Meu Melhor Amigo

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« Tu és responsável por aquilo que cativas » (Antoine De Saint-Exupéry, em « O Pequeno Príncipe »).

Podemos todos contar nos dedos os nomes dos filmes que mais mexeram conosco, e ainda assim vão faltam alguns (filmes, dedos e talvez ambos). Para mim, « Mon Meilleur Ami » (conhecido por aqui como « Meu Melhor Amigo ») é exatamente um desses filmes.

O fato é que, não muito recentemente descobri o cinema francês, e antes disso eu o via com certo preconceito, já que em sua maioria os filmes franceses parecem ser tão pretenciosos e quase sempre sem alguma lição de moral, não que seja uma regra, no meu caso, assistir a um filme que deva necessariamente ter uma mensagem nele embutida. Volta a meia, gostamos de nos surpreender com algo inovador e com um final inesperado. Mas geralmente é isso mesmo que procuramos, o simples, o previsível, algo com o que podemos nos identificar e ainda assim tirar algum proveito, e não foi acaso que, em minhas andanças pela seção de filmes franceses de uma videoteca, encontrei « Mon Meilleur Ami », que segue a velha fórmula, mas com novos ingredientes.

Confesso que o filme chamou mais a atenção por conta do carisma e da versatilidade do ator que interpreta um dos personagens principais, qual seja, Daniel Auteuil, que já havia me conquistado por conta de suas performances em filmes como « Le Placard » (2001), « L’adversaire » (2002), « 36 Quai des Orfèvres » (2004) e « Caché » (2005), filmes esses, aliás, que fogem completamente do padrão a que estamos tão acostumados.

Em « Mon Meilleur Ami », temos uma narrativa simples, que poderia muito bem passar desapercebida ou ser equiparada à de filmes que costumávamos assistir nas sessões da tarde, mas que conduzida por um elenco carismático que não apenas inclui Daniel Auteuil, mas Julie Gayet e Dany Boon, e a direção de Patrice Leconte, aliado ao fato de se tratar de uma comédia como há muito tempo não se via, considerando que nos dias de hoje é o linguajar indecente que torna os filmes de comédia engraçados, e acaba conquistando o telespectador.

No filme, o personagem de Auteuil é François Coste, sócio de um antiquário. Apaixonado por objetos raros e antigos, ele é um exímio especialista em tudo o que diz respeito à arte. Logo no começo, temos uma cena em que François e sua sócia, Catherine (Julie Gayet), participam de um leilão de peças de colecionador, onde, por mero capricho, ele adquire para si um vaso egípcio de valor astronômico, o que acaba causando um confronto entre os dois.

No dia do aniversário de François, ele se reúne com alguns colegas para um jantar, e Catherine, ainda magoada com a aquisição por seu sócio do objeto que pode comprometer o antiquário, que já não anda faturando bem, acaba lançando ao vento a assertiva de que ele não tem um amigo de verdade. François ri, e diz que todos ali são seus amigos, mas acaba se surpreendendo quando estes lhe dizem que não o são. Ainda assim, ele alega possuir um verdadeiro amigo que nenhum deles conhece. Catherine então o desafia a apresentar-lhes esse seu verdadeiro amigo no prazo de dez dias, caso contrário ele deverá entregar o vaso, ao que François aceita o desafio.

Depois disso, temos uma sucessão de eventos engraçadissimos, que incluem um até então sempre carrancudo François se vendo desesperado atrás de alguém a quem possa creditar o título de amigo de verdade. Ele tenta se aproximar de pessoas que conversam em restaurantes e mesmo na rua para saber como se tornaram amigos, e acaba até mesmo passando pela vexatória situação de ter que comprar um livro para saber como fazer amigos, até que conhece o divertido, falante e carismático taxista Bruno Bouley (Dany Boon), aspirante a participante da versão francesa do programa « Quem quer ser um Milionário? ».

Determinado a ganhar a aposta com Catherine, François acaba pedindo ajuda ao taxista, sempre simpático e amigável com todos à sua volta, acreditando que este pode lhe ensinar os truques para conseguir fazer um amigo de verdade, embora nem mesmo Bruno pareça ter um. Mas François acaba descobrindo que as coisas não são tão fáceis como pensa quando percebe que não tem o menor jeito para aplicar a regra dos três « s » e que, segundo o taxista, « amigo verdadeiro é aquele para quem você pode ligar às 3:00 horas da manhã para pedir ajuda com um problema » (aliás, uma das melhores frases no filme).

E nessa busca desenfreada de François por um amigo de verdade que o filme segue, com surpresas engraçadas e muito agradáveis, bem como passagens memoráveis, como a conversa entre Bruno e Louise (filha de François), e mesmo a descoberta dos motivos pelos quais este não tem mais um amigo verdadeiro, tudo para ao final descobrirmos que amigo é aquele que conquistamos e com o qual podemos sempre contar, tal como pregado pelo taxista.

Bom, sou muito suspeita pra falar tão bem do filme, seja porque sou uma grande fã de Daniel Auteuil e sua interação com Dany Boon renderam momentos agradabilíssimos, seja pelo fato de que a narrativa me pegou totalmente desprevenida, por mais que eu soubesse do que se tratava a história, pois, enquanto assistia a « Mon Meilleur Ami », percebi que amigos de verdade são mais raros do que se imagina, e mantê-los nos dias de hoje, onde todos corremos contra o tempo e estamos sempre muito mais voltados para nós mesmos, é um grande desafio. Percebi também, ao assistir ao filme, que amigos estão mesmo longe de ser aqueles nossos meros contatos sociais e profissionais, as pessoas com quem tratamos no dia-a-dia, ou mesmo que encontramos casualmente através de outros contatos para sair de vez em quando num bar e falar um monte de besteiras, mas aqueles com quem podemos verdadeiramente contar nos nossos momentos mais difíceis, e que estão sempre presentes, seja para tomar um café agradável no meio de um duro dia de expediente, seja para dar uma volta num dia agradável de domingo. Enfim, Patricia Laconte soube mostrar magnificamente bem o que um amigo de verdade representa.

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