Review literário : A Sombra do Vento, de Carlos Ruiz Zafón

Sobre « A Sombra do Vento », vale inicialmente mencionar que a campanha de marketing de venda do livro não é nem um pouco mentirosa quando diz que « o enredo mistura gêneros como o romance de aventuras de Alexandre Dumas, a novela gótica de Edgar Allan Poe e os folhetins amorosos de Victor Hugo ». A obra, de fato, é tudo isso e até um pouco mais. Tem ainda a identidade de seu autor, Carlos Ruiz Zafón, assinalada com sua escrita impecável, ora em prosa poética, ora em prosa irônica, e a descrição abarrotada de sentimento por parte do mesmo quando descreve as ruas de sua amada Barcelona dos anos 40 e 50, prova cabal de sua notória paixão pela preservação da memória.

A história de « A Sombra do Vento » começa mostrando nosso protagonista, o jovem Daniel Sempere, filho de um livreiro de Barcelona que, numa tentativa de acalentar a tristeza do garoto pelo fato deste não conseguir mais se lembrar do rosto de sua falecida mãe, leva-o para conhecer o « Cemitério dos Livros Esquecidos », lugar conhecido por poucos, e que na verdade é uma biblioteca secreta e labiríntica que se presta como depósito para as obras abandonadas pelo mundo. Lá, Daniel encontra um exemplar de « A Sombra do Vento », e sua fixação pela história do jovem e misterioso autor, o também barcelonês Julián Carax, ganha força e constrói a narrativa.

Em seu caminho pela busca da verdade, cada vez mais fascinante no decorrer da leitura, o jovem Sempere acaba esbarrando com personagens muito interessantes, como o adorado Fermín Romero de Torres, mendigo de passado glorioso e senso de humor inigualável, responsável por algumas das melhores tiradas no livro, e que acaba se tornando seu grande aliado em suas investigações; assim como Nuria Monfort, filha do guardião do « Cemitério dos Livros Esquecidos », e que nada mais é do que uma mulher triste e que guarda doloroso segredo; e Javier Fumero, o cruel policial que da mesma forma que Daniel, dedica a vida a perseguir o fantasma de Carax.

Na medida em que descobre mais fatos relevantes sobre a vida do autor de « A Sombra do Vento », mais Daniel passa a entender os mistérios de suas obras, as quais têm sido rastreadas e destruídas por um misterioso homem que se denomina Laín Coubert, personagem que no livro de Carax nada mais é do que o diabo, ao mesmo tempo em que relaciona todos esses eventos à história de amor iniciada no começo do século entre o próprio autor, filho de um modesto chapeleiro, e Penélope Aldaya, filha de uma família da alta sociedade de Barcelona. Não demora muito para que identifiquemos os eventos na vida de Carax como semelhantes aos vividos pelo próprio herói da história, o qual acaba se envolvendo amorosamente com Bea, irmã mais velha de seu melhor amigo Tomás Aguilar, causando um grande rompimento entre os dois.

Por óbvio que não vou mencionar o desfecho da narrativa, mas posso assegurar que o livro é tão fascinante quanto a vida de mistérios de Julián Carax, que na história é descrita como uma verdadeira matrioshka, ou boneca russa se preferir, que nada mais é do que um brinquedo constituído por uma série de bonecas, geralmente feitas de madeira, colocadas umas dentro das outras. Ou seja, a cada novo fato desvendado por Daniel e seu fiel escudeiro Fermín durante o curso da narrativa, um novo mistério é revelado, e assim sucessivamente, até chegarmos a um final arrebatador.

Não se pode deixar de mencionar que o cenário da grandiosa Barcelona das primeiras décadas do século XX, com suas largas avenidas e seus casarões abandonados, é a grande coadjuvante da história, conferindo à trama uma atmosfera gótica e espectral, e constribuindo sobremaneira para a ambientação da narrativa, na qual o leitor, juntamente com Daniel, mergulha numa busca desenfreada pela verdade acerca de Julián Carax, na medida em que também acaba se identificando com o jovem Sempere ao se interessar tanto pelo autor daquele livro que mudou sua vida.

Após ler « A Sombra do Vento », o qual, longe de desmerecê-lo, mas a contrário do que muito se tem dito por ai, não se trata nem um pouco de uma trama eletrizante, e sim uma história de mistério fascinante e genial, que verdadeiramente instiga o leitor mesmo com seu ritmo lento, fica a tristeza de saber que se trata esse apenas do primeiro romance escrito por Carlos Ruiz Zafón, que atualmente vive em em Los Angeles, California, onde escreve roteiros para o cinema e trabalha num novo romance, além de colaborar nos jornais espanhóis La Vanguardia e El País. A título de curiosidade, o autor já escreveu anteriormente histórias voltadas para um público mais jovem, como « O Princípe da Névoa », que vendeu mais de 150 mil exemplares na Espanha e foi traduzido em vários idiomas, « El Palacio de la Medinoche », « Las Luces de Semptiembre » e « Marina ».

Felizmente, aos que gostaram do trabalho de Zafón em « A Sombra do Vento », há rumores de que sua mais recente obra, « O Jogo do Anjo », que se encontra disponível nas livrarias, é tão bom quanto aquele. Já me esmerei na leitura deste novo romance, e posso garantir que, até onde estou, a obra parece excepcional, mas falar mais sobre ela fica para um tópico mais adiante. :)

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