Roma : dica de série

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«Roma» é uma co-produção britânico-americana para a televisão criada por Bruno Heller, William J. MacDonald e John Milius, e transmitida entre 2005 a 2007 pelos canais BBC e HBO, que conta a história da Roma Antiga a partir do ano de 52 a.C. e sua transição de República para Império Romano.

Com adaptação de época e cinematografia impecáveis, e maioria das filmagens externas realizadas na Cinecittà Studios, na Itália, a série de apenas duas temporadas e vinte e dois episódios, marcou o início do que seriam as grandes produções televisivas de época repletas de cenas de sexo e violência extrema explícitas, e retrata os acontecimentos históricos a partir da conquista da região da Gália por Julio Cesar (Ciarán Hinds) até a queda da República e a fundação do Império, com a ascensão de Octaviano (Max Pirkis na primeira fase, e Simon Woods na segunda).

A despeito da acurácia histórica na maioria dos acontecimentos havidos na trama, a série se permitiu representar livremente vários outros eventos e personagens, obviamente por falta de registros ou mesmo com fins de romantização, uma vez que, tal como ponderado pelo seu próprio criador, Bruno Heller, a intenção era «promover o balanço entre o que as pessoas esperam e uma aproximação natural», portanto, «Roma» nada mais era do que a exploração do psicológico dos personagens que marcaram a história frente aos acontecimentos nos quais estavam implícita e explicitamente envolvidos, e não apenas recontar os fatos de forma fidedigna, caso contrário estaríamos diante de apenas mais um documentário do History Channel.

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A ousadia proposta em «Roma» possibilitou ainda o aprofundamento de dois personagens em específico, que a despeito de figuras igualmente históricas mencionados brevemente na obra «Commentarii de Bello Gallico» de autoria do próprio Julio Cesar sobre as batalhas gálicas, estão presentes em vários outros acontecimentos mostrados na série, fator esse evidentemente fictício e com provável intuito de promover uma narrativa em terceira pessoa e na qual esses dois centuriões na hierarquia militar romana se tornam coadjuvantes em alguns dos mais marcantes eventos que fizeram história. São eles: Lucius Vorenus (Kevin McKidd) e Titus Pullo (Ray Stevenson).

Embora a série não mencione outras extensões das famílias de Gaio Julio Cesar, Marco Antonio, excelentemente interpretado por James Purefoy, e Attia Balba, denominada na série como Attia de Julii (Polly Walker), a manipuladora sobrinha de Julio Cesar e mãe de Octaviano Augustus, e não cubra eventos como a Batalha de Dyrrhachium, considerada uma vitória de Pompeu, e a Batalha de Pharsalus, na qual Cesar conduziu o suporte de Pompeu para fora da Grécia, e também não mostre outros muitos significantes membros dos Optimates, a série cumpre bem sua finalidade, qual seja, abranger importante parte dos acontecimentos históricos da Roma Antiga de forma instigante, fascinante, sensual e divertida.

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Os doze episódios da primeira temporada cobrem os acontecimentos entre os anos 52 e 44 a.C., e tem início com a vitória de Julio Cesar na Batalha de Alésia e vai até o momento do seu assassinato. Roma, metrópole cosmopolita com um milhão de habitantes, é retratada com precisão no que diz respeito à cultura, aos costumes e às crenças. Mas a República Romana, fundada sob os princípios da divisão do poder, começa a ter seus alicerces abalados por conta de uma feroz competição individual pelo controle absoluto, somado ainda a abusos e corrupção promovidos nos bastidores da política. E é basicamente esse o cenário do primeiro ano da série.

Ciarán Hinds interpreta Julio Cesar de forma soberba, e empresta toda sua simpatia ao homem e ao mito. Notadamente, um dos melhores momentos da série na primeira temporada acontece justamente nos seus momentos finais, quando nos Idos de Março, numa reunião no senado, Julio Cesar é assassinado por um grupo de senadores que acreditavam agir em defesa da República, dentre os quais seus antigos protegidos, Marco Júnio Bruto (Tobias Menzies) e Caio Longino Cássio (Guy Henry).

