Review do episódio final de Dexter

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«Dexter» chega ao fim, exatamente como previsto: com uma sensação amarga de que James Manos Jr. não apenas errou a mão nas duas últimas temporadas, como lamentavelmente deixou a série seguir como um trem descarrilado a beira de um precipício em seus últimos episódios, já que os fãs que acompanham a saga do analista de manchas de sangue do Miami Metro desde o começo mal o reconhecem após oito temporadas. Podemos até mesmo dizer que se um dia o personagem Dexter Morgan vai ser lembrado como um dos símbolos de uma geração televisiva de novos e apaixonantes anti-heróis que conquistaram um público seleto de fãs em busca de um ícone incomum, fica a certeza de que será apenas por seu triunfo frente ao pequeno rol de antagonistas que o fizeram mostrar seu melhor e pior ao longo da série, e não por sua suposta tentativa de autodestruição ao negar o que ele realmente é. Mas na busca de uma forma de redenção, Manos proporcionou uma sequência final no mínimo interessante, e inequivocadamente controversa.

A series finale começa mostrando Dexter (Michael C. Hall) e Harrison (Jadon Wells) chegando ao aeroporto onde embarcarão para a Argentina. Hannah (Yvonne Strahovski) então telefona para seu celular e informa que está no banheiro feminino, escondida de Jacob (Sean Patrick Flanery), que tenta infrutiferamente tentar entrar em contato com Cooper (Kenny Johnson), ao passo em que está à espreita da loira. Dexter o avista na sala de embarque, e prepara uma bolsa e a deixa no saguão. Ele então informa um dos funcionários que viu Jacob deixar a bolsa e sair, o que entende ser uma atitude suspeita. Os seguranças do aeroporto são acionados, os voos são cancelados, mas Jacob é levado pelas autoridades e Hannah consegue sair com Dexter.

A caminho do hospital, após ser baleada ao final do episódio anterior, Deb (Jennifer Carpenter) implora a Batista (David Zayas) que não contate Dexter, sabendo que ele está a caminho de sair do país. Ao ser levada ao centro cirúrgico, Deb declara seu amor por Quinn (Desmond Harrington), e Matthews (Geoff Pierson), contrariando a orientação de Batista quanto ao pedido de Deb, entra em contato com Dexter, que está a caminho do hotel, e informa que ela foi baleada por Oliver Saxon (Darri Ingolfsson).

Enquanto isso, por conta de uma tempestade que se aproxima, pessoas correm frenéticas para os mercados, e aproveitando-se da situação, Saxon, que foi baleado por Deb no braço, rouba um caminhão e invade uma clínica para animais, onde obriga um veterinário (Eric Ladin) a suturar sua ferida.

No aeroporto, Jacob é liberado pelas autoridades, e ao novamente tentar entrar em contato com Cooper em seu escritório, descobre que ele morreu num tiroteio.

No hospital, Dexter encontra Deb, e ela parece otimista em relação à sua recuperação. Ele então informa que não deveria ter deixado Saxon vivo, e ela ordena que ele vá embora e deixe que a polícia o encontre. Os dois assumem a responsabilidade por erros que cometeram no passado um em relação ao outro, mas ao perceber que a irmã parece bem e o quer longe o mais depressa possível, Dexter decide partir.

Na saída do hospital, Dexter esbarra em Jacob, que questiona a situação de Deb, para então depois sugerir se ele está com pressa para encontrar com Hannah. Dexter o confronta, e Jacob informa que ele é em parte responsável pela morte de Cooper e o que aconteceu com Deb.

No hotel, ao notar que Dexter está preocupado com Deb, Hannah sugere que ela vá antes para a Argentina com Harrison, e que ele os encontre depois. Sem hesitar, ele concorda, e os acompanha até um ônibus que os levará até Tallahassee, onde pegarão outro avião para a América do Sul, evitando assim qualquer cerco de Jacob em Miami.

Saxon vê a notícia de que Deb sobreviveu ao tiro que levou, e obriga o veterinário a levá-lo até o hospital onde ela está. Na emergência, o veterinário chama a atenção de todos quando entra cuspindo sangue. Saxon arrancou-lhe a língua, e enquanto todos ficam horrorizados com o que veem, ele entra na ala de recuperação sem ser visto.

