Review do episódio final de Breaking Bad

Felina, último episódio de Breaking Bad, referência a canção El Paso, de Marty Robbins, e anagrama de finale, encerra uma das mais importantes contribuições para a teledramaturgia mundial e reafirma o poder da nova e mais bem sucedida fase da televisão.

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Recapitulação da series finale

No teaser, depois dos acontecimentos em Granite State, vemos Walter (Bryan Cranston) em New Hampshire logo após telefonar para Flynn (RJ Mitte) e para o escritório do DEA na tentativa de se entregar. Ele está em um carro coberto de neve, e carros da polícia passam por ele, sem notá-lo. Na tentativa de fazê-lo funcionar, ele então encontra as chaves.

Já bastante próximo do sudoeste do país, enquanto abastace o carro num posto de gasolina, Walt telefona para o escritório de Gretchen (Jessica Hecht) e Elliott Shwartz (Adam Godley), seus ex-sócios na Gray Matter, apresentando-se como um jornalista do New York Times na tentativa de agendar um horário com os dois. Sem muito esforço, e com a simpatia que lhe é peculiar, ele consegue o endereço do casal.

À noite, Gretchen e Elliott chegam em casa. Walt os espera do lado de fora. O casal entra, conversando animadamente, e Walt entra logo depois sem ser percebido. Quando finalmente surpreende Gretchen, o químico elogia a nova morada, a vista, e confrontado por Elliott, informa que os viu no The Charlie Rose Show, e que está ali para lhes entregar algo. Ele os faz ir até seu carro, e entrega a eles cerca dos $9,7 milhões em dinheiro que sobrou, e diz que eles devem entregá-lo a Flynn dentro de alguns dias, quando o rapaz completa 18 anos. Walt explica que não pode entregar pessoalmente porque a família o odeia e não quer saber do dinheiro, o qual deve ser entregue como doação, e quando o casal concorda para se ver livre dele, ele gesticula de modo que sinalizadores infravermelhos apareçam apontados contra eles. Walt explica que pagou $200,000 para dois dos maiores assassinos do Estado para vigiá-los até que cumpram o acordo.

Na sequência, Walt estaciona o carro, e dois homens mascarados entram no veículo. São Badger (Matt Jones) e Skinny Pete (Charles Baker), com sinalizadores laser, e que fizeram Gretchen e Elliott acreditar que estão sob vigilância. Ele lhes entrega o dinheiro combinado, e pergunta sobre a metanfetamina azul que está sendo vendida nas ruas, ao que os dois ficam surpresos quando descobrem que a mesma não é fabricada por Heisenberg devido ao seu padrão de pureza. Walt então descobre que é Jesse (Aaron Paul) que a está produzindo.

Enquanto isso, Jesse aparece trabalhando em um estúdio. Ele está construindo uma caixa de madeira, a mesma que mencionou em uma de suas sessões nos narcóticos anônimos. Concluído, o trabalho, porém, a cena muda e ele aparece acorrentado enquanto cozinha metanfetamina para o grupo de Jack (Michael Bowen).

Cenas do primeiro episódio da segunda metade da temporada aparecem, com Walt chegando ao Novo Mexico após comprar armas de Lawson (Jim Beaver), e quando ele entra em sua casa abandonada para pegar o veneno de ricina escondido na tomada do quarto. Ao passar pela sala de estar pela última vez, ele lembra da cena no episódio piloto da série, quando Hank (Dean Norris) comemora uma grande apreensão em dinheiro de tráfico, e sugere ao cunhado acompanhá-lo a uma batida.

Mais tarde, vemos Lydia (Laura Fraser) e Todd (Jesse Plemons) se encontrarem na cafeteria. Walt, que já estava por ali, aproxima-se dos dois e puxa uma cadeira. Ele diz que os encontrou porque conhece a rotina de Lydia, e explica que descobriu uma nova forma de produzir metanfetamina sem metalamina. Walt revela que está sem dinheiro, e oferece sua receita por $1 milhão. Todd não se mostra interessado, mas Lydia informa que Jack precisa saber da proposta, e fica combinado de Walt os encontrar à noite. Quando o químico sai, ela diz a Todd que ele deverá dar um jeito nele, e então despeja no chá o único envelope de adoçante que havia na mesa.

