), que vão surgindo e ganhando mais presença ao longo da série.

Quando «The Sopranos» estreou na televisão, Chris Albrecht, presidente da HBO Original Programming entre 1995-2002, foi enfático:

«A série é sobre um sujeito que está em torno dos seus 40 anos. Ele é herdeiro de um negócio que era do seu pai. Ele está tentando atualizar o modelo para os dias de hoje. Ele tem todas essas responsabilidades que vem desse ramo. Ele tem uma mãe superprotetora e com a qual ele ainda está tentando aprender a lidar. Ainda que ele ame sua esposa, ele tem um caso. Ele tem dois filhos adolescentes, e está lidando com a realidade disso tudo. Ele é ansioso; ele é depressivo; ele começa a ver uma terapeuta porque está em busca do significado de sua própria existência. (…) A única diferença entre ele e todo o resto do mundo é que ele é o chefe do crime organizado de New Jersey.»

Ao assistir a série de uma só vez, não é difícil notar o quanto da primeira até a sexta e última temporada, ela evoluiu. No primeiro ano, os personagens e a trama são caricaturas nítidas da máfia italiana nos Estados Unidos, e o telespectador é por vezes surpreendido com piadas e referências a filmes e histórias do gênero, para então, e somente a partir da segunda temporada, a série finalmente se tornar um trabalho mais distinto, estável e respeitável, mas que nem por isso não deixou de proporcionar momentos por vezes absurdos e risíveis.

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Primeira temporada

A série começa mostrando Tony Soprano tendo um colapso após sofrer um ataque de pânico, o que o leva a imediatamente começar um tratamento com a psicoterapeuta Jennifer Melfi que mesmo ao descobrir que ele é membro de uma importante facção do crime organizado, decide tê-lo como paciente.

No desenrolar do primeiro ano, são revelados detalhes da vida pessoal de Tony, e a influência de seu pai para sua integração no meio do crime organizado. Porém, é sua mãe que acaba ao final se revelando como o grande tormento na vida do mafioso. Vingativa e com distúrbio de personalidade, Livia é um peso na vida do filho, e não mede esforços para importuná-lo.

Os problemas de Tony com sua esposa, Carmela, também são explorados, assim como os sentimentos dela acerca do envolvimento do marido com a cosa nostra e seus casos de infidelidade. Meadow e A.J. completam o ciclo familiar como os filhos adolescentes que conhecem os negócios do pai.

No decorrer da primeira temporada, ainda, vemos que o FBI está investigando o crime organizado em New York e em New Jersey, e é revelado que alguém de dentro do ciclo de Tony estaria passando informações para os federais, o que causa um grande estresse na organização que, a despeito de ter Tony encarregado da maior parte de suas operações, tem seu tio Corrado nomeado o chefe da família DiMeo logo após a morte de Jackie Aprile Sr (Michael Rispoli), vítima de câncer.

O final da temporada é marcado por grandes reviravoltas quando não somente o estresse emocional de Tony volta com força total, como ele também descobre que alguém muito próximo a ele planejava seu assassinato, e uma pessoa importante da família acaba sendo presa pelo FBI.

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Segunda temporada

A segunda temporada começa com a saída de Richie (David Proval), irmão de Jackie Aprile, da prisão. Ele é incontrolável e insubordinável no ramo dos negócios, e começa um romance inusitado com a irmã de Tony, recém-chegada de Seattle. Big Pussy, um dos mais importantes integrantes do grupo de Tony, e seu homem de confiança, também volta depois de um tempo desaparecido.

Paralelamente, o relacionamento conturbado entre Christopher e sua namorada, Adriana (Drea de Matteo), é mais explorado, e os dois ficam noivos. Mas as coisas se complicam para o protegido de Tony quando ele se torna alvo de dois associados não satisfeitos com os negócios com a família Soprano, Bevilaqua (Lillo Brancato) e Gismonte (Chris Tardio), e um derramamento de sangue acontece.

Ainda, Junior, tio de Tony, e chefe da família, preso no final da temporada anterior, consegue prisão domiciliar enquanto aguarda julgamento. Embora ainda tenha problemas com o sobrinho, ao ser procurado por Richie com a proposta de matar Tony, resolve contar acerca das intenções do irmão de Aprile. A situação acaba sendo resolvida de uma forma totalmente inesperada quando, violento, Richie acaba tendo uma briga doméstica com Janice que acaba em tragédia.