Paralelamente, temos as sub-tramas envolvendo os sempre impagáveis Lucius Vorenus e Titus Pullo. Depois de servirem oito anos o exército romano na Batalha pela Gália, os dois centuriões voltam para casa e querem apenas uma nova chance para recomeçar a vida. Enquanto Vorenus tem que lidar com os mistérios que envolvem sua esposa Niobe (Indira Varma) e um suposto neto, e Pullo descobre que não tem lugar no mundo para ele que não em meio aos campos de batalha, os dois acabam novamente cruzando caminhos e se envolvem direta e indiretamente nas conspirações que conduzem ao desfecho da primeira temporada.

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A segunda temporada da série cobre os acontecimentos a partir da morte de Julior Cesar até a ascensão de Octaviano após a eclosão de uma guerra civil que culmina no fim da Roma Antiga com a queda da República e a fundação do Império Romano. Assim, os dez últimos episódios da série são marcados por uma intensa disputa de egos, na qual inúmeros sucessores pleiteam o cargo deixado por Cesar. É nesse momento que Marco Antonio tenta consolidar seu poder se aliando a sua ex-amante Attia, mas quando Octaviano, sobrinho de Cesar, descobre que é seu herdeiro por testamento, pulso de ferro que é e pronto para colocar ordem no caos instaurado em Roma, decide sair em busca pelo poder.

Muito mais sombria, a segunda temporada mostra ainda o envolvimento de Marco Antonio com Cleopatra (Lyndsey Marshal), rainha do Egito declarada por Julio Cesar ao final da primeira temporada, e que deu a este um herdeiro legítimo, o que pode comprometer as intenções de Octaviano, que, por sua vez, numa campanha ferrenha, consegue convencer Roma da traição de Marco Antonio para fins de invadir o território egípcio, eliminar a ameaça do sucessor direto de Cesar e consolidar seu poder.

Paralelamente, Pullo tenta ajudar seu amigo Vorenus a sair da escuridão na qual mergulhou logo após uma tragédia pessoal. Os dois mais uma vez se veem envolvidos nos eventos políticos que mudaram a história de Roma, quando Pullo, que ganhou a confiança de Octaviano ao longo da primeira temporada, é compelido a integrar seu exército, ao passo que Vorenus acaba eventualmente fazendo parte da guarda romana de Marco Antonio instalada no Egito, onde o conflito com Roma também sofre algumas mudanças no enredo histórico, e não é dessa vez que temos a Cleopatra culta e estrategista tal como relata a história, sendo ainda o telespectador presenteado com um final interessante e discutível acerca da paternidade de Cesario (Max Baldry), herdeiro de Cesar, bem como seu destino.

Apesar de algumas mudanças ou omissões históricas, a série foi um grande acerto e obteve o sucesso merecido, não apenas por sua excelente adaptação de época, como também por contar com um elenco impecável e cativante, aliado a um enredo deveras interessante, que não apenas tem por foco a história como de fato ocorreu, como também de forma sutil consegue manobrar a trama com engenhosas introduções.

Infelizmente, e muito provavelmente pelo fator orçamentário, «Roma» acabou sendo cancelada, quando muito se pretendia seguir adiante com a história. Segundo Bruno Heller, aliás, a ideia era contar a trajetória do Egito até o Anno Domini, ou seja, início da era cristã marcada pelo nascimento do Messias. Contudo, e de acordo ainda com Heller, não está descartada a possibilidade de um longa-metragem para dar continuidade às aventuras de Lucius Vorenus e Titus Pullo. Espera-se que isso efetivamente aconteça, pois mais do que uma boa lição de história, «Roma» proporcionou um verdadeiro deleite visual aos fãs não apenas do gênero épico, como também de uma distinta adaptação repleta de mistério e conspiração com considerável dose de realismo.

Portanto, fica a dica de série e, para completar, com um arrebatador trailer da primeira temporada:

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