No meio do deserto, Walt aperece trabalhando em um mecanismo de disparo automático ativado pelo controle das chaves do carro.

Na sequência, Marie (Betsy Brandt), que ainda tem a casa vigiada, telefona para Skyler (Anna Gunn), e informa que Walt está na cidade. Ela informa que o carro dele foi visto em frente à casa onde moravam, e que ele inclusive falou com a vizinha. As duas desligam, e vemos que Walt estava o tempo todo na cozinha da nova casa de Skyler. Ele informa que está ali para uma despedida mais apropriada, e entrega o bilhete de loteria com as coordenadas de onde estão enterrados Hank (Dean Norris) e Steve (Steven Michael Quezada). Walt admite que não matou Hank, e que ninguém mais irá prejudicar sua família. Por fim, ele confessa que tudo o que ele fez foi por ele mesmo, porque ele gostava, era bom, e porque ele se sentia vivo. Ele então pede para ver Holly mais uma vez, e antes de partir, vê Walter Jr de longe, chegando em casa.

No esconderijo de Jack, Kenny (Kevin Rankin) recepciona Walt, que estaciona em frente à casa. Ele é revistado, e tiram dele a carteira e as chaves do carro. Antes que Walt comece a explicar o novo negócio que pretender propor, Todd lhe pede desculpas e Jack dá ordens para que o matem. O químico então protesta, e diz que Jack ainda lhe deve, pois não matou Jesse conforme combinado, tendo inclusive se tornado seu parceiro na produção da metanfetamina. Contrariado, Jack ordena que tragam Jesse.

Enquanto esperam, Walt consegue recuperar suas chaves. Quando Jesse finalmente aparece com pés e mãos acorrentados,  o químico se lança contra ele, e aperta o botão do controle das chaves, ao que o porta-malas do seu carro se abre e a metralhadora se ergue por meio do aparato automático por ele construído no deserto, disparando incessantemente contra a casa através das janelas, acertando a todos, exceto Walt e Jesse, que estão no chão, e Todd, que consegue se proteger rapidamente.

Quando os disparos cessam, Todd se levanta e vai até a janela. Walt se desvencilha de Jesse, que se ergue e mata Todd esganando-o por trás com as algemas. O químico então se aproxima de Jack, que, ferido, resteja-se pelo chão. Enquanto Walt o mata com uma arma que encontra ao lado, Jesse se livra das algemas. Parados, frente a frente um do outro, Walt então se inclina e coloca a arma com a qual matou Jack no chão. Ele a chuta em direção a Jesse, que a pega, e diz a ele para matá-lo, pois sabe que é o que ele quer. Jesse então grita para que ele peça, porque é o que ele quer. Walt admite que quer, e quando Jesse vê que ele está gravemente ferido no abdôme, diz para ele mesmo fazê-lo e vai embora.

Ferido, Walt caminha lentamente para fora da casa atrás de Jesse, não sem antes pegar o telefone celular de Todd, que toca incessantemente. É Lydia, e ela pergunta, acreditando se tratar de Todd, se eles terminaram com Walt. O químico responde, dizendo que ele terminou com todos, e então pergunta se ela sente como se estivesse gripada, e explica que a envenenou com ricina no lugar o adoçante que ela colocou em seu chá na cafeteria. Ele então desliga e joga o aparelho longe.

Jesse se vira antes de entrar no carro para vê-lo pela última vez, e então entra no veículo e sai arrebentando a cerca da propriedade.

Walt caminha lentamente pelo lugar, e entra no laboratório. Ele toca uma das caldeiras onde era produzida a metanfetamina por Jesse, e vários carros da polícia se aproximam do local. No reflexo da caldeira, vemos o químico cair ao chão. Policiais armados se aproximam do corpo sem vida de Walt, e o episódio acaba.

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Conclusão e o que a série representou

E eis que o mal chega ao fim.