Dexter também chega ao hospital, e ao notar o tumulto na recepção, tem a certeza de que Saxon está lá, e que pretende ir atrás de Deb. Ele vai em direção ao quarto da irmã, onde não há policiais em vigilância conforme prometido por Matthews, e encontra Saxon armado. Os dois partem para cima um do outro, mas Saxon é surpreendido por Batista, que aparece de repente e aponta uma arma contra sua cabeça. Quinn e outros policiais aparecem, e ele é algemado e levado preso.

Desesperado ao notar que Deb não está no quarto, Dexter alcança Quinn pelos corredores. Ele está aos prantos, e diz que algo aconteceu de errado, e que Deb teve uma parada respiratória e foi levada ao centro de tratamento intensivo. Os dois vão até onde ela está, e a médica revela a Dexter que um coágulo causou um derrame, e de acordo com a atividade cerebral de Deb, a situação é irreversível, de modo que mesmo que sua situação se estabilize, ela irá se tornar um vegetal.

Nisso, Dexter tem um flashback de quando Harrison nasceu, e ele e Deb foram até a ala da maternidade para encontrá-lo. Ele está apreensivo, e não sabe como lidar com a situação, revelando à irmã temer a hipótese de não ser um bom pai. Deb então lhe diz que ele será um ótimo pai, porque sempre foi um ótimo irmão para ela, fazendo-o se lembrar dos monstros que ela achava que se escondiam em seu quarto, e que dá título ao episódio.

No ônibus a caminho de Tallahassee, Hannah conta histórias da Argentina para Harrison, que acaba adormecendo, quando então alguém toca em seu braço. É Jacob. Ele está sentado na poltrona ao lado, e informa que um de seus contatos o levou até ela, e que na próxima parada ele a levará para as autoridades, enquanto Harrison será conduzido para a um centro de menores.

Na delegacia, Dexter assiste Batista e Quinn interrogarem Saxon, mas ele informa que não irá dizer coisa alguma até falar com seu advogado. Quinn perde a cabeça, e o agride. Batista coloca Quinn para fora, mas também é severo com Saxon, revelando não ter dúvidas de que ele pegará a pena capital pelos crimes que cometeu.

No ônibus a caminho de Tallahassee, Hannah oferece chá a Jacob, que ri e recusa, e ela então aplica uma injeção com tranquilizante em sua perna e que se encontrava na mochila que lhe foi deixada por Dexter, informando que ele vai adormecer por várias horas.

Mais tarde, Dexter vai até a ala prisional, e informa estar ali para coletar glândulas subcutâneas de Saxon. A autoridade competente o autoriza entrar, entregando-lhe uma campainha para o caso de precisar de ajuda, e Dexter entra na cela de Saxon. Sentados à frente um do outro, Dexter revela que gostaria de responsabilizá-lo pelo que aconteceu a Deb, mas admite que é tudo culpa sua. Ele então informa que a atitude de Saxon o fez olhar para si e reconhecer o que é, e decide que não pode ter uma vida feliz, ao que anuncia que vai matá-lo com a caneta que deposita sobre a mesa. Sem hesitar, Saxon pega rapidamente a caneta e desfere um golpe com a mesma contra Dexter, que rapidamente a arranca do peito e a afunda na jugular de Saxon, para então depois acionar a campainha.

Instantes mais tarde, na sala de interrogatório, Batista e Quinn veem a gravação do ocorrido na cela de Saxon, e embora Batista questione o que Dexter fazia lá a despeito de tudo o que aconteceu com Deb, os dois concluem que foi legítima defesa, e autorizam sua liberação.

A tempestade se aproxima de Miami, e Dexter vai até o hospital onde Deb está em observação. Todos os pacientes estão sendo realocados para outro lugar, e ele entra sem se fazer notado no quarto de sua irmã. Ele a toca no braço, pede desculpas por tudo, e diz que como o bom irmão que ela acreditava que ele fosse, não pode deixá-la viver daquela forma. Ele então diz que a ama e desliga os aparelhos, para então aguardar seus sinais vitais cessarem. Quando Deb finalmente morre, sem se fazer percebido, ele a leva até seu barco.

Em alto mar, Dexter telefona para Hannah, que lhe confirma que ela e Harrison estão a caminho da Argentina, e que tudo correu conforme planejado. Ao falar com Harrison, Dexter declara seu amor pelo filho, e depois desliga. Ele joga o telefone no mar, e logo em seguida, também Deb. Olhando em direção à tempestade, ele conclui ser responsável por destruir a vida de todos que amava, e que precisa proteger Hannah e Harrison dele mesmo, de modo que conduz o barco em sua direção à tormenta que se aproxima.