O final da temporada é igualmente deleitável quando Tony, ao descobrir quem é o informante do FBI no seu grupo, resolve o problema no melhor estilo da máfia.

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Terceira temporada

O terceiro ano marca o retorno do ambicioso Ralph Cifaretto (Joe Pantoliano) após uma temporada em Miami, que toma o controle do grupo Aprile após o sumiço de Richie, apontando como o tal informante que supostamente entrou para o programa de proteção a testemunhas.

A insubordinação de Ralph a Tony, que vem sofrendo transtornos e alucinações desde os eventos do final da temporada anterior, causa instabilidade e tensão na família e nos negócios, e enquanto na vida pessoal Tony tem que lidar com a morte da mãe e o envolvimento de Meadow com drogas, seus associados só fazem besteira. Jackie Aprile Jr. (Jason Cerbone), não apenas namora Meadow, como também busca reconhecimento da família. É quando ele tenta roubar um carregamento inspirado numa história vivida por seu pai, Tony e Silvio, mas as coisas não saem como planejado. Ralph, após consumir muita cocaína, espanca uma pessoa até a morte na frente de todos. Furioso, Tony não pode fazer nada, pois com a morte de Gigi Cestone (John Fiore), Ralph acaba se tornando capo.

O final da temporada é marcado pelo conturbado, destrutivo e breve caso extraconjugal de Tony com Gloria Trillo (Annabella Sciorra), uma outra paciente de Jennifer Melfi, a qual acaba sendo vítima de um crime brutal na saída do seu consultório, e considera a hipótese de relatar o ocorrido a Tony a fim de uma retaliação quando a polícia não consegue resolver o caso.

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Quarta temporada

O quarto ano começa com a aposentadoria do detetive Barry Haydu (Tom Mason), o homem que matou o pai de Christopher, e ao qual Tony dá a oportunidade para matá-lo.

O chefe do crime organizado de New York, Johnny Sack (Vincent Curatola), é o acréscimo da temporada, e os problemas começam quando de uma desavença deste com Ralph, que ofende sua esposa. Tal provocação faz com que Sack peça autorização ao chefão Carmine Lupertazzi (Tony Lip) para apagar Ralph, mas este lhe recusa. Como Sack ordena a morte de Ralph, Tony recebe a ordem para matá-lo por insubordinação, mas uma reviravolta faz com que Sack reconsidere a ideia de retaliação, e o derramamento de sangue é evitado.

Nisso, Tony e Ralph começam a fazer apostas em corrida de cavalos, e quando o cavalo no qual apostam ganha diversas corridas, o que os faz ganhar muito dinheiro, um acidente com o filho de Ralph o faz tomar uma medida inesperada, e num acesso de raiva de Tony, a situação termina em tragédia.

O final da temporada é marcado pelo envolvimento de Christopher com drogas e a intervenção do grupo para que ele seja internado num centro de reabilitação; pela abordagem de Adriana por uma agente do FBI disfarçada que a obriga a fornecer informações sobre a máfia; pelo início de um envolvimento amoroso de Carmela com alguém do grupo de Tony; e pela proposta de Sack a Tony para matarem Carmine.

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Quinta temporada

Novos personagens entram em cena no quinto ano da série, como Tony B. (Steve Buscemi), primo de Tony que, assim como muitos outros mafiosos, sai da cadeia. Ele tenta recomeçar a vida honestamente, mas as coisas acabam não dando muito certo, e ele volta a trabalhar para o crime organizado.

Enquanto isso, Johnny Sack e Carmine Jr. (Ray Abruzzo) disputam o poder após a morte do chefão Lupertazzi, vítima de um derrame.

Separado de Carmela, Tony vai morar na casa de sua falecida mãe, e não sabendo lidar com o mau comportamento de A.J., ela manda o filho morar com o pai. Carmela passa ainda a se envolver amorosamente com Robert Wegler (David Strathairn), orientador de A.J., mas a relação não termina nada bem, e uma proposta de negócio de Tony a faz aceitá-lo de volta.

Meadow pede ao pai um emprego para seu namorado Finn (Will Janowitz), e ele o coloca para trabalhar numa das construtoras da família, administrada por Vito Spatafore (Joseph R. Gannascoli), mas uma situação totalmente inesperada o faz pedir demissão.