Em uma análise geral, é muito mais complexo dizer o que Breaking Bad significou em termos de produção televisiva. Quando se fala na saga de Walter White, ou de como Mr Chips se transforma em Tony Montana, tal como Gilligan insiste chamar sua obra-prima, não se trata aqui de dizer que ela foi uma mera série de TV, mas sim, da consolidação da terceira era de ouro da televisão.

Inaugurada com The Sopranos, série da HBO que recebeu não apenas inúmeros prêmios e reconhecimento, como o merecido status de a mais bem escrita produção para a televisão pelo Writers Guild of America, as produções televisivas nos Estados Unidos alcançaram um novo nível, e Breaking Bad foi talvez seu maior grande representante.

Na sequência da saga da Família Soprano, veio ainda The Wire, também da emissora de propriedade da Time Warner, e um novo formato de série de sucesso estava definido, de modo que a emergente AMC entendeu o recado, e com a mesma fórmula, trouxe ao público Breaking Bad e Mad Men.

Não é difícil de notar que juntas, essas quatro grandes séries, todas apontadas pelo Writers Guild of America como das mais bem escritas de todos os tempos, são produções infinitamente superiores a várias das mais recentes obras cinematográficas. Tal fato provavelmente se justifica por diversos fatores, como o tempo que uma série tem para o desenvolvimento de uma história e de um personagem com o envolvimento contínuo de uma equipe de roteiristas, que também não faz vista grossa para a opinião do público, em contrapartida a um longa-metragem. Isso, no entanto, não afasta o brilhantismo com que essas quatro séries televisivas abordaram seus personagens, elevando-os a um novo patamar, e provocando outras emissoras como Showtime e Starz, a igualmente lançar produções originais protagonizadas por personagens ambíguos.

Mas o que The Sopranos, The Wire e Mad Men tem em comum, Breaking Bad vai mais além. Se Tony Soprano (James Gandolfini) e Don Draper (Jon Hamm) são produtos do meio, e seus excessos se justificam por aquilo que efetivamente representam, e seus estilos de vida não são uma opção, enquanto The Wire traz à tona a realidade nua a crua, Walter White teve escolha.

No caso, vítima das circunstâncias, Walt optou chutar o balde, e quando se transformou gradativamente em anti-herói no curso das quatro primeiras temporadas, seus atos, totalmente justificáveis sob o olhar atento do telespectador, nada mais representaram do que o resultado de suas próprias decisões. Num determinado momento, porém, ele tomou gostou e se excedeu, tornando-se assim o vilão inescrupuloso que fez o público se sentir até mesmo constrangido por algum momento no início da série apoiá-lo ou torcer por ele.

Aliado a isso, tivemos Bryan Cranston, um ator de desenvoltura implacável, que soube personificar com maestria Walter White, e que, diferentemente de Tony Soprano, Don Draper, e tantos outros, mantém-se constante na linha de raciocínio da série, que é tornar-se mal e gostar do que faz, tal como finalmente admite à esposa na última e grande cena do ator com Anna Gunn. E é assim que Breaking Bad se define, como a história de um homem que segue firme no seu propósito de não cometer os mesmos erros do passado, e que ingressa no mundo do crime com fins de prover sua família, contaminando-se cada vez mais com o meio no qual foi inserido, e pior: aprendendo a gostar daquilo que se tornou.

Temos então o sujeito que evolui como um ser extremamente cruel, pouco se importando com as pessoas atingidas por seus atos, de modo que o telespectador, que acompanhou lentamente essa transformação, tem como plausível o horror em forma de reação de Jesse Pinkman quando este descobre, no início da segunda metade da quinta temporada, no que o bom e pacato professor de química se tornou, e que mesmo assim chega em casa e, cinicamente, incorpora a figura do homem de família sem qualquer remorso.

A jornada de Walter White foi tão deleitável quanto angustiante, e talvez pela primeira vez em muito tempo, os telespectadores torceram para que acabasse logo de modo a conferir como terminaria, e até que ponto o personagem chegaria na sua transformação. Depois do episódio de ontem, podemos ter a real certeza de que o mal nunca foi tão bom como anunciado pela emissora após sua transmissão, e que a televisão certamente nunca mais será a mesma.

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