Após a tempestade, destroços do Slice of Life são encontrados pela guarda costeira, e Batista é informado na delegacia que o barco de Dexter foi encontrado sem sinal de sobreviventes em alto mar.

Em um café na Argentina, Hannah e Harrison fazem um lanche, e ela vê uma notícia na Internet acerca do desaparecimento de Dexter em alto mar. Ela derrama uma lágrima, e leva Harrison para tomar um sorvete.

Algum tempo depois, numa reserva madeireira em algum lugar não identificado, Dexter aparece como um caminhoneiro. Ele está com barba longa, e entra no que parece ser uma cabana alugada. Ele se senta à mesa, e a série termina com o personagem olhando fixamente para a câmera.

De fato, Dexter não poderia se dar ao luxo de um final feliz. O telespectador sabia disso, o próprio personagem sabia disso. Além do mais, a acurácia do assassino em série que é Dexter, a qual foi tão bem explorada na primeira temporada, acabou se tornando deficiente a cada conflito pessoal havido em sua vida e mostrado ao longo dos oito anos de série. O rompimento gradativo com os ensinamentos de Harry (James Remar) a cada concessão feita por Dexter ao longo de sua jornada o afastaram do serial killer tal como inicialmente concebido. E o que o diferenciava e o tornava tão perfeito e especial era justamente sua moralidade, mas a mesma que o fazia ter dúvidas.

Quando confrontado sobre a verdade a respeito de seu passado, bem como de algumas mentiras ditas por Harry e da existência de Rudy (Christian Camargo), seu irmão e primeiro grande nemesis enfrentado, ele precisou escolher entre sua natureza e a vida de Deb, a pessoa com a qual foi criado por Harry como sua irmã. Logo depois veio Trinity (John Lithgow), que surgiu para fazê-lo considerar um futuro mais sombrio, o de um psicopata de meia-idade que mascara uma vida de assassinatos como um bom homem de família, e sua incursão para a tentativa de uma vida normal acabou em tragédia pessoal. «Doomsday» (Colin Hanks e Edward James Olmos), por seu turno, fez Dexter questionar seu lado bom, tornando-o apto a controlar seu dark passenger com os conselhos de Brother Sam (Mos Deaf), e fez o personagem enfrentar o maior grande e mais temível dilema de sua vida: a descoberta da verdade por Deb.

Mas nem só de grandes vilões foram os percalços de Dexter. Em sua investida no mascaramento de uma vida dupla, ele enfrentou as desconfianças de James Doakes (Erik King) e de Maria LaGuerta (Laura Vélez), e, como dito, num momento ápice, sua relação com a irmã foi colocada em xeque quando ela finalmente descobriu a verdade a seu respeito, e talvez o tenha descoberto muito cedo, conferindo duas temporadas inteiras com Deb sabendo a verdade de Dexter e que tornaram as coisas cansativas e enroladas demais, para não dizer sofríveis, quando tudo poderia ter se resolvido no último ano. Mas se só o fato de Dexter ter consciência, a mesma projetada na imagem constante de Harry, já tornava especial e diferente em contrapartida a qualquer outro psicopata, a presença de Deb também se prestou para lhe trazer equilíbrio entre sua natureza e seu código de conduta moral, possibilitando-o até mesmo experimentar um pouco de felicidade quando o personagem se considerou apto ao que acreditava ser uma vida normal ao lado de Rita (Julie Benz) e Lumen (Julia Stiles). Quando perdeu as duas, Hannah pareceu a escolha mais improvável, mas a contragosto de sua irmã, a única com a qual ele poderia realmente considerar uma vida totalmente desprovida de segredos e mentiras.

Por fim, Evelyn Vogel (Charlotte Rampling) surgiu na vida de Dexter como figura materna, aquela que não vê os defeitos do filho, e que, ao contrário, eleva seu ego projetando suas imperfeições como algo nitidamente especial.

A despeito de tudo pelo qual Dexter passou e viveu, ainda assim não foi nem Harrison ou mesmo Hannah e Evelyn as pessoas que o fizeram olhar para dentro de si e enxergar o que ele sempre foi. Antes deles, e de qualquer outro, havia Deb, e sempre ela. E ao longo de cada episódio, e de todas as temporadas, Deb sempre foi a pessoa capaz de fazê-lo encontrar o equilíbrio entre a razão e a emoção – superando os anseios de seu dark passenger em contrapartida à moralidade e humanidade crescentes do personagem. Era Deb, ainda, aquela que, na ausência de uma consciência que o fazia remontar aos ensinamentos de Harry na visão de seu pai adotivo, conduziu-o por um caminho nebuloso, e tortuoso, até finalmente descobrir quem de fato era o seu maior inimigo: ele mesmo.