Presa depois de uma confusão na boate Crazy Horse, Adriana é novamente abordada pelo FBI, e forçada a usar grampo, ela sugere a hipótese de convencer seu noivo, Christopher, a cooperar para entregar Tony, o que possibilitaria a ambos um recomeço no programa de proteção a testemunhas. As coisas, no entanto, não saem como planejado.

O final da temporada é marcado por uma disputa entre famílias que faz Tony ser obrigado a executar uma pessoa bastante próxima dele a fim de evitar mais derramamento de sangue em seu grupo, enquanto Christopher volta a mergulhar nas drogas, e uma inesperada batida policial na casa de Johnny Sack que quase acarreta na prisão de Tony.

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Sexta temporada

Senil e confuso, Junior atira em Tony no começo da sexta temporada. Mergulhado em coma profundo, Tony tem um sonho revelador, que o faz, após se recuperar, tentar organizar sua vida. Mas de volta aos negócios, acaba enfrentando mais e mais problemas.

A temporada é marcada ainda pela queda de Johnny Sack, que depois de preso, consegue autorização para comparecer no casamento da filha, quando todos os principais capos do crime organizado estão presentes. Após a festa, escoltado por agentes do FBI, Sack tem um momento de fraqueza que o faz perder totalmente o respeito junto aos associados.

Enquanto isso, rumores acerca da vida pessoal de Vito Spatafore começam a se espalhar, comprometendo sua segurança. Meadow revela a Tony o incidente presenciado por seu ex-namorado Finn, que numa reunião com todo o grupo conta o que viu na construtora e que o fez pedir demissão. Vito foge e tenta começar uma vida nova, mas quando decide voltar, acaba se tornando o pivô de uma guerra entre famílias.

Em casa, as coisas não poderiam estar piores para Tony. A.J. termina o relacionamento com a noiva, e mergulha em profunda depressão, e Jennifer Melfi, acreditando que Tony não está fazendo progresso algum, e que ele está usando a terapia para seu próprio benefício sociopático, decide interromper definitivamente as sessões.

Na cadeia, Johnny Sack morre vítima de câncer no esôfago, e Leotardo (Chris Caldovino) consolida seu poder na família Lupertazzi, e quanto Tony tem problemas com Phil (Frank Vincent), todo o grupo dos Sopranos tem a cabeça colocada a prêmio, e os eventos que sucedem são dignos de «The Godfather».

The Sopranos (P621) "Made In America"

O fim 

Se você ainda não assistiu a série, recomendo que não leia os parágrafos a seguir.

Quanto ao controverso final do último episódio, embora muito se tenha especulado a respeito e, aliás, a série sempre foi alvo de diversas especulações e teorias, inclusive a julgar pelas fotos promocionais divulgadas a cada início de nova temporada, David Chase declarou que jamais foi sua intenção terminar a série de forma abrupta e ambígua, ou mesmo fazer a audiência sofrer por uma explicação. Contudo, seu silêncio, na época, permitiu a vários telespectadores interpretarem o que bem quisessem, e se Tony morreu ou não naquele instante final em que a tela escureceu existem até mesmo sites, artigos e vídeos explicativos que defendem a teoria da sua morte.

Anos depois da series finale, o criador da série reportou que seu objetivo, naquele exato momento, era mostrar que Tony retomava as rédeas de sua vida e se reconectava com sua família para finalmente ser feliz, e o final abrupto nada mais foi do que a deixa de algo que não veríamos, e que poderia muito bem ser o recomeço para o protagonista. Claro, isso pode ter sido uma tentativa de David Chase mudar o que de fato pretendia, já que anos depois não descartava a hipótese de um longa-metragem no intuito de dar sequência à série. Infelizmente, com a morte precoce de James Gandolfini, podemos considerar como encerrada a saga da família Soprano, a qual se tornou um marco na televisão e a eternização da grande obra do excelente ator que James Gandolfini um dia foi, deixando para sempre no ar a livre interpretação da última cena da série.

Para matar as saudades, segue abaixo um vídeo com uma das melhores cenas dos últimos episódios, e que mostra o quanto o ator James Gandolfini conferiu humanidade ao personagem Tony Soprano:

Abaixo, um vídeo tributo à série:

E, por fim, última cena da series finale seguida de um vídeo explicativo feito por um fã com as pistas que defendem a teoria de que Tony Soprano foi vítima de um ardil:


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