Assim, ao reconhecer não ser digno de um final feliz, Dexter decidiu tomar uma atitude. Não, ele não resolveu romper com tudo e com todos tirando sua própria vida para protegê-los. Ele viu seu futuro projetado numa tela em branco na qual não haveria mais Deb, a única pessoa que, ao mesmo tempo em que conferia coerência aos ensinamentos de Harry para que ele pudesse viver livremente de acordo com sua natureza, era também aquela capaz de aproximá-lo da humanidade, sempre o fazendo lembrar quem ele era: um psicopata diferente de qualquer outro. Sem ela, ele não seria jamais o mesmo, mas apenas e tão somente a arma perfeita como anunciado por Evelyn Vogel no segundo episódio da temporada, capaz, portanto, de se perder em si mesmo, independentemente de Hannah e Harrison a seu lado, permitindo a ascensão triunfal de seu dark passenger, o qual jamais deixou de existir.

Se Dexter acreditou ser capaz de não ser o que ele é ao longo da última temporada ao considerar um futuro feliz ao lado de Hannah, e por fim enxergar tal hipótese como inviável e inaceitável para si, havia ainda uma opção, a menos convincente, mas a mais racional: entregar-se, ou se deixar ser descoberto. E talvez ele tentou se valer dessa possibilidade quando assassinou Saxon em sua cela, e encenou uma legítima defesa que acabou sendo aceita por Quinn e Batista como plausível. Por outro lado, talvez o instinto de sobrevivência do psicopata falou mais alto, e embora ele parecesse pouco se importar em ser descoberto, agiu como a arma perfeita tal como foi programado. Não bastasse isso, ele encerrou o destino de Deb, e roubou seu corpo do hospital para então jogá-lo ao mar, invisível, não se fazendo notar como o ninja que sempre foi. E por que jogá-la ao mar? Simbolismo: ela simplesmente foi sua última vítima.

Não bastasse, ele decide se atirar contra uma tempestade que se aproxima. Sinal de fraqueza? Desistência? Dexter é um sobrevivente, e isso não tem nada a ver com sorte. É sua natureza, sua sina, e ele vai eternamente entrar em conflito com ela, com o que ele realmente é em contrapartida à sua moral, aquilo que acredita ser o certo, e que sempre foi alimentado por Deb, a qual não está mais lá para ser ela a grande irmã capaz de fazê-lo colocar os pés no chão. Sem esse lado, sem Deb, Dexter é definitivamente seu dark passenger, e precisará criar ele mesmo novos laços com aquilo que é aceitável dentro da moralidade humana. Seu lado bom o fez se lançar contra a tormenta, mas sua natureza o permitiu mais uma vez sobreviver.

Verdade seja dita: o final é deveras controverso, e embora considerado não muito digno ao personagem por alguns fãs que viram nas duas últimas temporadas o personagem se esvair em sua concepção inicial, fica ao menos a boa e velha fórmula que outrora funcionou tão bem em finais de outras séries de sucesso: o da livre interpretação.

Portanto, se Dexter está agora desmemoriado ou não depois do acidente em alto mar indo parar em lugar incerto e não sabido, se ele é o que sempre foi ou não, se algum dia ele voltará a matar usando o código de Harry ou não e dentro daquela cabana há uma caixa com lâminas de sangue guardadas em algum lugar ou qualquer outra forma de troféu, e se ele vai tentar ir atrás de Hannah e de Harrison ou não, nunca saberemos. O que fica? Apenas e tão somente a certeza de que o personagem em sua essência plena poderá sempre ser encontrado nos romances de Jeff Lindsay, enquanto a versão de James Manos Jr. confere mais humanidade do que jamais poderia ser conferida a um serial killer como Dexter Morgan, que ganhou empatia do público não apenas por seus atos como pela excelente performance de Michael C. Hall, dando azo ainda, e por que não, a uma possível spin off. Afinal, Dexter está vivo, e conhecendo como o conhecemos, a despeito de todos os percalços, ele é e sempre será o assassino em série com diferentes padrões.

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